Das saudosas férias em família à dormida penosa numa cama com percevejos; da aprendizagem lenta da solidão ao ódio às festas de casamento que mais parecem carnavais; do martírio da insónia às árduas negociações entre mãe e filhas; da navegação cega pelas redes sociais ao poder conciliatório da literatura; da redescoberta da terapia ao reencontro com um primeiro amor: Deriva deambula por assuntos tão diversos e inesperados quanto o ângulo espirituoso ou afiadoque Madalena Sá Fernandes escolhe para os abordar.
Um livro que confirma a desenvoltura literária de uma escritora que, olhando para si mesma e para o que a rodeia, devolve a cada leitor uma espécie de reflexo no espelho.
«Faz tempo que leio tudo o que Madalena escreve, de cá do outro lado do oceano. Ela consegue erigir uma ilha de poesia em meio ao oceano insosso das informações e análises. […] Gosto da importância que Madalena dá às coisas sem importância alguma. Mas gosto sobretudo da desimportância que dá a si mesma, e confessa o inconfessável. Já trocou de clube. Faz entrevistas imaginárias a si própria. […] Madalena irá se tornando, ao longo do livro, sua amiga de longa data. Humana, demasiado humana, sua franqueza comove, num tempo em que já ninguém parece jogar limpo.»
É muito bonito como percorremos a vida da Madalena através das suas crónicas. Foi importante para mim ler este livro depois do Leme. Foi bom ver que houve um lado feliz na vida da escritora apesar da tristeza relatada no seu livro anterior. Não somos amigas, mas quando lemos alguém que escreve sobre si, é impossível não sentirmos uma ligação e uma vontade de os lermos felizes.
Aprender a largar “Precisava do silêncio e do sossego, de passar umas noites sem a melodia das birras e o compasso dos amuos. Precisava de largar a batuta de maestro, de deixar a orquestra sob outra regência e ir compor um solo ao meu andamento.”
Desde memórias de infância, às vivências atuais, passando por temas banais, neste livro encontramos um conjunto de pequenas crónicas que nos fazem revisar o passado, esboçar sorrisos e até considerar como vivemos os nossos dias de hoje. Destaco: - Geração imóvel - O nosso grupo - Ler é sexy - Em defesa da fada dos dentes
Uma leitura leve que se tornou numa agradável surpresa, recomendo!
Honestamente, comprei este livro a pensar que era um livro de ficção, uma história qualquer sobre uma mulher à "deriva", mas encontrei um conjunto de crónicas e textos que fizeram de mim a tal mulher à deriva, entre os pensamentos e histórias da Madalena.
Não fiquei desiludida, muito antes pelo contrário. A escrita da Madalena é incrível. Gostei de imensos dos textos e relacionei-me com muitos deles.
Perfeito, a Madalena Sá Fernandes é uma das minhas autoras favoritas neste momento e de facto ainda não li nada dela que não fosse sublime. Este é um livro que compila algumas das suas crónicas, mas não é por isso que deixa de ser simplesmente brilhante na simplicidade e candura com que contempla a vida, sem artifícios ou pretensiosismos, é o que é e ponto final. A escrita da Madalena é de uma intimidade enorme, que nos faz sentir que já a conhecemos toda a nossa vida. E neste livro conhecemos uma Madalena com um grande sentido de humor, com crónicas verdadeiramente hilariantes como a da "Sra. Dra, a Madalena levou um tiro", que me faz rir cada vez que me lembro. São várias as crónicas que me marcaram e que me ficam na memória, mas destacam-se as da "A Avó Petit", "Geração Tondela", "Casem-se e deixem-me em paz", "Devia ir mais a Tondela" , entre tantas outras. Um dos melhores livros do ano, seguramente.
Cabem muitas Madalenas em Madalena. Em Leme conhecemos uma Madalena que exorciza demónios do passado, que escreve de forma mais pesada e dorida. Em Deriva conhecemos uma Madalena que escreve de forma leve e divertida, sem complexos e sem vergonhas de se mostrar tão normal como o comum dos mortais, com preocupações e divagações mundanas. Escreve sobre coisas que nos passam pela cabeça a todos, com um tom leve mas com a profundidade certa nos momentos necessários. Madalena parece aquela amiga que não vemos há anos mas com quem nos sentamos numa esplanada e a conversa e a gargalhada fluem. É impossível não nos relacionarmos com alguns dos seus pensamentos: seja as lembranças com saudades da infância e da avó, a nostalgia dos Natais em família que mudam com o passar dos anos, a divagação sobre o seu funeral e se os amigos irão sofrer, ou a inveja saudável das pessoas cool, enquanto se lamenta por não o ser. Pois bem, cara Madalena, eu cá, acho-te bem cool.
Madalena Sá Fernandes esteve presente num clube de leitura e adorei a conversa e a pessoa. O prefácio por Gregório Duvivier é maravilhoso e expressa o que pensei e senti e isso bastou para comprar o livro sem hesitar. "Gosto da importância que Madalena dá às coisas sem importância. Mas gosto sobretudo da desimportância que dá a si mesma, e confessa o inconfessável."
