Publicado pela primeira vez em 1938, 6 anos após o lançamento de Menino de Engenho (sua obra de estreia), Pedra Bonita dá início ao que ficou conhecido como o "Ciclo do Cangaço" nas narrativas de José Lins do Rego. Se nas obras que compõem o Ciclo da Cana-de-Açúcar (Menino de Engenho, Doidinho, Banguê, Usina e Fogo Morto) Zé Lins mostrou um Brasil em transição e declínio, com o fim dos engenhos de açúcar tradicionais e a chegada das máquinas, aqui ele explora um Nordeste profundamente marcado pela seca e pelo movimento do cangaço, no qual o próprio presenciou no começo da sua infância. Para isso, ele usa os mesmos recursos narrativos e explora personagens complexos, que são sempre profundamente marcados pelo pano de fundo social no qual estão inseridos. O protagonista da obra é Antônio Bento, também conhecido como Bentinho, uma criança que, por causa da seca, é deixado pela mãe aos cuidados do tio, o padre Amâncio. Os dois vivem na Vila do Açu, que fica bem próximo a Pedra Bonita, lugar onde ele nasceu. Tentando passar um pouco dos seus ensinamentos para o sobrinho, Amâncio coloca Bentinho em um seminário, onde ele acaba sendo mal visto por causa do local do seu nascimento e envolvimento do seu irmão no cangaço. Assim, Bentinho tem que decidir seguir os ensinamentos do seu tio e aguentar as implicâncias da vila, ou seguir os passos do irmão. Com uma história que fala sobre amadurecer, achar seu lugar no mundo e lidar com preconceitos, sempre com um forte teor histórico e social, Pedra Bonita reforça o melhor de José Lins do consciente, imersivo e complexo. A ilustração da capa é de Mauricio Negro, e o texto de apresentação é da jornalista e escritora Adriana Negreiros, autora de Maria Sexo, violência e mulheres no cangaço (Objetiva, 2018) e A vida nunca mais será a cultura da violência e estupro no Brasil (Objetiva, 2021).
José Lins do Rego Cavalcanti (July 3, 1901 in Pilar Paraíba - September 12, 1957 in Rio de Janeiro) was a Brazilian novelist most known for his semi-autobiographical "sugarcane cycle." These novels were the basis of films that had distribution in the English speaking world.
Um livro maravilhoso sobre a brutalidade, a loucura religiosa, e a vida duríssima dos sertões do Nordeste no começo do século XX, no ponto de vista de um jovem.
SINOPSE Pedra Bonita, escrita por Jose Lins do Rego em 1952, narra a historia de Antonio Bento, o Bentinho, menino nascido nos sertões. Em Pedra Bonita, Antônio Bento, ainda menino, é deixado pela mae aos cuidados do tio, o Padre Amancio, para fugir da seca. Ele passa a ser sacristão, mas por ter um irmão envolvido com o cangaço, é rejeitado pelos moradores da Vila do Aco. Ele acaba dividido entre seguir os ensinamentos de seu tio ou os passos de seu irmão.
RESENHA José Lins do Rego é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Li (e devo reler em breve) sua obra prima, Fogo Morto, quando ainda estava no colégio. Mas só agora, depois de anos escrevendo livros, ralando em narrativas, é que vejo como o José Lins do Rego é um mestre da prosa.
A prosa em PEDRA BONITA flui com uma naturalidade de impressionar, e o uso do narrado onisciente é impressionante, o escritor mergulha nas almas dos personagens, entra em flashbacks e monólogos interiores e narra tramas e causos do sertão de maneira fluídica, sem solavancos.
O tema da insanidade religiosa, dos perigos da superstição e a brutalidade e crueldade geradas pela ignorância e a falta de empatia tornam essa obra atualíssima. Mesmo descrevendo um mundo já desaparecido, o universo do cangaço dos sertões nordestinos do começo do século XX.
É uma história triste mas com beleza poética, cenas épicas e reveladora das profundezas místicas e irracionais que se escondem no inconsciente coletivo brasileiro.
Recomendo para quem curte prosa de altíssima qualidade, para quem quer conhecer mais sobre a obra fantástica de José Lins do Rego, para quem curte literatura regional, e para quem quiser conhecer mais (e por dentro) da história dos povos oprimidos no Brasil.
Pedra Bonita - José Lins do Rego | José Olympio, 2011, 352 páginas | Lido de 5 a 9 de Fevereiro, 2016
O romance tem uns 15% de gordura, de ideias e formulações repetidas e mal alinhadas. Parece que Zé Lins retoma a ideia para tentar seguir adiante com o que vinha escrevendo. Faz isso de forma irritante. Faltou edição. No mais, a prosa dele recupera sempre o interesse do leitor e da leitora, não deixa de haver os lampejos de genialidade que justificam a leitura até o fim. O retrato documental do sertão em inícios do século XX também é interessante e útil demais para quem quer imergir no universo cultural, social e econômico desse território. Chama atenção a sobreposição de representações dos cangaceiros e das volantes, com o sertanejo imprensado e oprimido no meio de ambos. Também marcante a presença da poesia dos cantadores como elemento de difusão de histórias e alimento para o imaginário coletivo dos sertões semiáridos.
É um romance em diversos aspectos religioso. Mostra os dois caminhos que a fé e a religião podem tomar (no caso do livro no ambiente duríssimo do sertão nordestino do início do século XX): Abnegação e altruísmo ou desesperança e fanatismo. Como se vive entre os dois? É o desafio que Betinho, o protagonista, vai descobrir enquanto busca compreender e construir sua própria história.
Que livro maravilhoso. José Lins do Rego descreve tão belamente nesse livro sobre os augúrios que vive a população em meio a violência e a persistência religiosa através da necessidade de se ter um ser messiânico a quem recorrer. Um dos maiores escritores brasileiros sem dúvida.
Padre Amâncio é transformado em santo por um povo sofrido e carente de um líder a quem seguir, um amparo a quem se apoiar. Fanatismo religioso em meio a uma terra seca, inóspita e sem lei, um povo dominado pelo medo do rigorismo da natureza e do poder do cangaço.