Partindo da sua experiência pessoal como artista e divulgador cultural, Martim Sousa Tavares convoca o leitor para uma reflexão sobre o modo como nos relacionamos com a arte nas suas múltiplas expressões: a cena de um filme de João César Monteiro, as subtilezas escondidas numa partitura de Monteverdi, o deslumbramento captado por um poema de Sophia, a paixão por Veneza, cidade a que regressa todos os anos.
A beleza pode não precisar de livro de instruções, mas a arte é uma forma de partilha onde o entusiasmo da mediação, o modo de ver, acrescenta significados ao objecto artístico, seja ele uma sinfonia, uma pintura ou um poema. É nesse diálogo permanente que este primeiro livro de Martim Sousa Tavares - assumindo os gostos do autor e não procurando ser consensual - pretende que seja o leitor a ter a última palavra.
Não negar a ninguém o direito à auto-representação, mas também não esconder que seria bom que mais pessoas tivessem a capacidade de ler com espírito crítico, ouvir com uma escuta atenta e respeitar o silêncio nos momentos certos. Todos temos cultura, sim, mas melhor do que isso é sair de casa e ser participante activo na vida cultural da nossa comunidade. Todos temos cultura, sim, mas ninguém a tem em quantidades tais que se possa dar por satisfeito e fechar as portas ao mundo. Não acredite o leitor que estamos tramados só porque vivemos na era dos memes e passamos muito tempo a ver conteúdos através de um ecrã na palma das nossas mãos.
A beleza está em todo o lado. Uma leitura refrescante.
Talvez mais um ensaio do que um livro técnico, algures entre a filosofia e a arte. Profundamente humanista.
Martim Sousa Tavares peca, no entanto, por criticar o intelectualismo e a erudição em excesso escrevendo um livro que esta pejado de excessivo intelectualismo, cuja compreensão completa implica, muitas vezes, estar numa casa de partida já mais para o meio do tabuleiro.
«Foi-me impossível não fazer paralelismos entre os diferentes tipos de arte abordados e aquele em que me sinto mais à vontade — a literatura —, e gostei de ser guiada pelo conhecimento do Martim. No fim, e porque nunca é de mais lembrar, fica o alerta para deixarmos de ser tão snobes em relação à criação e ao consumo artístico.»
Embora a premissa deste Falar Piano e Tocar Francês sugira uma experiência marcante - ou assim eu a idealizei - a minha leitura acabou por ser apenas mediana. É, contudo, inegável a existência de momentos interessantes, nos quais o autor partilha o seu olhar de maestro sobre o universo das artes. Martim Sousa Tavares expande a reflexão para além da música clássica e contemporânea, guiando-nos por pinturas, esculturas e museus, ou mesmo pela mística de cidades e paisagens, oferecendo uma perspetiva cultural que eu, enquanto leigo na matéria, dificilmente conseguiria captar sozinho.
"Este livro é uma tentativa de percorrer uns poucos corredores da arte, da cultura e do pensamento, abrindo todas as portas possíveis para a curiosidade de quem o lê."
Por outro lado, a leitura tornou-se, por vezes, aborrecida, impedindo que o texto fluísse com naturalidade. Além disso, algumas das partilhas do autor pareceram sair de um lugar de privilégio, com o qual não me identifiquei. Para um livro de não ficção, o recurso frequente a frases feitas e a perspectivas de uma beleza ímpar pareceu-me exagerado. Soa a artificial. Compreendo que o caminho escolhido pelo autor para demonstrar que as pequenas coisas também são providas de beleza tem por base a sua experiência pessoal, mas não achei que alguns dos exemplos escolhidos fossem assim tão pequenos, já que nem todos estariam ao alcance do mais comum dos mortais.
“Detesto dizê-lo, porque é um cliché barato, mas é verdade: há muito a ganhar em aprendermos a viver com menos, apreciando os ganhos dessa perda.”