Pequenas crónicas (e já muitas vezes comentei o quanto gosto de ler curtas) que se entrelaçam com vivências ou memórias que tenho e me emocionam ou divertem. Nunca indiferente. Leio devagar e acumulo com outras leituras. "A senhora sou eu" assentou que nem uma luva mas não é a única. Estou completamente rendida a este livro. Ler é sexy. 😆 Refrescante ironia.
Eu não tinha apreciado muito o primeiro livro da autora, Leme. Ainda assim, decidi experimentar este Deriva porque sabia que o registo era diferente, e porque também tinha gostado da escrita, apesar de não me ter identificado com a forma como a autora escolheu apresentar a outra narrativa. Para mim, a Madalena autora acabou de se revelar neste Deriva. A Madalena é dois anos mais nova que eu, estudou na mesma faculdade onde eu estudei, tirou a mesma licenciatura que eu tirei, tem duas filhas como eu tenho… os paralelismos entre as nossas vidas são alguns. Não sei se terá sido por isso que me revi em tanto do que escrevia nesta coleção de crónicas, mas dei por mim a abanar a cabeça a concordar com muitas das suas palavras. Afinal, muito do que ela escreve aqui, eu também conheço por ter crescido nos anos 90. Adorei. Ri muito, fiquei muito nostálgica em diferentes momentos, fiquei triste noutros, mas sem dúvida que a Madalena neste registo, na minha opinião, brilhou.
Há muito tempo que não lia um livro de crónicas que me fizesse ir do riso às lágrimas e da saudade à compreensão em tão poucas páginas. Não que tivesse dúvidas, mas realmente a Madalena brilha nas crónicas. ✨
(sim, gostei tanto que até abro uma exceção e dou estrelas!)
A escrita da Madalena é perfeita. Não consigo utilizar outra palavra que possa descrever a sua escrita. Mas confesso que penso muito no quão boa esta autora podia ser a seguir um rumo diferente, o rumo da ficção. É esperar para ver se a mesma se compromete com tal. Até lá, tudo o que ela lançar, eu irei ler.
O meu capítulo favorito foi o “A Mulher Sozinha”: - “Ainda não se tolera que alguém permaneça sozinho, sem estar desesperadamente à procura de outra pessoa.” - “A verdade é que estar sozinha pode ser ótimo. Devia haver uma palavra para a solidão boa. Para quando não estamos minimamente tristes, mas, pelo contrário, muito felizes e agradecidos por estarmos sozinhos.” - “A solidão pode ser muito boa. Pode trazer uma felicidade profunda e momentos de paz que nenhuma companhia traria. Quando estou no sofá a ver uma série, com uma taça de gelado nos joelhos, não tenho vontade nenhuma de chorar.”
“Lembras-te? Uma pergunta que traz vivências fortes. O que acontece agora aborrece, indigna, magoa. O que acontecerá amanhã entusiasma, excita, amedronta. E o que aconteceu é um carimbo. Encontrar um amigo e reviver pode ser melhor do que encontrar um amigo e viver.”
"Para mim, intimidade é troca de livros e partilha de estante. Ler o que alguém já sublinhou é olhar o seu olhar. Recomendação de livros é prova de fogo e ato de amor. Um encontro numa livraria é meio caminho andado, autocuidado é leitura e oferecer um livro a alguém é dedicar-lhe o que de melhor se leva da vida: uma boa história." 🤍
como bem escreve Gregório Duvivier no prefácio, «gosto da importância que Madalena dá às coisas sem importância alguma. mas gosto sobretudo da desimportância que dá a si mesma, e confessa o inconfessável. (…) Madalena irá se tornando, ao longo do livro, sua amiga da longa data. humana, demasiado humana, sua franqueza comove, num tempo em que já ninguém parece jogar limpo.» de facto, à medida que li este livro fiquei a conhecer melhor a Madalena, como se de uma amiga se tratasse. mas é uma amiga que escreve belissimamente («ela consegue erigir uma ilha de poesia em meio ao oceano insosso das informações e análises» GD) e cuja escrita «aquece o coração» (especialmente, os textos «dedicados» aos leitores).
não percebo as comparações ao «leme» nas reviews desta rede social. são dois livros totalmente diferentes, até porque este é um conjunto de crónicas e textos e o outro é um romance. o erro não está na Madalena, não foi ela que defraudou as vossas expectativas. vocês é que defraudaram as vossas próprias expectativas ao assumir que seria semelhante… (shots fired).
