Este escrito foi baseado no depoimento da autora às comissões Nacional e Estadual da Verdade, e inspirado em sua tese de doutorado, publicada em livro sob o título de Guardiães de uma viagem pelas práticas psi no Brasil do "Milagre" ; em seu artigo Cinquenta anos depois , publicado na revista Verve ( puc / sp ); no blog À espera do Asteroide 16 , de Reinaldo Guarany Simões; no livro de poemas Poesia a essa altura do championship , de José Ricardo Novaes; na monografia do Curso de Especialização em Psicanálise O simulacro na clínica , de Ana Monteiro de Abreu; e no livro Amizades contemporâ inconclusas modulações de nós , de Danichi Hausen Mizoguchi. No processo de encerramento deste texto, percebi que escrevia estas memórias após exatos cinquenta anos do ocorrido. Por acaso, o texto foi sendo redigido nos mesmos meses em que estive no inferno – outubro e novembro.
Foi de muito impacto ler um relato tão direto, tão sincero sobre o que de fato aconteceu: a articulação política do movimento estudantil, as perspectivas da militância de esquerda e da juventude socialista. Nada a ser escondido.
Num momento de tanta discussão sobre como a ditadura atingiu a vida privada e afetiva de indivíduos, é diferente ler um relato em primeira pessoa — experiência distinta da ocasião em que li Marcelo Rubens Paiva falando do pai, em Ainda Estou Aqui. Cecília não evita nada: cita todas as suas referências culturais formativas, o nome dos colegas que compartilharam da sua jornada, descreve métodos de tortura dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Não nos poupa de saber o endereço dos locais onde ocorreram as prisões e torturas, e nem o nome completo dos militares que conheceu no percurso, com direito a nota de rodapé explicativa. É bom dar nome aos bois.
Guardo com carinho as passagens em que Cecília nomeia os modos de sobrevivência entre as companheiras de cela; e os trechos em que comenta sobre uma jovem companheira grávida torturada aos 5 meses de gestação, mencionada novamente quando Cecília caracteriza sua própria gravidez e a de outras colegas, ocorridas nos anos que se seguiram à libertação da prisão, como uma maneira de insistir na vida. O relato por inteiro é permeado de muita insistência na vida, na verdade, e de uma coragem muito bonita.
Pra não perder o costume, me lembro novamente das palavras de Lygia Fagundes Telles:
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas.