Repetidas até à exaustão, as imagens digitais informam, escondem, mentem, encaminham, adormecem. Os olhos seguem o insólito, o fútil, «estou aqui, não me estás a ver», bebem o crime até ao sangue. A bola rola, torna a rolar. Imagem e som oco preenchem o vazio, perturbam a lógica e a fala. Haja máquinas que recolham e transmitam imagens e sons. Abençoadas. Penduradas nas mãos, nos ombros, nos ouvidos, no pescoço. É com elas que falamos. Não, boca a boca, mão a mão. Mas de repente os olhos humedecem maravilhados com a beleza das imagens. São momentos raros como um pássaro que vem pousar numa janela de cidade. No tempo mais agreste, no jardim, na boca do vulcão, o amor canta, o riso explode, as violetas florescem azuis entre as pedras, os catos eriçam e abrem entre picos as suas flores amarelas.
ANTÓNIO BORGES COELHO nasceu em Murça, a 7 de Outubro de 1928. Licenciado em Ciências Histórico-Filósficas (1967) e doutorado em História Moderna (1989) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi Professor Catedrático no departamento de História. Colaborou em várias publicações periódicas com estudos históricos; efectuou traduções de obras filosóficas e históricas; dirigiu a revista História Sociedade e o Centro de História da Universidade de Lisboa, no qual foi investigador integrado, assim como no Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra. Foi agraciado, pela Presidência da República, com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago. Faleceu a 17 de Outubro de 2025.