«Terão acontecido terramotos, pragas e guerras, mas só um homem, esperando uma mulher que não apareceu, tinha a importância daquilo que fica para sempre.»
Com a cabeça a prémio e uma encomenda secreta para entregar, um homem sem nome foge de Lisboa para o Rio de Janeiro. Leva consigo o desejo de começar uma segunda vida, no Novo Mundo dos trópicos, a fim de esquecer um passado desastroso e um Portugal afundado na depressão coletiva da grande crise financeira do século.
No Rio de Janeiro, encontra a exorbitância da Natureza, o mar, os morros, a selva, o sexo e a paixão por uma mulher que mais parece fogo-posto. Mas o paraíso tem os dias contados, e a entrega da encomenda lança-o na teia da cidade maravilhosa: das penthouses do Leblon ao cume da favela do Vidigal, da Serra dos Órgãos a uma ilha deserta, o explorador enamorado protagoniza uma perigosa odisseia na companhia de terroristas bascos, sobreviventesdo Holocausto e foras-da-lei internacionais.
Se os escandinavos têm o policial noir, da opressiva planura da neve e dos dias com poucas horas de sol, então, este é um exuberante exemplo do technicolor luso-brasileiro, a rebentar de luz e calor, garrido no céu e no mato, destravadamente romântico e obsessivo com a fruição do corpo.
Hugo Gonçalves (1976) é autor de vários romances. Na Companhia das Letras, estão publicados "Filho do pai", "Revolução" (vencedor do Prémio Fernando Namora e semifinalista do Prémio Oceanos), "Deus Pátria Família" (semifinalista do prémio Oceanos), "Filho da mãe" (finalista dos prémios P.E.N. Clube e Fernando Namora), "O coração dos homens" e "Enquanto Lisboa arde o Rio de Janeiro pega fogo".
Guionista da série "Rabo de Peixe" (Netflix), foi correspondente de diversas publicações portuguesas em Nova Iorque, Madrid e no Rio de Janeiro, cidade onde trabalhou como editor literário.
Jornalista premiado e cronista, é um dos criadores do podcast Sem barbas na língua.
(…) no Rio de Janeiro, enquanto imigrante ilegal, percebeste que tinhas em ti uma portugalidade crónica, séculos de transmissão genética e séculos maculados pelo nevoeiro da esperança. Percebeste também que tudo aquilo que mais te incomodava em Portugal sempre procriou dentro de ti e deu à luz nos teus atos: o desleixo, a bonomia, o chico-espertismo, anos a confundir consumo com felicidade. És o filho da democracia, a criança mimada da família, a geração portuguesa mais europeia de sempre, e mais educada, mais preparada, e agora mais deprimida. És um lisboeta que se enternece quando em vez de castanhas se vendem morangos e cerejas na Praça do Rossio. És judeu e árabe e magrebino e preto e celta e lusitano e ibérico e transatlântico. O teu avô emigrou, o teu pai também. És parte da torrente do sangue que circula pelo mundo.
E quando o Estado português oferece, pela primeira vez, a possibilidade de se requisitar livros electrónicos, há quem não resista a oferta! (isto é, BiblioLED)
Uma das coisas que mais gostei neste livro foi seguramente o título! O narrador desta historia foge de Lisboa para o Rio de Janeiro. Inicialmente, o motivo não é partilhado, mas eventualmente percebemos que se envolveu com a mulher de um homem perigoso que quando descobriu a traição inicia uma caça ao homem. No Rio reencontra um amigo de infância e conhece outros portugueses que lhe fornecem droga e o levam a sítios e a conhecer outras pessoas.
Mas entre as várias personagens secundárias e sem me ter interessado pela vida da personagem principal, fartei-me da narrativa que não me pareceu levar a lado nenhum e fui-me desligando da história até que comecei a ler na diagonal para chegar ao final. Se calhar 2 estrelas é pouco, a escrita não me desagradou completamente, mas o enredo não me prendeu. Talvez dê outra hipótese ao escritor!
Escrita fluida e com uma história interessante sem deslumbrar . É bom para um interlúdio entre autores mais exigentes e vale a pena pela ponte constante física e de memórias entre duas cidades que falam português
Este romance de Hugo Gonçalves lê-se com grande prazer. Sobretudo quando o leitor, como eu, conhece esses dos lados do Atlântico. Deixei-me relembrar das paisagens, dos locais desse Rio onde estive algumas vezes. Descritos com realismo, transportam o leitor para uma viagem nesses cenários, quase lhe transmitindo os cheiros e os sons dessa metrópole. Ao lado de cá do Atlântico chega-se por ponte invisível.