Martim Sousa Tavares traz-nos várias reflexões pessoais ao longo de vários capítulos que se interligam e criam uma noção de continuidade. A base são episódios pessoais buscando analogias e até contradições no mundo que bem conhece: as artes, sobretudo a música. O tema subjacente em todo o livro é a "beleza", seja "ela" um fim em si mesma, um meio para um fim, ou um principio pois tudo começa por algo. A Beleza, não é novidade!, existe em todo o lado, de todas as formas e para todas as possíveis subjetividades. É claro que, em várias reflexões, falta-me conhecer o meio onde Martim se destaca: a música. É diferente gostar de música clássica do que ter a sensibilidade de um maestro para a mesma. Em algumas referencias falta-me mesmo um conhecimento básico para poder absorver tudo o que Martim refere. No entanto, e mesmo com um gosto amador e um ouvido musicalmente "surdo" gostei de muitas referencias, como por exemplo as várias alusões ao Philipe Glass, de quem adoro ouvir, sobretudo as "metamorphosis". Martim colocou-me várias vezes a também refletir baseado na sua linha de pensamento sobre a "Beleza". Gostei bastante do capitulo onde fala que "mais, por vezes, pode ser menos". Ou seja, e é um exemplo dele, haver uma produção no youtube com a declamação de um poema acompanhado com musica de fundo de, por exemplo um famoso Nocturno de Chopin, e a passar em fundo quadros de beleza intemporal, toda esta amalgama de "Beleza" em nada contribui para tornar algo belo em mais belo. Como diz Martim, o poema, a musica, o quadro não precisam de saturarem a "Beleza" pois cada um de per si tem "Beleza" suficiente (ainda que a "Beleza" seja subjetiva mas quem consegue não a ver/ouvir/sentir num Nocturno de Chopin?!).
À boleia da "Beleza" e do livro de Martim e desta "saturação de Beleza que pode ser excessiva", faço eu também uma reflexão, talvez até em jeito de provocação. (Ai Martim, se me ouvisses, gostava mesmo de saber a tua opinião). Uma das grandes pianistas deste milénio é, sem dúvida, Yuja Wang. Não sou quem o diz: são os experts. Para mim, ela é apenas a melhor pianista. Acontece que Yuja é também uma mulher lindíssima e que desde sempre atuou com roupa mais adequada a uma festa de glamour que a tocar piano. Sempre o fez. Recebe amiúde, ainda que cada vez menos, criticas por isso. Que a sua beleza ofusca a seu virtuosismo num concerto. Que mesmo que se fosse uma pianista sofrível teria milhares de likes no youtube e comentários "que linda!". Que maior afronta ao génio e talento de miss Wang!!!. De facto enquadra-se na "saturação da beleza", mas apenas em teoria. Quem vê (e nunca vi ao vivo :-( ) vê um concerto com uma beleza quase inalcançável. A Beleza da musica combina com a beleza dela. A Beleza forma-se num todo sem beliscar aquilo que é fundamental num concerto: a musica. Ao estilo de Martim, também eu procurei introduzir uma contradição, reforçando que a Beleza está nos olhos (ou nos ouvidos, ou na pele) de cada um. E para que não haja dúvidas, Yuja Wang é um talento fabuloso, para muitos a melhor pianista! O concerto, esgotadíssimo (como se houvesse uma diferença entre esgotado e esgotadíssimo!), no Carnigie Hall em Fev 2024 para tocar os 4 concertos de Rachmaninoff foi um feito fantástico só ao alcance de alguém genial. Foi uma tarefa Hercúlea.
Yuja Wang estará em Portugal em Novembro (infelizmente esgotou logo.)
Obrigado Martim pelo livro, pelas reflexões e por me fazer refletir.
Neste pequeno livro, que contém pouco mais que 150 páginas, Martim Sousa Tavares faz uma viagem pelo mundo da música e, partindo das suas experiências pessoais e conhecimentos, escreve sobre a relação da música com os outros tipos de arte e sobre o quotidiano. Um livro que trás reflexão e muito conhecimento.
Uma leitura que vale a pena e que acredito, que tal como me aconteceu, vai dar vontade ao leitor de conhecer certos locais e presenciar certas experiências que o autor aqui descreve!
“(…) sobretudo se entendermos a prática artística como um veículo de emoções e uma forma de sentirmos coisas que, sem a arte, não estariam ao alcance do nosso quotidiano.”
Este é o primeiro livro do Martim e eu espero que não seja o último. Neste livro o Martim fala-nos de coisas bonitas e de como a beleza dessas coisas o faz sentir. E isso foi tão bonito de ler. Não vou mentir: usei o google para muitas das referências que não conhecia e outras deixei passar sem ir googlar o que eram. Mas o livro nunca deixou de fazer sentido ou de me fazer sentir coisas. O Martim é um ótimo mediador de beleza. E agora quero muito ir a Bilbau e quero muito voltar a Roma só para ver uma janela especifica. E vou comer pimenta de outra forma. Leiam.
Uma ode à beleza. Precisamos todos de mais e bons mediadores de beleza, que nos ajudem a conhecer mais e compreender melhor o cinema, a música, a pintura e a literatura.
Recomendo, recomendo, recomendo. De um modo não exaustivo, que provavelmente nos faria perder no texto, demonstra de modo concrecto o que para o autor é a beleza (em várias vertentes da vida e do mundo, mas com grande predominância na música). Vale a pena pegar nos exemplos e explorá-los!
