Baseado na investigação de um processo inquisitorial, François Soyer faz-nos um relato biográfico e vívido de Maria Duran, desde a fuga do seu casamento com um homem, na Catalunha, até à sua passagem pelo Sul de França, e por Barcelona, onde virá a integrar o exército espanhol como soldado. Posteriormente viaja para Portugal, onde, como mulher, dará entrada em sucessivas casas de recolhidas em instituições eclesiásticas para mulheres. Com uma personalidade complexa, seduz diversas freiras e recolhidas, é acusada de ser um homem e de se fazer passar por mulher num contexto conventual e de ter tratos com o Diabo.
Um percurso por várias organizações conventuais leva-a a Évora, onde após novas aventuras será finalmente detida pela Inquisição. O Santo Ofício reuniu vários médicos, cirurgiões e parteiras para realizar exames minuciosos ao corpo de Maria, e em particular aos seus órgãos sexuais. Os relatórios e discussões dos inquisidores oferecem relatos fascinantes das atitudes em relação ao sexo e género na Europa do início da era moderna.
Com base nos extensos arquivos do julgamento, o autor utiliza a história de Maria para trazer novas perspetivas sobre aspetos da vida muito raramente registados em documentos do início da era moderna: a transgressão das normas de género, sexualidade transgressora e a violência sexual em instituições religiosas femininas, para além dos medos e debates sobre o poder que o Diabo poderia exercer sobre o corpo humano. E tudo isto num contexto português.
Leitura colectiva promovida por Ricardo Silvestre, criador de conteúdos no Instagram, Crescem Livros Neste Limoeiro, desafio #LivroAcidoMes do mês de Novembro. Obrigada, Ricardo, pelo convite.
Introdução
Título original: The «Catalan Hermaphrodite» and the Inquisition: Early Modern Sex and Gender on Trial. Uma nota prévia: discordo do título pois, à semelhança do original, a versão portuguesa deveria ter optado por aspas na palavra «hermafrodita».
Apresentação de Maria Duran
Maria Duran, uma catalã dos Pirinéus espanhóis, fugiu do marido para evitar ser contagiada por doenças venéreas, vestida como homem para se proteger dos perigos, nomeadamente violações; tornou-se soldado, partilhando colchão com outros homens, conseguindo esconder os seus períodos menstruais e urinando de pé; na iminência de ser transferida para outra guerra, assumiu a sua condição de mulher.
Expulsa do exército, viajou para Lisboa, onde chegou em 1738 com vestuário masculino. Estamos, portanto, perante uma mulher que desafiou as normas e os papéis de género e, depois de ter saido da sua aldeia natal, assumiu várias identidades aristocráticas fictícias aproveitando-se do maior grau de confiança que, tal estatuto, suscitava nas pessoas.
Contexto histórico português
Naquela data, reinava o rei D. João V, e a Inquisição, criada em 1530 e, tal como a espanhola (mais famosa), tinha como missão principal combater uma alegada prática continuada e generalizada do judaísmo pelos milhares de judeus forçados a converter-se ao cristianismo e pelos seus descendentes. O seu nome oficial era Santo Ofício, um tribunal religioso, que julgava também a homossexualidade masculina, blasfémia relacionada com os sacramentos da Igreja, protestantismo e acusações de se ter feito um pacto com o Diabo.
Maria em Portugal
Maria enfrentou vários problemas, não tinha nenhuma rede de apoio, até que procurou a ajuda de um padre piedoso. Passou por um recolhimento em Lisboa, um lugar, simplificando o conceito, de protecção de mulheres desamparadas, não sem antes ter sido observada por uma parteira que, após analisar os genitais de Maria, escreveu num relatório que «era uma verdadeira mulher». A relação heterossexual que Maria tinha tido com o marido em Espanha, e que resultara no nascimento de um filho, era a única referência explícita a qualquer actividade sexual antes da chegada a Portugal.
No recolhimento e, posteriormente, num convento em Évora inicia relações sexuais com mulheres de um modo bastante abusivo; dizia que era homem, recorria a um pénis artificial e gabava-se de ter poderes sobrenaturais. Os depoimentos das vítimas de Maria são contraditórios mas, quase todas, diziam que Maria ejaculava. Algumas relações sexuais terão sido consentidas. Maria não se coibia de se gabar das suas conquistas sexuais e das visitas que o Diabo lhe fazia. Saltando os detalhes, Maria vai para os calabouços da Inquisição por um alegado pacto com o Diabo, e não por esses relacionamentos sexuais; naquela época, a homossexualidade masculina era crime, a feminina não.
O julgamento, a tortura, o veredicto e o castigo
Os médicos ao serviço da Inquisição, consideram-na, de acordo com os exames anatómicos, uma mulher verdadeira, e não uma hermafrodita. Longos anos de sofrimento, e, até à sentença final - abandonar o reino de Portugal, continental e ultramarino e guardar segredo - Maria sempre disse que era mulher.
Conclusão
Um extraordinário estudo da sexualidade desde as teorias galénicas até aos nossos tempos. Não se sabe o que aconteceu a Maria Duran depois de ter sido libertada da Inquisição.
