"Vento em Setembro": uma jornada pelo coração de um Brasil de contradições
O romance vencedor do Prêmio Jabuti de 2025, "Vento em Setembro", de Tony Bellotto, é uma obra que desafia as fronteiras tradicionais da narrativa, mergulhando nas profundezas das feridas e dos enigmas que permeiam a história e a cultura brasileiras. Mais do que uma simples história de mistério, o livro propõe uma reflexão sobre as tensões entre o sagrado e o profano, a tradição e a rebeldia, a beleza e a barbárie.
Desde suas primeiras páginas, "Vento em Setembro" provoca o leitor com uma cena impactante: um grafite na parede de uma antiga igreja colonial em Ouro Preto, com a frase “Deus está morto”. Essa imagem simboliza o diálogo conflituoso entre o sagrado e o mundano que permeia toda a narrativa. Bellotto, com sua habilidade de artista e contador de histórias, constrói um retrato de um Brasil feito de opostos que convivem de forma tumultuada, refletindo uma sociedade marcada por uma história de violência e esperança de transcendência. É nesse espaço de ambiguidade que o romance encontra sua força, revelando a complexidade de um país que muitas vezes oscila entre o sonho e o pesadelo.
A trama central gira em torno do desaparecimento de Alexandre, um jovem do interior de São Paulo, que ocorre após uma experiência traumática com seu pai, envolvendo uma orgia de iniciação sexual. Ambientada na década de 1970, sob a sombra opressora da ditadura militar, a narrativa acompanha Davi Zimmerman, um intelectual que investiga o caso ao mesmo tempo em que escreve uma biografia fictícia do artista Aleijadinho. Essa dupla linha de investigação — o mistério pessoal de Alexandre e o pano de fundo histórico do período — cria uma conexão simbólica entre o individual e o coletivo, entre o íntimo e o social.
Bellotto não busca esclarecer todos os mistérios apresentados; ao contrário, ele valoriza as perguntas que permanecem no ar, sem resposta definitiva. O autor conhece bem o território do suspense policial, e essa herança se manifesta na estrutura narrativa, nos capítulos curtos e na construção de cenas que mantêm o leitor em constante expectativa. Essa fluidez, no entanto, às vezes entra em conflito com a proposta de deixar certos enigmas abertos, criando uma sensação de incompletude que pode desafiar a paciência de quem espera um fechamento conclusivo.
A voz de Zimmerman, que funciona como um narrador em primeira pessoa, poderia explorar com mais intensidade suas próprias emoções e contradições. Em diversos momentos, ele parece mais um observador atento do que alguém afetado profundamente pelos acontecimentos, o que reduz a potencialidade de explorar sua subjetividade. Essa escolha, embora interessante, acaba deixando uma lacuna na conexão emocional do leitor com o personagem, limitando a complexidade do seu papel como mediador entre o leitor e a história.
Na dimensão simbólica, o romance atinge seus momentos mais potentes. Aleijadinho, uma figura central, transcende sua existência como artista do barroco para representar a dor física e a resistência de um Brasil marcado por cicatrizes históricas. Sua obra e sua biografia tornam-se espelhos das feridas nacionais, revelando uma capacidade de criar beleza e significado a partir do sofrimento. Quando essa metáfora funciona bem, o romance ganha uma profundidade que enriquece toda a leitura. Entretanto, às vezes, as referências culturais parecem mais uma demonstração de erudição do que elementos integrados organicamente à narrativa, o que pode criar uma sensação de esforço evidente.
A ironia, bem utilizada, serve como uma ferramenta para distanciar o leitor de cenas de violência e brutalidade, potencializando o impacto dessas ações ao mesmo tempo em que questiona suas justificativas e implicações morais. Assim, Bellotto consegue fazer com que o leitor reflita sobre o papel do humor e do distanciamento diante de temas densos e desconfortáveis.
"Vento em Setembro" não é simplesmente uma história de desaparecimento, mas uma reflexão sobre aquilo que permanece oculto e não resolvido no Brasil. Heranças coloniais, feridas abertas, desejos de mudança e rupturas impossíveis coexistem num espaço de ambiguidade que o autor aceita como parte da essência do país. Bellotto demonstra que a literatura, muitas vezes, não serve apenas para explicar, mas para revelar a complexidade do mundo, para deixar perguntas no ar e provocar inquietações duradouras.
Ao final, a obra revela-se como uma narrativa que valoriza o mistério não como um problema a ser resolvido, mas como uma condição inerente à própria existência brasileira. Uma leitura que nos convida a refletir sobre a beleza e a dor de um país em constante transformação, onde o silêncio muitas vezes fala mais do que as respostas.