Vashti Setebestas é uma personagem que anda pela Terra atravessando o tempo, transmutando-se em muitas entidades, muitos corpos e muitos povos. Pelo caminho, é perseguida pela opressão de uma narrativa histórica escrita pelos homens. ASMA é um livro radical para tempos radicais, de Adelaide Ivánova, um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea. Um projeto caleidoscópico, que vai de Homero a Virginia Woolf, de Chico Science a Ferreira Gullar.
Adelaide Ivánova (Recife, 1982)é poeta e fotógrafa brasileira, lançou os livros Autotomia (Pingado-prés, fotos) e Polaróides (e negativos das mesmas imagens) (Cesárea, 2014, poemas e crônicas), Erste Lektionen in Hydrologie (und andere Bemerkungen) (edição da autora, 2014, fotos) e O martelo (Douda correria, 2016, poemas). Tem trabalhos fotográficos publicados por diversas revistas internacionais. Adelaide Ivánova vive e trabalha entre Colônia e Berlim, na Alemanha. Há ainda mais material que vale a pena conferir no site https://adelaideivanova.com.[escamandro]
Vou ter que concordar com um monte de gente e dizer que é o livro do ano. Autêntico em sua máxima potência e delicioso de ler, dei risada, fiquei com o estômago embrulhado, me senti inspirada, forte e leve, tudo ao mesmo tempo.
aborda questões interessantes e importantes de forma super multicultural, divertida, uma linguagem ao mesmo tempo coloquial e formal, com referências de diversos artistas e formas de expressão artística diferentes. apesar de não ler muita poesia foi um livro que me encantou pela fluidez e pela forma de escrever bem recifense 🌹 com certeza autenticidade não falta
Não tenho muita intimidade com poesia, mas esta obra me surpreendeu muito. A escrita é erudita, contemporânea, sensível e escrachada ao mesmo tempo. Recomendo ler de voz alta, pois o ritmo e a métrica funcionam muito bem na oralidade.
uma odisseia das degredadas, deliciosa e debochada vingança contra narrativa e "justiça" dos homi. quando eu crescer quero saber dar esse baile de língua no patriarcado, que nem a adelaide.
Perdi o sono duas noites seguidas e ele me acompanhou. Eu fico tão grata ao universo quando pego uma leva boa de livros que eu nem procurei e caíram no meu colo; ri bastante, pensei outro tanto, senti repulsa, raiva e tô muito impactada por essa leitura.
Não sei se consigo trazer essa obra para uma classe poética, porque acredito que seja algo muito além disso, pela cadência e pela individualidade de cada texto que criam esse único e exclusivo volume. Uma autora que explora e se inspira pelo imaginário brasileiro, trazendo conexões com o leitor seja pela linguagem explorada, pela fantasia exposta e até pelas bases em outros textos. Vashid é uma personagem icônica e sua passagem pela história é muito bem alinhada e rica. Belo livro para abrir o ano e grande escritora!
Sem dúvidas é um trabalho de muita pesquisa. Os trechos que antecedem os poemas se amarram muito bem com todos eles. É uma escrita bem afiada, crítica mas divertida! Me peguei rindo em vários trechos. Mais uma vez dou crédito ao trabalho de pesquisa, os textos jornalísticos comentando sobre os imigrantes… me doeu bastante. Pensar que a vida já foi pior do que é hoje. Enfim, um trabalho para se refletir. Recomendo.
vashti saiu pelo mundo, fez o mundo acontecer, sofreu de tudo, escreveu a história, foi vítima dela, da história, mudou canções, virou poemas do avesso, não sei quem ela é, mas ela fala tudo sobre as fundações acabadas, degradadas, feias, sujas deste país, deste mundo, e ainda faz piada.
Esse talvez seja um daqueles casos de “ame ou odeie”. De fato o referencial mais próximo é o Ferreira Gullar do Poema Sujo (e Ivanova não tá é nem aí em evidenciar isso, com epígrafes, releituras e referências à obra do Maranhense), mas a coisa avança além.
De maneira quase tão violenta como o eu-lírico guia, Vashti Setebestas, Adelaide vai de uma redondilha maior (“triste trupe sem tostão”) até “óbvio que bom mesmo/é não cagar na calçada nunca”. Desde um verso livre esgarçado - quase prosa soturna - até a capitulação mais sincera, entregue -“nem aí - ao jogo plástico entre o espanhol, o alemão, o português e o inglês (quem gostar há de chamar naïf, mas há quem diga: aff, cringe).
Mas o que me pegou, e isso eu pensei já chegando nos finalmentes, é como esse livro tem uma aura de literatura de cordel, rapaz. A forma pode ser meio “coisada”, mas não existe universo literário no mundo igual ao cordel nordestino, em que esse mash up sinistro de La Ursas e coros helênicos, boi voador do filha da puta do Nassau e a advogada de Johnny Depp, Ajuricaba e o Zyklon B não cause uma instantânea fragmentação do espaço-tempo.
ASMA apresenta a épica jornada da protagonista Vashti Setebestas, uma figura insubmissa que caminha pelos séculos enfrentando a opressão patriarcal e xenófoba. Abordando o trauma intergeracional causado pela migração não voluntária e a violência do sistema. Com uma voz radical, esculhambatória e linguagem do "nordestês", Vashti se transmuta entre humano e bicho em um épico escalafobético. É um manifesto por justiça e empatia radical, que resgata a história coletiva dos povos marginalizados em uma ciranda que acabou de começar.
Poesia que atravessa séculos, corpos e violências sem suavizar o impacto. Política, histórica, feroz, engraçada, cruel e viva. Linguagem como arma, memória como campo de batalha. É um livro que mimetiza nossos tempos, em que tudo acontece o tempo todo, agora, já. O domínio absoluto da linguagem, da forma de falar, pensar e reagir do presente, transmutado em poesia. Um livro que entende o agora por dentro. Provavelmente a melhor coisa que li nos últimos cinco anos. 12/10
Como é bom ser fã das amigas ❤️ sou suspeita pra falar, mas Adelaide tem um jeito de escrever que transborda do papel e que dá vontade de sair falando em voz alta, declamando por aí. Tem tanta coisa linda, tanta coisa potente que nem sei por onde começar. Mas o melhor poema é quando ela briga com o alemão na fila da Rossmann
me pegou logo na primeira página com os seguintes versos:
"No dia em que seu rei mandou dizer que era pra eu fazer strip pros seus amigos eu disse não, bicha, chega tá bom de esculhambação catei meus panos de bunda e saí mundo afora mentira foram eles que me expulsaram kkk"
Asma é político-poético-plasmático, invoca arquétipos e mitos para a construção de uma eu-lírica mulher, nordestina, imigrante nas andanças e mudanças do mundo. A jornada de Vashti é exaustiva, de profundo estudo e construção, ou talvez diria: destruição.