Mary Beard é irrepreensível. Nos domínios da antiguidade clássica é uma voz de peso: moderada, realista, humilde (q.b) e extraordinariamente capaz de levar uma narrativa por diante de forma segura, sem se tornar enfadonha ou redundante. Acredito que esse domínio provém, claro, do talento inato, mas, sobretudo, do talento trabalhado e da paixão que alimenta uma vida dedicada ao estudo aprofundado de um tema — estas últimas perfeitamente evidentes na construção de uma obra como Imperador de Roma.
(...) as histórias aparentemente escandalosas das excentricidades do imperador encerram alguns horrores da autocracia — diferentes, mas igualmente medonhos. O terror do poder sem limites é um deles.
A citação acima resume muitíssimo bem a essência deste livro. Beard não traz nada de novo acerca da biografia deste ou daquele imperador de Roma, o que nos traz é uma leitura heurística e integral sobre o cargo, ou o papel, se preferirem, do Imperador de Roma enquanto chefe de uma autocracia, enquanto dictator, enquanto general, conquistador, administrador de um império que se estendia, no seu apogeu, da Escócia ao Saara, de Portugal ao Iraque, com uma população estimada, fora de Itália propriamente dita, na casa dos cinquenta milhões de pessoas.
Este infindável desdobrar de facetas é o foco primitivo deste livro em que a historiadora desmonta, tanto quanto possível, os mitos, as obras e os escritos que nasceram de uma governação feita de muito improviso, de uma multiculturalidade e de uma mescla de fações, estratos sociais e crenças para nós já difíceis de imaginar em coexistência, e que originaram a sociedade ocidental tal qual a vivemos, criando um paralelo algo desconfortável de assumir:
Por todo o império, muitos milhares de pessoas, escravas e livres, trabalharam para o imperador e a sua corte, algumas exploradas de forma terrível, amotinadas e insatisfeitas, outras suficientemente felizes, ou até mesmo orgulhosas, por fazerem aquilo que faziam. É um facto desconfortável que, por toda a História, a autocracia — tirania, ditadura ou o que quer que lhe chamemos — tenha dependido de pessoas de todos os estratos que a aceitaram, que se adaptaram ou que até a consideraram um sistema confortável sob o qual viver. (...)
Aquilo que sustenta a autocracia não é a violência ou a polícia secreta, é a colaboração e a cooperação, sejam estas cúmplices ou ingénuas, bem-intencionadas ou não.
E se é verdade que a nossa história e cultura têm as suas origens num regime absoluto, também é certo que não se extingue aí a sua influência. Da mesma forma que os romanos, tendemos a viver certezas que mais tarde se revelam falaciosas, tendemos ao egocentrismo, à violência, à soberania (em vários planos), tendemos a viver complexos paradoxos que vão alimentando a descendência geracional e novos mundos cada vez mais intricados, pactuando, ora ativa ora passivamente, numa construção conjunta de civilização:
(...)o palácio imperial era tanto um perigoso antro de víboras, como um covil de traidores, e um lugar onde centenas de homens e mulheres, escravos e livres, viviam as suas vidas, tinham os seus empregos, faziam amigos e arranjavam companheiros, quer se insurgissem contra a exploração de que eram alvo ou tivessem orgulho no seu trabalho (ou as duas coisas).
O microcosmos (outrora macrocosmo) do império romano, e as figuras dos seus dirigentes, explicam muito do que continuamos a perpetuar seja a nível pessoal, social, cultural ou político. Muitas vezes de forma consciente, outras de forma inconsciente, vamos alimentando a mesma linguagem de poder (seja visual, artística, filosófica ou outra):
Na história do Ocidente, praticamente não há um ditador ou um dinasta que, ocasionalmente, não tenha utilizado as imagens que os imperadores romanos inventaram para si mesmos para exaltar a sua própria posição.
Recorrendo à ideia de legitimidade romana, vamos alimentando as mesmas ambições, as mesmas frustrações e recriando, nos nossos pares, as várias figuras do passado que tanto admiramos como tememos:
Uma análise atenta a estas histórias ajuda-nos a ver com clareza as ansiedades que rodeavam a governação imperial em Roma. Era mais do que a capacidade para matar. Nada travava o poder do imperador. Ele pervertia os sentidos e prosperava num caos malevolente.
