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Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975: Episódios menos conhecidos

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«Se houve vários "25 de Abril", "11 de Março" e "25 de Novembro", pode-se, porém, concluir que, no primeiro dia, em 1974, a ditadura portuguesa com a duração de 48 anos, nas suas fases militar e civil, de António de Oliveira Salazar e depois de Marcello Caetano, foi decididamente extinta.»

«Neste livro apresento uma análise pessoal de episódios ocorridos entre os anos finais da ditadura e o 25 de Novem­bro de 1975, com destaque para o que aconteceu à ex-polícia polí­tica e para a ação dos EUA, França e Alemanha nesse período relativamente a Portugal.

Como se verá, não se trata de qualquer análise exaustiva de todas as questões em torno da implantação da democracia em Portugal. Também não serão analisadas as movi­mentações populares, rapidamente controladas pelos partidos depois de um muito breve período de espontaneidade e autonomia.

A autonomia do campo político é o que se optou por aqui ana­lisar, através do estudo das principais instituições de poder erguidas durante o processo que se desenvolveu no período entre os dois "25", de Abril de 1974 e de Novembro de 1975, quer entre os militares, quer entre os principais partidos políticos portugueses.»
Da Introdução

472 pages, Paperback

Published March 1, 2024

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About the author

Irene Flunser Pimentel

44 books37 followers
IRENE FLUNSER PIMENTEL nasceu a 2 de Maio de 1950, em Lisboa. Licenciou-se em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1984) e conclui o mestrado em História dos Séculos XIX e XX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese Contributos para a História das Mulheres no Estado Novo: as organizações femininas do Estado Novo (Obra das Mães pela Educação Nacional e Mocidade Portuguesa Feminina), 1936-1966 (1996), onde se doutorou em História Política e Institucional Contemporânea, com a tese A polícia internacional de defesa do Estado/Direcção Geral de Segurança (PIDE-DGS) 1945-1974 : história da polícia política do Estado Novo (2006). Foi bolseira de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, com um projecto sobre a justiça política pós-25 de Abril, e é investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC-FCSH/UNL). Colaborou ainda, entre 1994 e 2008, na revista História, da qual foi editora até final de 2001. Publicou diversos artigos de História em jornais e revistas portuguesas e estrangeiras, sobre diversas instituições do Estado Novo - organizações femininas e de juventude, polícia política -, a Segunda Guerra Mundial, o nacional-socialismo alemão e o Holocausto, entre outros temas. Colaborou em enciclopédias, dicionários e obras conjuntas. Participou em exposições, colaborou em documentários e programas de rádio e televisão e intervém regularmente em colóquios, conferências e seminários. Distinguida com o Prémio Pessoa (2007), com o Prémio Seeds of Science, na categoria «Ciências Sociais e Humanas» (2009) e com a a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores (2025) e foi condecorada com a Ordem Nacional da Legião de Honra pelo Governo de França (2015).

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May 20, 2024
Diogo Freitas do Amaral sublinhou que, «ao começar por ser, fisicamente, um golpe militar, do ponto de vista político-jurídico, o 25 de Abril foi, desde o início, uma Revolução», na «intenção dos que o fizeram». Observou ainda ter-se tratado de uma revolução, também devido ao «programa político que anunciaram ao país», pois este pretendeu «uma profunda transformação de carácter político, económico e social».

Irene Flunser Pimentel não é senhora para temer nem a história nem a reação à história. Isto deveria ser, nesta fase, ponto assente. E embora entenda a ressalva: «Neste livro apresento uma análise pessoal de episódios ocorridos entre os anos finais da ditadura e o 25 de Novembro de 1975», não concordo nada com ele, e este livro não é uma análise pessoal de nada até chegarmos às Notas Finais, e isso é inatacável.
Fruto de larga investigação (Irene Flunser Pimentel tem tantos anos de estudo como eu tenho de vida), o grosso do livro é, na realidade, de teor bastante mais expositivo do que o leitor estaria, à partida, à espera, afastando-se propositadamente, no espírito da investigação científica, da narrativa histórica; oferecendo factos sobre factos, dados sobre dados para, como a autora refere, chegar à aproximação da realidade:

[...]há que confrontar todas estas e outras perspetivas e narrativas dos factos, interpretando-as e tendendo para a procura de uma verdade que ultrapasse as memórias discordantes e individuais. É o que faz a História, desde que tenha acesso a uma grande variedade de fontes e consiga tender para o máximo de neutralidade possível, pois a verdade absoluta é inatingível.