Este é daqueles livros que recomendo a todos os que se interessem por cultura, por arte e que conseguem ver a beleza em seu redor.
E agora perguntam vocês o que é a arte? Qual a sua função? Há arte boa, má, o que as distingue? Temos sempre a arte por perto?
Pois bem, o autor através das suas vivências abre-nos as portas para as artes, como elas se relacionam, o que elas podem despertar em cada um de nós, caso estejamos disponíveis para as ver.
Sim, para as ver. Porque na verdade, muitas vezes com a velocidade dos dias, é fácil dizer não termos tempo, mas na verdade a beleza está em todo o lado, basta estar atento. Como diz MST é “importante falar dela e não a perder de vista”. O que seria da nossa vida sem beleza? Já pensaram nisso?
Pessoalmente sinto que aprendi ao ler este livro, quis saber mais e dei por mim algumas vezes ir ao Google pesquisar sobre determinados temas abordados ao longo do livro. A vontade de descobrir autores, artistas, filmes, quadros, músicas cresceu, assim como achei igualmente interessante ler a opinião do autor sobre locais onde já estive e conhecer a sua visão.
Para primeiro livro, o artista e comunicador conquistou-me . E vocês já lhe deram a mesma oportunidade?
Dependendo do leitor que somos, vamos encontrar um ângulo diferente para este livro. Não o vejo como um livro sobre música, embora a use como ‘cola’. Acima de tudo, é um livro sobre a beleza.
Muitas vezes, não escrevemos ou narramos episódios da nossa vida que nos marcaram, como a ida a um museu ou a visita a uma nova cidade. Achamos que, sendo lugares públicos e já bem conhecidos, a partilha dessas experiências não será relevante, ou não o fazemos porque não dominamos suficientemente o contexto ou a área em que essas experiências se inserem. Por isso, achei particularmente libertadora a forma como Martim Sousa Tavares partilha experiências que o marcaram fora do seu domínio mais óbvio. Os capítulos sobre os museus de Bilbao são um belíssimo exemplo disso. Ele consegue fazer essa partilha sem pretender apresentar-se como um entendido.
Achei também a articulação entre os temas muito bem conseguida.
“ver novas todas as coisas é dar forma ao despercebido, notar o invisível, nomear aquilo que antes não tinha nome. Acima de tudo, ser capaz de sinalizar beleza”
“fazer coisas, ver coisas, experimentar coisas. Tudo isto me parece indispensável para uma relação significativa entre arte e a vida, condição fundamental para que ambas se alimentem e beneficiem”
o que é a arte? o que é a beleza? Que bela viagem fiz com este livro, obrigada ao Martim por ser mediador de beleza e por mostrar que todos o podemos ser.
Possivelmente 5 estrelas é um pouco exagerado, mas, efectivamente, gostei muito de ler o livro. Gostei deste mediador. As duas histórias de Bilbau são deliciosas. A questão da música contemporânea tem aqui uma explicação interessante. É engraçado que A Sagração da Primavera, dirigida por Pierre Boulez, é considerada uma gravação imprescindível. Eu nunca consegui vê-la assim. Agora percebo porquê.
linguagem clara, mesmo sem conhecer muitas das referências que são dadas traz uma noção muito aprofundada da evolução da arte e da sociedade, bem como da mediação cultural. leitura muito cativante!
«Eis duas posições contrastantes na relação com beleza e a sua necessidade para a felicidade. Por muito que me custasse então admitir, a verdade é que a beleza não tem a mesma importância para toda a gente: é possível ter nela um alimento indispensável para o espírito, tal como se pode atribuir-lhe um espaço e um horário próprios na medida da disponibilidade e do interesse que se tiver. É o que faz quem visita museus no estrangeiro mas nunca no seu próprio país: quando viaja, acciona um dispositivo que diz «De momento estou disponível para a arte e a beleza», mas, assim que regressa a casa, esse estado de espírito desliga-se automaticamente. O mesmo acontece com quem só lê livros na praia ou só vai a concertos em festivais de Verão. Virginia Woolf escreve numa carta a Vita Sackville-West que «todas as horas deveriam ser consagradas ao amor». E não tem razão? Mas há dias - passados quinze anos em que ainda acho que todas as horas deveriam ser para a beleza.»
«No fundo, a sua música era um espelho da sua experiência, fazendo com que uma e outra se dobrassem segundo a curva da sua história pessoal. Se a sua música era imoral, pois que o fosse, visto que a vida também teimava em sê-lo.»