Menos pragmáticos do que os romanos, logo menos conscientes, menos atentos, ainda mais centrados no nosso umbigo, vamos sendo silenciosamente guiados por líderes despóticos e megalómanos cujo modelo é perfeitamente identificável e para os quais a nossa resposta permanece idêntica ao que sempre foi:
Na nossa simpatia para com os rebeldes, é fácil esquecer que (...) praticamente não há indícios de uma resistência significativa ao poder de um homem só enquanto tal.
Imperador de Roma é tudo isto. É um compilar de temas e fontes sobre os ditames de ser imperador, é um estudo sobre o universo que o rodeia e as pessoas que mantêm as engrenagens em andamento, é uma visão privilegiada sobre o mundo romano e as estruturas de poder primordiais e uma interpretação muito pertinente da ciclicidade histórica.
Em tudo, é um livro típico da pena de Beard — tanto uma reflexão sobre a história clássica como uma admoestação para não esquecer o passado sob pena de o levar a repetir-se.
[Sei que depois disto não fica bem desatar numa algaraviada sobre os problemas de edição, mas também não fica bem passar por cima do assunto sem mais. Assim, este aparte é dispensável a quem leia — mas vai cá ficar como descargo de consciência. Afinal, se o não é, uma plataforma como o GR deveria ser uma ferramenta tida em conta pelo mercado editorial português.
Aquilo que tenho a dizer, no entanto, não é bonito. Não me adianta refletir que o mercado nacional editor e livreiro é pobre (inclua-se aqui pobre de espírito também, tacanho, imberbe); não adianta frisar que, ao passo que os profissionais de tradução, revisão e edição qualificados se afastam da área (falo com conhecimento de causa), outros chegam a ela munidos de muita soberba e pouco talento; como também não adianta reconhecer que os leitores portugueses são poucos e pouco exigentes. O problema aqui divide-se, essencialmente, em duas categorias: regulamentação e investimento/financiamento. Enquanto a edição, e suas subordinadas, permanecer uma atividade não regulamentada, não existem proibitivos — o que explica o uso desregrado de IA, a contratação freelancer, a exploração profissional, a desvalorização do trabalho intelectual, o desrespeito pelo original produzido na tradução, etc. Da mesma forma, enquanto atividade não financiada, esta permanecerá muito pouco rentável, e sem investimento público permanecerá um negócio nas mãos das livrarias, e um joguete nas mãos de uma legislação castradora e arcaica. Enquanto esta for a realidade, este mercado será dominado por bestsellers, leitores da moda e aspirantes a profissionais, e vítima mortal de cortes nas despesas — veja-se a quantidade de traduções e revisões a quatro e seis mãos/olhos que por aí circulam. Enquanto assim for, as pessoas — isto inclui muito editor — continuarão a confundir (e muitas vezes a dispensar) autor, tradutor, revisor e editor; original, original traduzido, produto de revisão técnica, revisão editorial, revisão literária ou revisão de provas e livro.
Embora estando a falar numa realidade geral, no caso de Imperador de Roma essa realidade generalista desagua em múltiplos pequeninos problemas. Os mais graves e muito irritantes: a tradução literal (falsos amigos semânticos) — o fatídico «em termos de» chega a figurar três e quatro vezes por página!; a preferência por vocábulos galicistas ou anglicistas — como «massivo» ao invés de «maciço»; a falta de revisão científica (embora o meu latim — que foi sempre macarrónico — já esteja muito esquecido, não posso defender que traduzir as expressões latinas em função da tradução da autora, que é britânica, seja, num país cuja língua oficial se insere no (sub-)grupo das românicas ou latinas, nada menos do que o cúmulo do ridículo).
Isto, e só isto, é responsável pelos dois meses consumidos nesta leitura. Com a devida vénia a Beard, nem mesmo as qualidades que lhe admiro foram suficientes para me levar a fazer vista grossa aos problemas que grassam na área e neste seu produto em particular. Embora não seja a mais terrível das edições, foi das mais irritantes, originando este longo desfiar das minhas desilusões.
Reforço que tenho em grande apreço as profissões ligadas ao livro (do tradutor ao designer topográfico) e que estou convencida de que muitas destas falhas são fruto da falta de condições profissionais. Quase metia as mãos no fogo em como reforçando os mecanismos de financiamento e instaurando normas profissionais se veria imediatamente diversas melhorias no setor (pelas quais é fácil fazê-lo, mas não podemos responsabilizar arbitrariamente o leitor/consumidor).]