«quem adora livros caí na inevitabilidade de falar muito sobre esta paixão, de buscar quem compartilhe o amor por esses tradutores da nossa intimidade e dos subterfúgios dos nossos males. encontrar outro leitor traz o conforto de quem descobre na mesma gruta mais uma pessoa que se abriga da chuva. (…) precisamos de livros e, sobretudo, de ficção. é ela que abarca o magnetismo e a vitalidade que a realidade não comporta. ela dita-nos a velocidade e faz-nos seguir em ritmos descompensados pelas linhas fora, entre avidez e acalmia, entre sofreguidão e moderação. quantas vezes temos de ultrapassar uma descrição do Ramalhete para podermos conhecer o Ega.»
«encontrei nos livros uma guarida para esta hiperatividade e um lugar onde posso buscar constantemente o novo. eles não só abrigam a curiosidade, como vivem dela. e, de todos os objetos, são os que mais favorecem o imaginário. se, nas outras atividades, sonhar acabava por frustrar, nesta, é um requisito. imaginar cenários que parecem impossíveis é a regra. trata-se do único território onde sinto que chegar lá é chegar aqui. e onde posso ser outra pessoa, isto é, eu mesma.»
Tive que repartir a leitura deste livro de crónicas em três vezes. Não podia ser de outra forma. Dei por mim a chorar a rir e, no texto seguinte, a sentir um nó imenso no estômago. Tenho certeza que vou reler estas crónicas muitas vezes.
O tema central são as suas memórias e o mundo que a rodeia. Eu revi-me em tantos relatos que acabei por entrar nos textos e eu própria acabar em deriva. Gostei mesmo muito.
A escrita de Madalena Sá Fernandes é límpida, fluída, e ao mesmo tempo sagaz e subtil, cómica, irónica e autêntica, introspectiva e desinibida. É uma escrita inteligente. Ela diz que escreve sobre coisas sem importância. Eu acho que escreve sobre o que importa.
Estou rendida... e ainda não consegui ter palavras para fazer a review do Leme.
Gosto cada vez mais de ler crónicas. Acho que revelam uma nova dimensão do/a escritor/a que, noutro registo, não conseguimos descobrir. É como se nos abrissem as portas para o seu interior e aos lermos as suas divagações e pensamentos, divagássemos e pensássemos com eles.
Madalena Sá Fernandes é autora de um livro surreal, o "Leme". Um livro que me arrepiou do início ao fim. Sabia que teria de ler o seu próximo, demorasse o tempo que demorasse.
Este é um livro para ler devagar, para saborear, para ir à deriva. Não existe uma narrativa, um ritmo ou um rumo específico. Só a nossa vontade de refletir com a autora.
Com Madalena exploramos de tudo um pouco. Dos aspetos mais íntimos e emocionais aos mais vulgares da vida. Lemos a sua opinião e refletimos sobre a nossa. E é graças a isso que chegamos ao fim a sentir que foi uma leitura enriquecedora.
Apesar disso, nem sempre os temas fizerm match comigo. E está tudo bem. Continuarei a recomendar a qualquer pessoa, porque o importante é ir à deriva.
Li o seu livro Leme e vinha com grandes expectativas, não posso dizer que não tenha gostado deste livro, porque ele é completamente diferente, a escrita em formato quase de carta/notas, recortes de infância, adolescência até à via adulta faz dele um livro incomparável ao anterior (embora tenha de admitir que o livro Leme tenha conquistado o meu coração). Neste livro encontrei também as minhas memórias, e vi nela muito de mim, das celebrações em família, das preocupações de adolescente, do medo do futuro e ao mesmo tempo da ânsia de lá chegar. Um livro fácil de ler, sem ser necessário lembrar-nos do que ficou para trás, não tens de seguir capítulo atrás de capítulo, porque são simplesmente recortes de uma vida sem numeração para ser seguida.
em 2023 saiu o «leme», conheci a madalena no lançamento do seu primeiro livro e já desde aí que esperava o seguinte.
textos de 1-4 páginas que se leem prazerosamente. está tudo muito bem pensado: desde o prefácio - de gregório duvivier - que é de chorar a rir, à capa (e continuação da identidade visual nos seus livros), não esquecendo a escolha dos temas. como a madalena diz, não tratam questões importantes da atualidade, mas sim de detalhes.
as crónicas selecionadas são uma delícia e madalena fá-lo parecer tão simples, principalmente por tratarem de temas tão corriqueiros na vida do comum mortal. na sua maioria está presente uma pitada de ironia, existem outras que suscitam mesmo a gargalhada e ainda crónicas, como a «avó petit», «aprender a largar» e a «separar é fodido» que possuem um tom melancólico.
a beleza da literatura é que nos podemos relacionar com o que está escrito nas páginas e aqui pude rever-me tantas vezes. é o caso da «linha de apoio à insónia» ou a «geração imóvel».
O título descreve como me senti ao ler este livro. Meio à deriva, sem rumo. Não há um fio condutor entre os vários textos/capítulos. Escrita lindíssima, mas não apreciei tanto como Leme.
obviamente identifiquei-me mais com umas crónicas do que com outras, mas definitivamente a Madalena sabe o que diz e não consigo deixar de gostar da forma como ela escreve