De início a história pareceu promissora e cativante, mas sem grande desenvolvimento de personagens, com descrições demasiado exaustivas e repetitivas, despejando reflexões aleatórias para encher uma página. Um final aborrecido que não acrescenta nada à história.
Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, do Hugo Gonçalves, conta-nos a aventura de um português que estando desempregado e estando numa situação delicada em Lisboa, decide partir para o Rio de Janeiro. Na bagagem leva pouco mais que uma mochila e uma encomenda para entregar. Essa encomenda, que só descobrimos o que é mais tarde, leva-o a embarcar numa aventura rocambolesca. Ao longo do livro descobrimos várias e diferentes personagens, e assistimos à transformação do personagem principal, pois a aventura que ele vive para além de exterior é interior.
Gostei muito da forma de escrita do Hugo Gonçalves, uma escrita fluída e entusiasmante, com suspense quanto à forma de desenrolar do enredo. Para além de que o livro nos transporta verdadeiramente para a cidade do Rio, para os seus habitantes e realidades contrastantes. Também gostei da forma descritiva e apaixonada como o autor escreve sobre o andar de bicicleta (talvez por afinidade familiar ;) ).
Esta foi uma excelente recomendação do blog Horas Extraordinárias!!
Excertos do livros:
"Para concluir: tu és aquilo que os outros querem que sejas. Há quem se liberte disso aos dezoito anos, aos cinquenta ou nunca. Há quem eternize padrões e se esconda na segurança da repetição para não ser mais, para não ser aquilo que a sua natureza lhe pede." (Pág. 102)
Um romance desgovernado e, por isso, uma lamentável desilusão. Porque o romance tem substancialmente tudo (ou quase tudo) para ser um bom romance e também porque o romancista escreve bem, com entusiasmo e energia. Uma pena este fracasso.
Ainda vou no início mas cheio de vontade de ler mais. É uma leitura muito agradável que nos transporta facilmente para os cenários descritos e dou comigo a sentir os mesmos medos e receios de um Rio violento, no entanto com vontade de sentir essa realidade.
Entre os parêntesis "você tem saudade? " e "quando eu te encontrar", o vazio dos dias em Lisboa acordam no Rio, ressacados e à mercê da novidade, de muita sacanagem e das sucessivas tentativas de esquecer o que ficou para trás. O cais de partida traz-nos um narrador sonhador e em fuga com ele próprio, com os dias num fio de navalha e um tanto misterioso. Revela o seu eu lá para o terceiro capítulo, nessa vontade de ser menino, de encontrar uma paz e ser melhor pessoa sob essa luz de Margot, personagem maior a quem todas as odes são palavras transformadas em arrepio de pele. Enquanto desvenda um livro dentro deste livro leva-nos nessa fórmula mágica de apresentar outras personagens de outras narrativas, também elas coladas à história de um Portugal "azarista". Em cenários de morro de favela, ou na lembrança de uma rua de Lisboa, percebemos que tudo não passa de deixar um perigo para encontrar outro perigo, até sentir essa fadiga que não tem descanso porque, em Lisboa, no Rio ou em qualquer parte do mundo, pode-se estar sempre de partida e a aperfeiçoar essa arte de quebrar promessas.
Atenção: neste livro há sempre muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. De modo a não comprometer a experiência da leitura a ninguém, vou ser bastante sucinta na abordagem do enredo.
"Enquanto Lisboa arde, o Rio de Janeiro pega fogo" serve-se de uma enorme dicotomia para apresentar o título da obra e para desenvolver a sua narrativa: o contraste entre Lisboa, que "arde" ao padecer de uma significativa crise económico-financeira, e o Rio de Janeiro, que "pega fogo", pois só tamanho regionalismo brasileiro poderia fazer jus à descrição dos eventos que se desenrolam perante a chegada da personagem principal; a vida boémia em meio a um Rio em prosperidade, mas cravado pelas desigualdades sociais, em que rapidamente se passa de um shopping ou uma cobertura no Leblon para um complexo de favelas e os perigos que tal destino implica. A palavra "aventura" não poderia enquadrar-se de melhor forma nesta sinopse, na medida em que a progressão da história está recheada de acontecimentos e descobertas, sendo até impressionante que o autor tenha conseguido inserir uma tão vasta quantidade de peripécias neste número de páginas.