Posto isto, Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975 é um livro que se espraia por diversos eventos (de teor político) menos badalados, sempre com a preocupação de elencar números, autores e atores, dados inéditos e dados de terceiros. No espaço de ano e meio de história portuguesa, Irene Flunser Pimentel analisa o percurso executado desde a guerra colonial, como sentida na metrópole, fazendo caminho até ao cenário de guerra africano, oferecendo um ponto de partida para as motivações humanitárias (que também o foram) da revolução:

No final deste ano de 1965, já estavam envolvidos na guerra em África 85 mil militares portugueses, respetivamente, cerca de 52 mil em Angola, 18 mil em Moçambique e 15 mil na Guiné. Os jovens portugueses eram obrigados a cumprir o serviço militar, que durava entre dois e quatro anos, incluindo o período de recruta e uma comissão de serviço de cerca de 72 meses numa colónia africana em guerra. Alguns deles, por razões económicas e/ou políticas, saíram clandestinamente do país, atravessando a fronteira «a salto», para nunca mais voltarem enquanto durasse o regime.

Em 16 de dezembro de 1972(...) tropas coloniais portuguesas reuniram os habitantes de Wiriyamu, incluindo mulheres e crianças, no largo principal da povoação e ordenaram-lhes que «batessem palmas e que cantassem para se despedirem da vida». Em seguida, abriram fogo e mataram com granadas os que escaparam às balas.
O massacre estendeu-se a quatro povoações vizinhas ao longo do rio Zambeze, numa região designada pelos missionários católicos como «a terra esquecida por Deus». No final do dia, perto de 400 elementos da população tinham sido mortos, e os seus corpos haviam sido queimados «em piras funerárias ateadas pelos soldados com o capim que cobria as palhotas».
[...]
Segundo a lista das vítimas, (...)teria havido perto de 500 mortos, dos quais 31 «por ação do rebentamento de granadas lançadas para o interior de palhotas com as portas trancadas» e dez devido a agressões e pontapés.
Quatro mulheres morreram depois de terem sido violadas, duas grávidas foram esventradas, com os fetos expostos, e «três tiveram direito a um golpe de misericórdia depois de terem sido violenta e persistentemente espancadas sem terem revelado informações úteis...».


Chegado ao 25 de Abril, depois de introduzir a chamada «primavera marcelista», o livro alarga-se numa analogia detalhada das movimentações que desencadeiam o golpe militar - desde uma postura mais corporativa por parte dos militares em 1973/1974, ao desencadear da cisão com o regime:

Otelo explicaria que a sua estratégia se baseou no facto de todas as unidades terem uma missão específica, a «mais mediática» das quais ficou a cargo da Escola Prática de Cavalaria (EPC) de Santarém. Sem terem objetivo concreto, as respetivas tropas deveriam deslocar-se para Lisboa, para «atrair, como se fosse mel, as forças governamentais».
Otelo contou ter dito ao capitão Salgueiro Maia, comandante das forças dessa unidade, para arranjar «o maior número de blindados e colocar neles a tropa toda em cima, com os arreios à maneira, capacete, arma, metralhadoras». Depois, deslocar-se-ia «pelo itinerário mais importante da capital», aonde chegaria às cinco da manhã com «aquele estardalhaço todo», acampando com todas as suas forças no Terreiro do Paço.
À pergunta de Salgueiro Maia sobre o que faria depois, Otelo Saraiva de Carvalho disse ter-lhe respondido: «Pões um pelotão a guarnecer o Banco de Portugal, outro a guarnecer as instalações da Marconi e ficas ali». A ideia era atrair Cavalaria 7 e outras unidades militares da capital, favoráveis ao governo, bem como a DGS, e «aguentar com os blindados». Se, por acaso, algum ministro estivesse num gabinete do Terreiro do Paço, a missão era prendê-lo.


