“É uma celebração ao amor e às suas demências.”
Esse foi o livro do encontro de abril de 2024 no @clubedeficcionistas e, após uma apresentação impecável da colega e escritora Paula de Almeida, tivemos o debate mais acalorado desta temporada até agora.
No livro, a autora e narradora, conta a vida de Fio Jasmim, homem negro criado para não demonstrar sentimentos e para crer que homens de verdade têm muitas mulheres, mas escolhe a mais especial para se casar, gerar, parir e cuidar de seus filhos. Em sua profissão de maquinista, o protagonista percorre o interior de Minas Gerais de trem e, em cada uma das cidades por onde passa, deixa a marca de sua virilidade, um coração partido e filhos, muitos filhos.
No que diz respeito a ele, percebo que a história se aproxima da realidade. Aos 8 anos, na escola, Jasmim teve o papel de príncipe negado por ser um menino negro. O príncipe escolhido foi um menino branco. Com suas muitas mulheres, Fio resgata a possibilidade que lhe fora negada na infância, ser um príncipe negro. A partir desta situação, a autora tangencia temas como traumas de infância, racismo, machismo e um modelo de reprodução de masculinidade que não permite diálogo, afeto ou demonstração de fraqueza; no que diz respeito às mulheres, Conceição criou personagens femininas empoderadas, autossuficientes, que não precisavam de um homem para cumprir os papéis de pai e provedor. Elas não me pareceram muito afetadas pelos impactos das relações que estabeleciam com o moço, exceto uma que se deixou vencer pelo desespero da desilusão amorosa.
Os capítulos são curtos, o que torna a leitura rápida, cada um deles aborda uma relação do protagonista com uma mulher diferente. Como uma canção de ninar, a história tem um ritmo contínuo, sem clímax.
Não me conectei com o livro mas, como fã da Conceição Evaristo, me esforcei para separar obra e autora. Ao mesmo tempo, as opiniões divergiram tanto em nosso debate que acabei concluindo que vale a leitura, suas percepções poderão ser bem diferentes das minhas.