Primeiro livro deste autor que li, fiquei um pouco desiludida. A história está repleta de descrições exaustivas das ruas, descrições aborrecidas dos pensamentos do protagonista (que são repetitivas e pouco acrescentam ao fim de alguns capítulos). As personagens não apaixonam, não senti empatia por nenhuma, tanto que podiam morrer todas que nada sentiria. A história parece atabalhoada, não faz muito sentido nem entusiasma... Gira tudo à volta de um livro e ciúmes de dois homens velhos. A história gira em torno de Lázaro, e passei o livro à espera de uma reviravolta quanto ao paradeiro dele ou pelo menos uma razão maior para aquele transtorno todo por causa da escrita do livro.. E nada, a história acaba e ficamos desiludidos, não há entusiasmo algum. Mas vou tentar ler outros livros do autor
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Há muita coisa a acontecer em simultâneo, o que pode tornar o enredo confuso. Aliás, sinto que foi essa dinâmica que condicionou a minha envolvência com a história. Por outro lado, a escrita do Hugo Gonçalves fascina-me sempre, porque consegue ter um tom quase cinematográfico, ao mesmo tempo que nos leva a refletir sobre as pessoas com quem nos cruzamos, sobre as suas vidas, sobre as dificuldades que passam e, até, sobre os sonhos que vão deixando guardados na gaveta. A partir de vivências pessoais, o autor traça um cenário duplo, no qual a incompreensão e a impaciência coabitam.
Um romance com cores garridas!!! Apesar de ter sido escrito há 10 anos, está perfeitamente atual. Uma história que pode tornar-se confusa, numa determinada altura, por concentrar muitos personagens, no entanto, que nos prende até fim. Gostei muito, "senti e aprendi" o Rio. Palmas para o escritor👏🏼
A emigração para o Brasil na crença de se encontrar um pote de oiro de oportunidades é algo que tem vindo a crescer nos últimos anos, muito motivada pela actual crise europeia. E é nessa vaga de emigrantes que o narrador e personagem principal desta história se insere, conquanto as suas razões tenham outro cariz, logo apreendido ao início, mas desvendado apenas gradualmente, à medida que o enredo se desenrola e os acontecimentos, sempre resultado das suas acções ou das daqueles que o rodeiam, se vão encandeando até ao ponto final. Este narrador autodiegético é um fugitivo, não apenas de Lisboa, dos problemas em que se colocou, e da vida que tem levado, mas de si mesmo. No entanto, enquanto a fuga geográfica se realizou com bastante facilidade, a tentativa de se fazer mudar é outra conversa – amanhã, sempre um amanhã, um “a partir de agora” que nunca se realiza porque, afinal, a personagem é um ser humano, e eu própria já passei (e passo) vezes suficientes por isso para reconhecer a inevitabilidade de que é preciso mais do que um decisão repentina, por maior boa vontade ou firmeza que se detenha no momento, para que consigamos mudar o que nos é intrínseco, por pior que saibamos que fazemos a nós mesmos.
Alucinante, rápido e fabuloso na forma como nos transporta de um ambiente ao outro; vamos do calçadão ao morro da Favela, de Lisboa ao Rio, da Serra brasileira a Cascais, do amor à violência, do Portugal da Ditadura à crise de hoje. É um romance actual, que baralha cada passo entre o português de portugal e o português brasileiro. Nota-se que o autor conhece bem o Rio de Janeiro, cidade onde vive, efectivamente, desde que ficou desempregado em Lisboa e essa fuga, de uma Lisboa engelhada e sem esperança para um Rio de oportunidades, transparece a cada página. Há um crescendo à medida que se avança no livro, o mistério enrola-nos e a acção suga-nos. Na contra-capa, João Tordo diz: "Agarra-nos pelo colarinho e não nos larga até estarmos feitos num oito". Confirma-se.
Mais um excelente livro do Hugo Gonçalves. Conta um pouco a situação em Portugal durante a crise económica de que afectou Portugal em 2010, e descreve o Rio de Janeiro de uma forma que leva a fazer quase como que uma viagem por lá. Personagem que viveu uma vida em excessos e no limite.
Fantastic. Being Alfacinha myself I was really curious how is the Brazil experience for an Alfacinha. Good book (though not hugely great as a literary piece)