Muitas especulações atravessam este livro. Homem, mulher, ou hermafrodita, apenas é possível aceitar que há modos diferentes de interpretar o comportamento de Maria.
Uma mulher, vítima de um contexto social e cultural de uma época, o século XVIII: o sexo e o género foram a tribunal. Maria, em minha opinião, enganou e manipulou sexualmente algumas mulheres, mas também é verdade que desafiou a identidade e os papéis de género.
Citação:«Quantas mais histórias como a da Maria saírem dos arquivos, mais aprenderemos sobre o modo como o género é uma construção social e cultural.»
#LivroAcidodoMes, projeto do Ricardo Silvestre @crescemlivrosnestelimoeiro
Maria, cujo nome verdadeiro era Maria Duran, teve uma vida atribulada, que envolveu a fuga do marido dela e da aldeia natal nos Pirinéus, travestismo, serviço militar no exército do rei de Espanha, uma viagem pela Península Ibérica e relações sexuais com mulheres em várias instituições religiosas em Portugal. Muitas dessas mulheres acusaram Maria de ser homem e de ter u mpénis e suspeitavam que Maria tinha feito um pacto com o Diabo.
Leitura associada ao desafio #LivroAcidodoMes deste novembro.
“A Inquisição era uma burocracia judicial moderna. Os notários registavam em papel todos os procedimentos, transcrevendo com detalhe os interrogatórios e as deliberações dos inquisidores. Os inquisidores recolhiam todo o material relevante para o julgamento num processo e, assim que terminava o julgamento, guardavam os documentos nos «arquivos secretos» de um tribunal inquisitorial (...).”
Não há registo da vida de Maria Duran para lá de 1744 mas a informação disponível que precede esse ano é para lá de muita e de riqueza ímpar.
Nascida em 1711, cresceu na aldeia catalã de Prullans onde foi criada como rapariga, casou com um homem mais velho e teve um filho que faleceu nos primeiros meses de vida. Não satisfeita com o matrimonio, decide fugir do casamento e inicia uma verdadeira aventura pela Península Ibérica, viajando do leste de Espanha até Lisboa onde acabou por ser presa pela Inquisição em 1741.
Vestida com roupas de homem e sob uma identidade masculina, viaja de um lado para o outro, tendo chegado a integrar o real exército espanhol. Já em Portugal (primeiro em Lisboa e depois em Évora) passa por várias instituições de recolhimento para mulheres onde nunca ficou mais que alguns meses. Nelas manteve relações sexuais com várias mulheres e para além das suas ações claramente masculinas (com um carácter predatório e abusivo quando observadas aos olhos do séc. XXI) também ela se afirma como homem ou hermafrodita perante elas. É levada e presa pela Inquisição sob a acusação de manter um pacto com o Diabo.
François Soyer faz-nos um relato biográfico detalhado e minucioso. Valendo-se da vasta informação recolhida pelos inquisidores, tanto portugueses como espanhóis, e disponível para consulta na Torre do Tombo, permite-nos ter acesso a uma história verdadeiramente fascinante. Para além da Inquisição, tema que muito me interessa, o foco dado às questões de identidade de género, transvestismo, intersexo e homossexualidade são igualmente interessantes.
E se a história de Maria Duran parece, à primeira vista, um caso único na Península Ibérica, o autor prova o contrário e partilha connosco histórias de outras mulheres (nascidas biológicamente com orgãos sexuais femininos) que também assumiram identidades masculinas na vida adulta (ou até ainda na adolescência). São elas: - Elena de Céspedes (1545 - depois de 1588); - Catalina de Erauso (c. 1585/1592 - c. 1650); - Maria Leocadia Yta (1770 - ??? ); - Maria Teresinha Gomes (1933 - 2007)
Vidas verdadeiramente fascinantes que também pretendo vir a conhecer.
Posto isto, resta-me dizer que gostei muito deste livro e que todas as expectativas que tinha dele foram superadas.
Fascinante. Bem pesquisado e escrito de forma bem detalhada ao pormenor. Leitura difícil de largar. Deixo a frase com que conclui. "Quantas mais histórias como a de Maria saírem dos arquivos, mais aprenderemos sobre o modo como o género é uma construção social e cultural."
Um estudo impecavelmente escrito, capaz de nos agarrar do início ao fim. A importância da divulgação histórica focada em temas como este é tão grande e urgente, que só tenho a agradecer ao autor e à editora que o publicou em Portugal.
Mais um para a história queer, desta vez revertendo aos finais da Idade Moderna.
Incrível relato sobre a Maria Duran enquanto pessoa não conformista com o género, no contexto da altura em que viveu. Importante sublinhar de que a fluidez de género e transformismo não são conceitos novos de hoje em dia. Embora em 1744 estes termos não tivessem existido para descrever Maria, a prova da extrema complexidade dos seres humanos e a sua coragem para desafiar as normas sociais esteve sempre presente.
Para além de conhecer a curiosa vida da protagonista, o livro foi útil para aprofundar sobre o papel da mulher, a vida conventual e os processos de investigação e julgamento inquisitoriais.