Todos os dias e noites, por ruas citadinas, estradas secundárias ou caminhos de terra, milhares de motoristas de transportes públicos levam alguém até um destino. Passam anos ao volante de um autocarro ou de um elétrico, a verem as paisagens a mudar e, se forem efetivos num par de carreiras, a acompanharem passageiros ao longo de várias etapas da vida. A profissão existe há mais de um século em Portugal, mas pouco se sabe sobre a sua história e a rotina destes profissionais, homens e também mulheres, nacionais e também imigrantes, cujo número se revela insuficiente para as necessidades crescentes neste sector. Este livro retrata oito motoristas de autocarros e dois guarda-freios de elétricos, em vários pontos do território, as suas histórias e quanto nelas se espelha da evolução de um país em movimento.
Li O Crime do Padre Amaro maioritariamente na viagem de 1h30 que fazia 2-3x por semana no meu 11º ano (era um dos livros grátis disponíveis na app do Kindle). Eu era o último passageiro da linha antes do autocarro voltar para trás.
O motorista do autocarro da manhã era meu primo afastado e esperava sempre alguns minutos nos dias em que eu não estava na paragem às 7h15 (o que, convenhamos, eram alguns). Eu entrava e finalizava diligentemnte o resto da minha rotina matinal adormecendo nos 45 minutos até ao destino.
Havia uma altura em que o serviço era assegurado por um autocarro de 2 andares. A competição pelo corrimão da frente do andar superior (estilo Londrino) era feroz, mas empalidecia face à de uma salinha nas traseiras do piso de baixo com bancos almofadados, mesa ao centro, e vidros panorâmicos. Uma sala móvel de fechar negócios—se alguém ali tivesse negócios para fechar.
A estas poderia juntar mais algumas em transportes públicos no Porto e em Lisboa. Naturalmente, acabei atraído por este livro. Ideia original, boa colectânea de histórias (cobrindo transportes rurais e urbanos), em muitas casos usadas como um pretexto para olhar, com base em dados, para a evolução sócio-demográfica das aldeias e a consolidação dos negócios de transportes (não fosse esta uma publicação da Fundação Francisco Manuel dos Santos). No entanto, as histórias deixam água na boca: há muita linhas para puxar que prometem jorrar substância, mas nunca são puxadas. Fica-se ali sedento.
São mais os que não lhe dizem nada do que os que o cumprimentam. É como se nem o vissem, como se fosse uma peça estática e inanimada, como o validador onde encostam o passe à entrada.
Também há os que ocupam o tempo a dar indicações aos turistas como se fossem guias locais, mas sem falar inglês, optando por explicar tudo em português e por falar cada vez mais alto quando lhes parece que eles não estão a entender. À medida que a tarde avança e que se aproxima a hora do «Preço Certo», começam a sair e silenciam o elétrico.
Basta que os pais não tenham como os levar à creche todos os dias para que se vejam obrigados a pô-los no autocarro, entregando-os ao motorista. «Tinha uma pequena que chorava baba e ranho quando vinha sozinha. E um garoto, com menos de 3 anos, que eu depois levava ao colo até à creche. Ainda hoje viaja comigo, já mais crescido. Para nós, passou a ser uma grande responsabilidade, porque não é de todo a mesma coisa transportar uma criança pequena ou um adulto.» (para o elevador social da educação funcionar, é preciso que as crianças cheguem à escola)
Leitura simples para uma hora e meia de ócio leve. Boa desculpa para nostalgia que poderá dizer mais a quem não teve experiências tão similares.
Andar de transportes publicos é das coisas que mais gosto de fazer, desde sempre e gostei bastante de conhecer estes testemunhos pois trouxe-me memorias muito bonitas.