A premissa de "O Cemitério dos Eternos Prazeres" é a morte iminente de Lourenço Boa Morte que expressa o desejo de vir a ser sepultado no jazigo da família, que já não tem mais lugares disponíveis. O desejo é, assim, mote para uma reunião de família (irmãos e sobrinhos vivos), em que cada um descreve a vida de cada familiar falecido e sepultado no dito jazigo. Posteriormente, deve haver uma votação: para Lourenço entrar, alguém tem de sair (entre avó, tio-avô, pai, tios, primos e irmão de Lourenço e, quando aplicável, respetivos cônjuges).
Ao mesmo tempo, os mortos, no jazigo, falam entre eles e apercebemo-nos que as percepções dos vivos nem sempre casam com as dos mortos.
Ocasionalmente, existem alguns gralhas ortográficas e uma ou outra imprecisão (como quando, se percebi bem, na página 314 se dá a sensação que Roberto teria vendido uma casa depois de Lola falecer, embora Roberto tenha falecido antes desta). Além disso, o estilo de narração é, por vezes, idêntico, apesar de a voz que narra não ser sempre a mesma (os vivos e cada morto).
Em qualquer caso, o livro vale muito por toda a criatividade e por dispor muito bem o leitor, pelo humor com que nos presenteia e ainda como mote para as mudanças históricas dos séculos XX e XXI português (já que cada personagem vive em diferentes contextos e locais). As diferentes posições quanto à 2.a guerra mundial, ao Estado Novo e o 25 de Abril, além do PREC, do período cavaquista, de Guterres e de Sócrates e da própria geringonça são ricas abordam diferentes clivagens na nossa sociedade. A isto, acrescem as personagens da cultura e do desporto que também marcaram os períodos e que estão sepultadas no Cemitério dos Prazeres.
À medida que se avança na leitura, vamos conhecendo personagens, diferentes ideias ou feitios e buscando causas para os comportamentos. O final é também surpreendente, pelas revelações e pela decisão.