Nuno Franco Pires nasceu em Elvas. Estudou Gestão de Empresas, mas é na escrita que se encontra desde pequeno. Foi coautor do blog Dualidades(asdualidades.blogspot.com) onde diariamente eram exploradas as diferenças entre o litoral e o interior do país, sempre inconformado com a realidade de um país a dois tempos. Escrever não é profissão, mas paixão, fá-lo por prazer, publicar é consequência. Arriscou fazê-lo no final de 2014 publicando "Searas ao vento" um romance que explora memórias de família e a história do Alentejo do início do século XX. Uma homenagem às raízes alentejanas e à resiliência de um povo. Cinco anos mais tarde saiu a luz a segunda criação, "Um dia a aldeia acabou", a escassos dias de iniciar o primeiro confinamento. Sob a forma de edição de autor, explora neste romance temas como o envelhecimento e desertificação de uma aldeia alentejana em luta por se manter viva para além da morte da última das suas habitantes, Esperança. Sombras da raia é o seu terceiro romance, o primeiro de uma trilogia que pretende dedicar às relações transfronteiriças entre Elvas e Badajoz. Abril é o seu mais recente livro. Gosta da interação com os leitores, da troca de ideias sobre personagens e histórias, das emoções partilhadas. É participante assíduo em clubes de leitura de vários pontos do país e da vizinha Espanha. Participou em coletâneas com autores de Elvas e dos concelhos limítrofes, bem como da vizinha Espanha, entusiasta que é da cultura local e sua dinamização. Nesse sentido, escreveu artigos de opinião para portais e locais. Integra o painel de tertulianos da rúbrica "Conversas de barbearia" do blog Três Paixões onde quatro amigos ocupam regularmente as cadeiras da barbearia, propriedade de um deles, para discutir os temas quentes da cidade e da região. Considera-se, acima de tudo, um contador de histórias.
Neste novo romance de Nuno Franco Pires regressamos a Elvas onde reencontramos algumas personagens do livro anterior, Sombras da Raia, principalmente o núcleo familiar dos Castro Gomes, herdeiros de Ernesto Castro Gomes, proprietário do Monte do Loreto. O país está em polvorosa, é dia 25 de Abril de 1974 e acaba de rebentar uma revolução conduzida pelas Forças Armadas para derrubar Marcelo Caetano do poder. Dois dias depois as ondas desta revolução chegam a Elvas e mudam completamente a vida dos irmãos Castro Gomes. Afonso, o primogénito e herdeiro do património latifundiário do pai começa a ficar preocupado com a segurança da família e do seu negócio. Recusa-se a sair da cidade pois julga-se acima de todos, é um senhor respeitado pelos trabalhadores e não concebe ser desautorizado ou agredido seja por quem for. Duarte, o irmão mais novo, é militar e muito considerado pelos habitantes da cidade, tenta convencer o irmão a fugir por uns tempos, faz-lhe ver que muitos não esquecem as denúncias que Afonso fez à Pide sobre os seus conterrâneos. Na ausência de Afonso, Mia, irmã adoptiva dos Castro Gomes fica à frente dos negócios da família tendo como braço direito o sobrinho Luís, único filho de Afonso e Almudena. Quando tudo fazia crer que a tranquilidade voltava a Elvas e à vida dos Castro Gomes um acontecimento que por uns é considerado inócuo mas por outros terrível e de consequências inimagináveis, traz de volta Afonso a Elvas e de um momento para o outro uma catástrofe toma conta do Palacete dos Castro Gomes. Nuno Franco Pires traz-nos mais uma vez uma excelente saga familiar onde acompanhamos a idade adulta dos irmãos Castro Gomes após a morte trágica da mãe e como conseguiram crescer rodeados de afecto pelo pai e por Matilde, a empregada da casa que gostava deles como se fossem seus filhos. Abril, é um romance que confirma a excelente escrita de Nuno Franco Pires que nos transporta para 1974 onde o autor nos transmite de forma magistral o sentimento de incerteza no futuro após a Revolução dos Cravos por parte de alguns, mas também a resistência de abdicar de certos valores e costumes que estavam tão enraizados no Estado Novo por outros.
É a segunda vez que me vai ser difícil colocar em palavras o que senti com um livro do Nuno. Esta obra faz parte de uma trilogia dedicada à Raia, que começou com o livro anterior, “Sombras da Raia”.
Voltamos a acompanhar as famílias Dez Reis, gente humilde e trabalhadora e Castro Gomes, lavradores e com uma reputação a manter. O autor descreve de forma exímia todas as personagens centrais da trama. Cada vez mais acho que, apesar de o Nuno ser um grande contador de histórias, é um grande escritor de personagens. Além disso, escreve como se nos estivesse a contar a história mesmo ali ao pé de nós, o que é simplesmente maravilhoso e para quem é alentejano e conhece os regionalismos que estão lá é ainda mais enriquecedor.
É uma obra que mostra bem como se vivia no Alentejo raiano antes da Revolução e o que aconteceu logo a seguir, quer do lado dos apoiantes do antigo regime, como de quem apoiava a mudança. Era algo diferente do que se vivia nos grandes centros urbanos.
Mais uma vez, tenho aqui o meu Alentejo, aquele onde fui criada e onde vivo. O Alentejo contado pelos meus avós e pais, os lugares que conheci e já lá não estão e os lugares que apenas conhecia de nome. Para mim é impossível não sentir um aconchego quando leio sobre histórias bem contadas que se passam na minha cidade e mais ainda quando a história é tão bem contada e nos surpreende.
É uma obra imperdível 50 anos depois do 25 de abril. Leiam!
Não existe um único livro que eu possa dizer que não gostei do Nuno. Não existe. Este “Abril” veio na altura certa, no momento certo, para me aliviar a dor de algumas coisas menos boas que me têm vindo a acontecer na vida. “Abril” é passado nos mesmos lugares que conhecemos do “Sombras da Raia” (Elvas e Badajoz) e mais uma vez, e voltando atrás no tempo face ao “Sombras da Raia” na sua fase mais póstuma, acompanhamos as famílias Castro Gomes/Dez Réis durante a revolução dos cravos. O Nuno encanta-nos com a beleza com que escreve e descreve os acontecimentos daquela noite em Elvas e também coloca a nu, as convicções de alguns dos protagonistas deste livro, nomeadamente de Afonso (que tem que fugir com a esposa para Badajoz, para casa do cunhado) fervoroso adepto do regime que se vê a braços com a perseguição de quem quer ser livre e se revolta contra os grandes latifundiários, e Duarte, irmão mais novo de Afonso, Militar atormentado pela sua comissão no ultramar e que perde o amor do filho Manuel. Este Romance também nos introduz uma nova personagem, uma refugiada austríaca, Mia, que é acolhida pela família Castro Gomes após a 2ª Guerra Mundial, fugindo da miséria e da morte certa. Mia torna-se uma quase irmã para Afonso e Duarte e acostuma-se à vida em Elvas, crescendo e aprendendo. E guarda segredos. Este romance, cheio de segredos que podem deitar por terra a vida como as famílias Castro Gomes e Dez Réis conhecem, tem a leveza de ser algo que mesmo sendo ficção, conseguimos visualizar, e a empatia pelas personagens, a forma como as mesmas são construídas, detalhadas, agarram-nos sem conseguirmos escapar até lermos a última frase do último capítulo. E que final… surpreendente, cheio de simbolismo, e que promete uma sequela cheia de revelações que ainda aguardamos que sejam feitas. Nuno, obrigado por este livro. Pela melodiosa escrita, pela forma como descreves terras que tanto amo, e aguardo o próximo com muita ansiedade. Viva a Liberdade! 25 de Abril SEMPRE! @bibliotecamil_insta