O livro me deu um pouco mais de trabalho do que eu pensava, mas gostei bastante. É uma coletânea de ensaios sobre temas ligados a o ato de dar lugar a outra identidade, conhecimento ou decisão.
Enfim, sobre desistir ou deixar de fazer algo para que outra realidade se construa. Ressignificar positivamente um ato que pode parecer auto destrutivo para quem o vê de fora. Dar significado a uma situação que já não tem sentido, buscando outras formas de ser, ou abrindo mão de algo. E também a reação a uma exclusão ou desilusão. Deixar de acreditar cegamente pode abrir o caminho para uma visão mais crítica sobre o mundo e sobre si mesmo. Tomar consciência do papel da auto censura em nossas vidas.
O autor é um erudito e psicanalista especialista na obra de Freud, então há uma base bastante consistente por trás de sua articulação de como se constroem algumas crenças e condicionamentos.
“Desistir é uma forma de mudar a aparência das coisas”
“Desistir é admitir a perda do desejo…e se torna o que busco e quero fazer em seu lugar”
“Desistir requer um senso de encerramento. É saber, na medida do possível, quando chegou a hora de parar.”
“A arte resiste e sabota nossos hábitos de percepção familiares. A ciência, é claro, nos ajuda com nossa familiarização.”
“O self insubmisso da espontaneidade, do desejo e da singularidade, o self comprometido com o brincar, e não com a adaptação, ou melhor, com a obediência, envolve nada mais nada menos que coletar os detalhes da experiência de estar vivo”
“Matar a vida um pouco a torna viável.”
“O desejo é a fronteira onde querer e precisar se torna incerta”
“Todas as supostas categorias de diagnóstico são, entre outras coisas, descrições de formas de não querer.”
“A privação, a frustração de uma real satisfação, é a primeira condição para a geração de uma neurose, e está longe de ser a única”.
“Se o sucesso, se conquistar aquilo que você deseja leva ao adoecimento, vale a pena pensar se seu desejo não seria de fato ficar doente, e por isso você se esforçaria para alcançar o sucesso; ou então se não é esse sucesso o que você realmente quer”.
“Quando uma pessoa é excluída, outra coisa fica disponível, mesmo se a primeira coisa disponível for a difícil e exaustiva situação de ficar de fora”
“A exclusão pode implicar o despertar de outras oportunidades que a inclusão tornaria impensáveis”
“A exclusão começa como uma tragedia. E a tragedia, sugere Freud, é essencial para o desenvolvimento”
“Só começamos a vida depois de ser excluídos”
“O que chamamos de identidade pode ser a autocura cultural para uma usurpação: só começamos a nos reconhecer como alguém depois de sermos deslocados, substituídos ou rejeitados.”
“Meu bem será o mal - presume-se que as pessoas precisam de algo, de uma ideia ou crença organizadora, que se não pode ser bom, deve ser ruim; o essencial é que seja alguma coisa”
“O ser humano moderno está por definição em conflito consigo e com os demais, fundamentalmente incoerente em um incansável conflito interno entre partes rivais de si mesmo e com outras pessoas igualmente cindidas: e portanto sempre tentado por formas de soberania, domínio e unidade, pela fantasia do eu como senhor do que supunha ser sua própria casa”-
“O mal estar na civilização: a perda de confiança nos ideais culturais, na própria natureza humana”
“Freud sugere que sofremos por sermos insuficientemente curiosos sobre nosso sofrimento”
“As crenças as quais aderimos com mais fervor são formas de desconhecer”
“Se desde o início somos criaturas censuradas e que censuram a si mesmas, o que nossos censores formadores e aparentemente informados querem para nós? “
“Sabemos que o censor é seu descendente, o supereu, fizeram bem o seu trabalho quando sabemos o que estamos fazendo, quando sabemos onde estamos”
“A censura mais eficaz é invisível ou silenciosa, ela jamais se apresenta como censura e sim a maneira como fomos criados, nossa formação”
“A implicação é a de que sem a censura haveria uma violência incontrolável”
“graças as artimanhas do nosso censor, em nossos sonhos podemos representar nossos desejos proibidos”
“O censor não é nem onisciente nem onipotente, ele pode ser suspenso, podemos trabalhar com ele. A censura pode ser suspensa e modificada ao longo do tratamento psicanalítico”
“Freud quer que perguntemos que coisas se tornam possíveis a partir daquilo que você deseja evitar e das maneiras que encontra para evitá-lo?”
“A infância era uma iniciação a perda. O que chamamos de desenvolvimento é o que fazemos da perda. A cultura serve para dominar a perda”
“O que temos que sacrificar para nos desenvolver, para seguir para o próximo estágio de nossa vida?”
“Abrir mão é uma forma de abrir brechas. E nos perguntar para que, para quem é por que abrimos estas brechas”