Esse é o primeiro romance pós-abolicionista escrito por uma mulher negra. Leiam Ruth Guimarães! Viva nossa oralidade, nosso folclore, nossas onomatopeias, nossa fauna, nossa flora e toda essa encantaria que tenta, meio cambaleando, não se perder no meio do progresso. Esse livro é para as netas de contadoras de histórias.
Cheguei nele graças à @impressoesdemaria e ao @clubeimpressoes. Minha edição, da @taglivros, encontrei em um sebo.
Sinopse: Esse texto do Jornal da USP é uma ótima introdução para entender o contexto e os personagens da obra. Em 15 capítulos, o romance conta duas histórias principais interligadas entre si e situadas na fazenda Olhos d’Água, na região rural do Vale do Paraíba, em São Paulo. Nos primeiros quatro capítulos, narra-se a história, em meio aos anos finais da escravidão, de Sinhá Carolina, rica proprietária de uma fazenda escravocrata, cuja filha – Sinhazinha Gertrudes – apaixona-se pelo capataz e foge da propriedade. No restante dos capítulos, conta-se a história de Joca e Curiango, 50 anos depois. O fio condutor se estabelece a partir de Curiango, neta de Miro, irmã de Sinhá Carolina. Nesse segundo núcleo da narrativa, Joca gradativamente conquista o amor de Curiango, porém, depois de se casar, passa a ter o que o narrador chama de “ataques”. Devido aos surtos e à crescente obsessão por uma entidade lendária chamada de “Mãe de Ouro”, ele abandona a mulher e torna-se um andarilho da região.
Memória Coletiva: oralidade, folclore, onomatopéias, ditados, tradições
Em Água Funda, Ruth Guimarães transforma a oralidade popular em literatura para contar uma história que não é apenas de uma fazenda, de um homem ou de uma lenda, mas de um povo. Pela primeira vez tive contato com uma descrição popular e literária da diversidade que é a Mata Atlântica brasileira, pela primeira vez li onomatopéias que traduziram perfeitamente sons tão familiares quanto o coaxar dos sapos no final da noite, pela primeira vez li os ditados ensinados por minha avó no papel — aqueles ditados que parecem antecipar o que vai acontecer conosco, quase como uma premonição, sabe?
Esse livro está nas trincheiras da luta contra o epistemicídio que tenta apagar todas essas sutilezas da nossa cultura e saberes, ricos e diversos. Não é atoa que Ruth Guimarães, assim como Carolina Maria de Jesus, são autoras que ainda sofrem de uma invisibilidade tanto da academia quanto do mercado editorial. Mulheres que lutaram pelas sombras e luzes da memória coletiva.
Modernização Conservadora
O romance, publicado em 1946, é um testemunho da modernização conservadora, que não apenas modifica o ambiente rural, mas apaga memórias, destrói crenças e desorienta aqueles que dependiam dessas referências para existir, o objetivo é integrar comunidades à lógica burguesa, especialmente comunidades negras, indígenas e camponesas.
A primeira vez que conheci esse termo foi em um texto do Marcos Queiroz, “Sertanejo, hegemonia e modernidade”, onde o autor analisa como a antiga paisagem estética da música caipira deixa de existir através das dinâmicas modernas da hegemonia sertaneja, onde a monocultura musical e monocultura econômica coexistem e se retroalimentam.
No livro de Ruth, especialmente na segunda história, os personagens são confrontados com a necessidade de se adaptar a nova realidade imposta pela chegada da “Companhia”, mas essa adaptação não significa, necessariamente, inclusão plena. Pelo contrário, a modernização conservadora chega para os personagens através do truco, do álcool, da precarização do trabalho, da loucura, que servem aos interesses dos novos donos do poder da região.
A terra muda, os costumes se transformam, mas as relações de poder continuam a impedir a plenitude dos modos de vida caipira. Até o zum-zum dos seus modos de comunicação informal — a boa e velha fofoca — passam por censuras e manipulações.
Mãe de Ouro: do familiar ao surto
No centro dessa ruína simbólica está a Mãe de Ouro, figura folclórica que, até onde compreendi, serve como metáfora para os modos de vida tradicionais e da identidade cultural caipira, que são abraçados e, depois, estranhados.
A Mãe de Ouro é descrita como uma mulher alta, vestida de amarelo e com um olhar fulgurante, não é apenas um mito que habita o imaginário dos personagens. Ela representa aquilo que sustenta a cultura caipira — a oralidade, as crenças, os ciclos naturais, os laços comunitários —, mas que se torna incompreensível à medida que a modernização avança. Para Joca, seu contato com a lenda é, ao mesmo tempo, um chamado e um tormento. Ele tenta racionalizar o que vê e sente, mas, ao longo da narrativa, percebe que sua identidade está intrinsecamente ligada a esse mundo que está sendo apagado. Ao negar a Mãe de Ouro, ele nega a si mesmo. Ao se agarrar a ela, já é tarde demais.
A subjetividade dos personagens
A degradação causada pela modernidade não é apenas material — embora a chegada da Companhia e das novas formas de trabalho alterem a estrutura da fazenda e das relações entre patrões e empregados. A destruição mais profunda acontece na subjetividade dos personagens. Os saberes populares, antes fonte de orientação e equilíbrio, tornam-se motivo de descrença e desorientação. A própria linguagem do romance reflete esse embate, oscilando entre a oralidade cheia de ditados e adágios — vestígios de um mundo em extinção — e a frieza de um progresso que transforma a terra e as pessoas em engrenagens de um sistema impessoal.
Os provérbios, os benzimentos, as histórias contadas em conversas ao pé da fogueira formam um inventário cultural que resiste, mas que, aos poucos, se vê sufocado pela lógica produtivista e pela imposição de novas regras. O próprio Joca, inicialmente descrente das superstições, é tragado por essa atmosfera ambígua em que realidade e mito se confundem. Sua jornada é um espelho do processo histórico vivido por muitos: a modernidade impõe uma ruptura violenta com o passado, e aqueles que não conseguem se adaptar são consumidos pelo desamparo.
Como em Água funda…
A metáfora que intitula o romance simboliza o dilema vivido pelo caipira no início do século XX: a necessidade de adaptar sua existência a um mundo urbano e moderno que, apesar de prometer transformação, apenas ressignifica antigas estruturas de poder, mantendo intactos os resquícios do escravismo e do patriarcado:
A gente passa nessa vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez.
O surto
A cena em que Joca, em surto, atinge um colega com uma acha de lenha incandescente é um dos momentos mais simbólicos do romance. O gesto remete diretamente à crença popular de que a Mãe de Ouro pode ser destruída com um tição de fogo. Mas aqui, longe do universo mágico das lendas, o resultado é apenas violência e desespero. Mais adiante, a explosão da caldeira da Companhia, espalhando corpos e destroços, funciona como uma imagem ampliada dessa destruição. Onde antes havia significados compartilhados, agora há loucura e ruína.
O ser-caipira
No fim, a história de Joca é a história de um povo que perde seus pontos de referência. E agora? Onde podem se ancorar? A modernidade, em Água Funda, não significa avanço ou melhoria, mas sim uma devastação que destrói não apenas a terra, mas a alma dos que nela vivem.
A Mãe de Ouro, assim como os modos de vida caipiras, não desaparece simplesmente: ela se torna um espectro, uma lembrança fragmentada que assombra aqueles que um dia acreditaram nela. Joca está condenado a errância, tentando retornar a um lugar que já não existe, mas precisa ser reinventado, recriado e reenfeitiçado.