Estava lendo o primeiro volume dos diários de Virginia Woolf (ed. NÓS) quando lembrei desse pequeno livro, que estava parado na minha estante há pelo menos um ano. ‘A arte do romance’ é uma coletânea de textos “exclusiva” do mercado brasileiro, uma vez que nem Virgínia, nem seus editores, planejaram que tais textos fossem publicados juntos - permitam-me aqui um pequeno parêntese sem qualquer valor: percebi que o mercado editorial brasileiro tem um gosto grande por nomear coletâneas inéditas de textos de Woolf com ‘a arte de [...]’, já que também temos, no Brasil, e somente aqui, uma coletânea de contos chamada ‘A arte da brevidade’ [ed. Autêntica]; contos muito bons, por sinal, e edição primorosa. Bom, voltemos ao escopo do livro em questão. A escolha dos textos aqui reunidos foi bastante feliz, uma vez que eles tanto conversam entre si, como abrangem diversos assuntos. Devemos ler como um livro de seu tempo, algumas coisas realmente estão ultrapassadas, mas estamos falando de textos que remontam a mais de um século atrás; enquanto isso, outros (a maioria, arriscaria dizer) seguem completamente atuais e fizeram ‘previsões literárias’ assustadoramente corretas.
Virginia viaja da escrita à leitura, da teoria à questões de gênero na literatura, e faz tudo isso com uma propriedade que apenas aqueles que vivem e amam a literatura poderiam possuir. É interessante perceber como em seus diários ela escrevia de maneira totalmente crua, sem embelezar, e em suas ficções e ensaios a beleza (beirando o idílico) é algo quase inato.
Poderia fazer uma resenha longa e discutir aqui todos os textos de Woolf neste livro, mas irei reservar isso aos meus cadernos de leitura, e irei ressaltar aqui apenas uma ideia. Virginia afirma que a primeira ‘arma’ da escrita deve ser a emoção, é aí que o leitor se cativa, é aí que nascem os livros que nos prendem. A segunda (e raríssima) ‘arma’ seria a estrutura, a mão de quem tem o dom de uma escrita limpa. Alguns livros (a maioria) teriam apenas a primeira arma, e isso não faz deles livros inferiores, afinal, mexer com nossas emoções não é pouca coisa, é como comer uma comida boa, mas que não necessariamente nos nutre - inclusive, Woolf diz que Jane Austen é uma dessas escritoras da primeira leva. Outros livros teriam apenas a segunda característica, ideias vazias e sem emoção num invólucro de intelectualidade, ou seja, algo dispensável e totalmente detestável, é como fingir gostar de um prato só para parecer superior (vide escargot). E, agora sim, existiriam os clássicos, os grandes livros e grandes escritores, que tiveram a árdua missão de juntar emoção e estrutura, beleza e o método, é a comida que agrada e nutre. Nesse seleto grupo estariam Tolstói, Dostoiévski, Dickens, Henry James, e alguns outros escritores e escritoras. Resumindo, alguns romances são cheios de emoção, mas sem estrutura; alguns são sublimes na construção, mas vazios no sentir; e os eternos são o que juntam os dois, são eles que conseguem pegar o ser humano e colocar dentro de um livro, afinal, como afirmou Galeano, e verdade maior nunca foi dita, somos seres sentipensantes. Emoção, razão, cérebro, vísceras, real, imaginário, toda essa amálgama humana apresenta-se em nossas criações, e Woolf repara nisso muito bem.
Fico por aqui, e vos deixo com Harold Bloom:
“Existe o Sublime alcançado através da leitura, ao que parece, a única transcendência secular que nos é possível, senão por aquela transcendência mais precária que denominamos ‘amor, paixão’.” ( Como e por que ler - ed. Objetiva)
:)