Chegando a focar pequenos detalhes que acabaram por ficar para a história, o livro não se esgota no retrato rigoroso dos «episódios menos conhecidos», mas, dentro desse mesmo espírito, procura detalhar os pequenos grandes passos que se deram para encaixar cada peça da engrenagem:

Otelo Saraiva de Carvalho pedira a Almada Contreiras que estabelecesse o sinal de partida para o golpe de Estado. Inspirando-se num modelo aplicado no Chile, este último, juntamente com o jornalista Álvaro Guerra, escolheu para senha de partida da operação «Viragem Histórica» a canção de José Afonso «Venham mais Cinco».
Na segunda-feira anterior ao 25 de Abril, Almada Contreiras e Álvaro Guerra encontraram-se, «para dar os últimos retoques na emissão do sinal de aviso às forças para saírem para cumprirem as suas missões». O primeiro foi, porém, informado que a canção «Venham mais Cinco» estava proibida de passar na rádio e que o disco com a faixa não existia na Rádio Renascença. Era no programa Limite que o locutor Leite de Vasconcelos, contactado por Álvaro Guerra, iria pôr no ar a canção escolhida, antecedida da leitura de uma estrofe da mesma. Por isso, Almada Contreiras optou pela transmissão da canção «Grandola, Vila Morena», que, não estando censurada, podia ser transmitida no programa.


Mas as ideias centrais deste estudo não se prendem com cronologias ou curiosidades. O seu valor reside, isso sim, no questionamento de situações ainda não respondidas...

[...]uma das perplexidades do 25 de Abril foi a não atuação da DGS contra os elementos do Movimento dos Oficiais que nesse dia derrubaram o regime. Alguns destes manifestariam mais tarde a opinião de que essa polícia política sabia, desde janeiro de 1974, que algo se iria passar. No entanto, como estivesse treinada para apenas lidar com civis, não se considerou responsável por deter oficiais das Forças Armadas, com os quais colaborava aliás nos terrenos da Guerra Colonial.

...na apresentação de dados à luz do conceito de subjetividade da memória (ou efeito Rashomon, como a autora opta por o apresentar), e, sobretudo, pelo destaque que dá à interferência externa na política nacional durante todo o processo revolucionário - sem esquecer o peso das políticas de teor fortemente anti-comunista que já se associavam ao regime, bem como o posicionamento de extrema-direita de certas alas já após o 25 de Abril.

No seu conjunto, o estudo de Irene Flunser Pimentel cumpre com os parâmetros que ela estabelece logo desde início: revelar dados sobre a postura dos serviços secretos de vários países democráticos durante o período que medeia entre o golpe de Estado dos Capitães de Abril e a estabilização de um regime livre e democrático em Portugal. O estudo não foge ao rigor como não foge da análise do campo político - o que pode tornar a sua leitura produto para um nicho de mercado bastante reduzido -, mas, para quem não receie essa incursão, Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975, escapa ao mediatismo e ao consumo fácil dos muitos livros que foram editados em catadupa por ocasião destes 50 anos de 25 de Abril e, indiretamente, acaba por nos recordar que a história é cíclica e nunca estamos assim tão longe de ver repetir certos acontecimentos que, certamente, preferíamos deixar bem enterrado.

Relatado pelo socialista António Campos a Isabel Nery é o interessante episódio de uma conversa entre Mário Soares com o seu «amigo» François Mitterrand após 25 de novembro de 1975. O primeiro terá então transmitido ao segundo que o grande problema em Portugal não era o Partido Comunista, mas, sim, «como manter a contestação à esquerda e segurar a direita dentro da democracia».
Isto é, derrotado o PCP, havia que travar a extrema-direita que queria o poder «não democrático», «um novo 28 de Maio de 1926».



Vale a pena escutar a emissão do podcast Mais Lento Do Que a Luz, com a autora:
https://omny.fm/shows/mais-lento-do-q...
Profile Image for Alexandre Andrade.
Author 23 books40 followers
June 21, 2025
É um livro onde a pequena e a grande história se encontram. Seguindo a ordem cronológica, e privilegiando os factos em detrimento da análise, a autora conta-nos as movimentações, encontros, coincidências e decisões que estiveram por detrás de acontecimentos que todos conhecemos: o 25 de Abril, o 11 de Março, as eleições para a Constituinte, o Verão Quente, o 25 de Novembro. Impressiona deveras a maneira como eventos tão determinantes para a história recente de Portugal dependeram, tantas vezes, de pequenos detalhes sob a forma de telefonemas, reuniões, desencontros, escolhas feitas sob pressão, compromissos. O 25 de Novembro, hoje em dia tão na berlinda e transformado em arma de arremesso político sob forma de efeméride simplificada e pasteurizada, é um excelente exemplo da complexidade desta fase da história de Portugal. Irene Flunser Pimentel faz plena justiça à ambiguidade multiforme desta data.
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