«A vertigem de um mundo em permanente digitalização vai fazendo com que, mais do que nunca, se rompam laços entre quem fica dentro e quem fica de fora, quem vai à frente e quem fica para trás. No fundo, o que importa é não perder o ânimo: aproximar e misturar culturas, e promover a permeabilidade da nossa superfície social. Não negar a ninguém o direito à auto-representação, mas também não esconder que seria bom que mais pessoas tivessem a capacidade de ler com sentido crítico, ouvir com uma escuta atenta e respeitar o silêncio nos momentos certos. Todos temos cultura, sim, mas melhor do que isso é sair de casa e ser participante activo na vida cultural da nossa comunidade. Todos temos cultura, sim, mas ninguém a tem em quantidades tais que se possa dar por satisfeito e fechar portas ao mundo. (…) Lembremo-nos do episódio de Miguel Ângelo e a Capela Sistina: a tradição mais antiga da arte é que a arte está a morrer.»
“Ver novas todas as coisas é dar forma ao despercebido, notar o invisível, nomear aquilo que antes não tinha nome. Acima de tudo, ser capaz de sinalizar beleza. Não acontece sem um quê de inexplicável, que pode ser atribuído à ação divina, a uma filosofia de vida, ou, simplesmente, a uma porta sempre aberta ao deslumbramento.”
Este livro é uma verdadeira pérola, que nos põe um sorriso na cara sem qualquer esforço. São pequenos textos que abordam a beleza que nos rodeia, muitas vezes discreta, escondida, mas que pode ser revelada com a mediação certa. Arte, música, cinema, literatura, viagens, museus… Martim Sousa Tavares partilha episódios da sua vida, curiosidades que foi descobrindo, divagações. Tudo bem encadeado numa escrita despretensiosa, como se fosse um amigo a contar uma história. Amei!
Gostei imenso da escrita do Martim Sousa Tavares. Usando as palavras do escritor é um livro que é "um lembrete para querermos mais da nossa passagem por aqui" e abre-nos a mente para a diversidade de pensamento dentro de nós.
“… a cultura está em todo o lado na vida e praticamo-la a toda a hora, tal como o nosso sistema nervoso nunca tira férias ou os sonhos acontecem noite após noite. (…) o que importa é não perder o ânimo: aproximar e misturar culturas, e promover a permeabilidade da nossa superfície social (…) não esconder que seria bom que mais pessoas tivessem a capacidade de ler com sentido crítico, ouvir com escuta atenta e respeitar o silêncio nos momentos certos”
Uma tentativa de mediar e abrir as portas da arte, da cultura, do pensamento através da curiosidade. Recomendo!
Este é um livro sobre a beleza, “com que a mão divina abençoou a criação”, mas também sobre a importância e lugar da arte na nossa vida (bem como da curiosidade!). Por esta razão prendeu o meu interesse. Espanta-me estar viva todos os dias! A escrita, irrepreensível. Terei de resistir à tentação de transcrever todas as passagens que me deliciaram. Também eu vivo desta forma deslumbrada que o autor descreve, e acredito que não será com certeza esta era dos memes a beliscar o humanismo, a beleza, a arte. Afinal de contas, “se Jesus Cristo fosse vivo, (também) teria um site na internet”.
Uma leitura sugerida por um grande amigo, onde entrei apenas com o mote de que era "um livro sobre a beleza". É um livro muito rico em reflexões do autor e pensamentos bonitos sobre a beleza da vida, da cultura, da arte, com uma qualidade de escrita que me deixou supreendida e encantada. Um livro que me permite auto-conhecimento, aprendizagem interior e adquirir novas visões sobre o que me rodeia (e sobre o que é afinal a arte) será sempre, para mim, fenomenal.
Não tinha ainda um livro favorito desde que voltei a ler, já adulta. No segundo capítulo já sabia: era este!
Chegou-me às mãos por recomendação, sem que eu soubesse do que tratava nem tivesse qualquer expectativa. Que acaso bonito.
Vou precisar de um bocadinho de tempo para conseguir pôr em palavras tudo o que deixou dentro de mim. E, no entretanto, não me perguntem sobre ele — é um dangerous move, I won’t shut up about it 🤪
Bom livro, gosto da maneira de escrever do Martim. Há capítulos que me interessaram menos (pelos tópicos), adorei os últimos quatro capítulos. Bela dica de amigas, obrigada!
Um livro diferente dos que costumo ler mas de que gostei muito. Depois de o ler, pretendo ir a Roma, a Veneza , visitar o museu de belas artes em Bilbao, conhecer Mahler e viver a vida de forma mais lenta, apreciar a beleza das pequenas coisas. É , acima de tudo, um livro muito bonito.
A escrita do Martim parece capaz de levar até o menos interessado em arte a querer lê-lo. Dei por mim a pensar que adorava ter tido este livro durante o mestrado, porque ia adorar citá-lo em ensaios em que fingia perceber algo sobre alguma coisa.