3,5*
A nostalgia, a infinita admiração por aquelas ruas amadas, um sentimento de imensa culpa, um amor no apogeu da paixão. Um amor obstinado, terra a terra, enraizado na terra daquela cidade, um amor sensual, físico, quase obsceno irrompeu na sala. A rebelião de um corpo que não pode repousar em nenhum outro lugar, a rebelião de dois pés que não podem caminhar noutro lugar, a rebelião de dois olhos que se recusam a ver outra coisa. Uma alma acorrentada às paredes daquela cidade única, o olhar cravado nas fachadas das casas daquela cidade única.
- As Ruas -
Como conta Ágota Kristóf no seu magistral “L’Analphabète”, quando fugiu da Hungria e chegou à Suíça com apenas 21 anos, teve de aprender o francês que aí se fala desde o zero, sentido também um exílio linguístico. Os 25 contos reunidos em “Não Importa” foram os primeiros textos escritos nessa nova língua, antes do célebre “Trilogia da Cidade de K.”. Como é escassa a produção literária da autora, já tinha começado a ler esta obra em espanhol em e-book, em que apurei a qualidade dos primeiros contos. Infelizmente, a partir do quarto, essa começa a revelar-se irregular, havendo até 1* pouco antes de outro classificado com 5*, sendo na sua maioria bastante medianos. Os micro-contos de “Não Importa” focam-se na solidão, no sentimento de alienação e na maldade, temas da minha preferência, mas não quando abordados de forma surrealista ou onírica como por vezes aqui acontece.
Contos preferidos: “O Machado”, “O comboio com destino ao norte”, “Em minha casa”, “Os números errados”, “As ruas” (sublime), “O ladrão”, “O convite”, “O meu pai”.
O Ladrão
Fechem bem as portas. Apareço sem fazer barulho, com as mãos enluvadas de preto.
Não sou do tipo violento. Nem do tipo voraz e estúpido.
Nos meus pulsos e nas minhas têmporas poderiam admirar-me o desenho delicado das veias, caso tal oportunidade surgisse.
Mas só vos entro em casa já noite avançada, quando o último dos convidados saiu, quando a luz dos vossos candeeiros hediondos foi apagada e todos dormem. Fechem bem as portas. Apareço sem fazer barulho, com as mãos enluvadas de preto.
A minha permanência é curta, mas apareço todas as noites em todas as casas, sem excepção.
Não sou do tipo violento. Nem do tipo voraz e estúpido.
Quando acordarem de manhã, contem o vosso dinheiro, as vossas jóias: não vos faltará nada.
Nada senão um dia da vossa vida.