«— Sabes que mais? Devíamos fazer como a Agustina! — exclamou. E foi aí que tudo começou. Foi nesta frase que tudo teve início, quando Raquel desafiou Augusta a seguirem o exemplo de Agustina. Os olhos de Augusta abriram-se como se ouvisse este nome pela primeira vez. A sua atenção o que fez Agustina?, foi a questão nunca formulada mas de imediato respondida. Raquel detalhou então a ousadia de um gesto que celebrava naquele ano — 2024 — oitenta anos. Tudo naquela história soava o veículo, os modos e o contexto. Mas talvez não o impulso, sentiram elas; talvez não o anseio, talvez não a carência, a volúpia ou a intensidade. Porventura nada do que realmente importa teria mudado.»
Nasceu em Lisboa em 1982. É licenciada em Design de Comunicação pelas Belas-Artes de Lisboa e doutorada em Estudos Culturais pela European University Viadrina, na Alemanha. Em paralelo à criação literária, escreve para teatro, faz apoio dramatúrgico e dá aulas. Na editorial Caminho tem publicados três romances, dois livros de contos e um livro infanto-juvenil. O primeiro romance «Diálogos Para o Fim do Mundo» ganhou o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho 2009. «O Museu do Pensamento» foi considerado pela Sociedade Portuguesa de Autores o melhor livro Infanto-Juvenil de 2018; e o romance «Ecologia» foi finalista do prémio APE, PEN, DST, Casino da Póvoa e semifinalista do Prémio Oceanos 2019. Em teatro, começou por escrever para o Festival Teatro das Compras. A primeira peça longa, «Quarto Minguante», foi encenada por Álvaro Correia no Teatro Nacional D. Maria II em 2018. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Bolsa da DGLAB, com a qual escreveu «Corpo/Arena», que iria estrear em Itália, não tivesse a Covid19 cancelado tudo.
É conhecido que Agustina Bessa-Luís publicou um anúncio no jornal, procurando alguém culto com quem se pudesse corresponder.Uma escolha considerada polémica na época, especialmente por ela ser da alta burguesia do Porto. Casou-se em 1945 e o seu casamento durou 72 anos, até a morte do seu marido que tinha respondido ao anúncio.
80 anos mais tarde, algumas jovens procuram relacionamentos sentimentais online e offline, acumulando as duas modalidades, mas preferindo a primeira: um match é um match que pode resultar ou não num encontro ou num namoro. Tanto match, tanto para viver.
Partindo desta premissa, Joana Bértholo constrói duas personagens jovens com personalidades muito distintas. Augusta, a dos sites de encontros, era de baixa escolaridade; Raquel, por seu lado, frequentava a faculdade, grande leitora, conhecedora da obra da renomada escritora e com perfil aqui no nosso Goodreads, sugere a Augusta que publique um anúncio em tudo idêntico ao da Agustina Bessa-Luís. O anúncio é publicado; um anúncio que significava tanto para elas pois tinham trazido para o presente e para as suas biografias um excerto de uma vida de oitenta anos antes, um evento que tinha mudado completamente o seu curso. Elas ansiavam por uma mudança no curso de suas vidas. Augusta desejava embarcar em aventuras e enfrentar desafios; Raquel almejava combinar o pragmatismo de sua amiga com o romantismo quimérico dos romances que devorava, unindo o literário ao real. Os tempos são outros mas as normas podem ser iguais. Será que alguém responderá ao anúncio? É um excelente e original pretexto para analisar os verdes anos e o romantismo quimérico passado, actual e futuro.
É um livro original, bem escrito, vocabulário rico e referências literárias oportunas mas talvez demasiado ambicioso.
Há sempre algo de intemporal que une os jovens e as jovens ao longo do tempo: o amor. «O amor, que será sempre mais intenso quando despercebido ou inconfessado.» Seja lá o que isso signifique.
Creio que Agustina Bessa-Luís, que se queixava de ser mais conhecida do que lida, corre agora o risco de passar a ser um mito do nosso imaginário e não tanto uma escritora do nosso universo literário. Depois de ter ganhado estatuto de lenda por ter derrotado grande parte da Geração X no ensino secundário (liceu para mim), torna-se agora fonte de inspiração do mais recente livro de Joana Bértholo, devido à arrojada ideia de, aos 22 anos, colocar um anúncio no jornal em busca de um correspondente.
JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/ pessoa intelig. e culta.
Não tendo propriamente inventado o precursor de uma aplicação de encontros, esta decisão, nos anos 40, serve de base para estabelecer paralelismos com as actuais plataformas digitais através de uma jovem também de 22 anos, Augusta B., “sua quase homónima”, que procura incessantemente um match no telemóvel.
Augusta vivia imediatamente interessada no outro, em sentir-se vista, desejada, pertencer, em entender as sinapses irrefreadas do seu coração e do alheio.
Devido a um desaire amoroso, conhece Raquel, estudiosa, grande leitora, um pouco anti-social, que é basicamente a sua antítese.
Mais inusual que os hábitos de leitura – que nem no século anterior eram inteiramente modernos – era o desinteresse de Raquel pelo sem-fim digital. Tinha, como todas, um smartphone (…) mas não tinha redes sociais, nem interesse nelas, sobretudo não nas plataformas ostensivamente amorosas.
Tal como no conto “Natureza Urbana”, também aqui temos a magia da literatura na formação e acção das personagens e, numa obra fortemente intertextual, há citações da própria Agustina para corroborar ou contrastar as relações interpessoais 80 anos depois.
“A correspondência dava uma expectativa do tipo humano que se ia encontrar. O que é muito mais sólido. A palavra tem uma força que não tem a presença, nem as hipóteses que a presença física pode dar. É muito mais poderosa.” Augusta compreendia absolutamente esta citação, mas não num sentido epistolar. Tudo se desenrolava num chat, e era no chat que ela avaliava com que tipo de pessoa estava a lidar.
Pressionada por Augusta, Raquel, que até aí apenas usava a aplicação do GoodReads, pondera inclusive abrir um perfil do Tinder totalmente composto por citações de Agustina, sem saber que a amiga…
Esboçava um esquema muito mais à frente, porque atrás; muito mais na vanguarda, porque na retaguarda; totalmente futurista, porque antiquado: - Qual perfil, Raquel? Temos é de pôr um anúncio no jornal! - Num jornal…? Ninguém lê jornais… Raquel parecia não ver o que ela via: a força do gesto de Agustina.
Mais fácil dizer do que fazer e segue-se, então, a autêntica saga da protagonista para publicar um anúncio semelhante ao original. Porque os tempos de facto mudaram, o resultado não é brilhante e depois de ver a folha de anúncios do único pasquim a que tiveram acesso, fico a pensar no que será pior, se isso ou a algaraviada de termos ocos que caracterizam o mundo amoroso digital.
Não se deixava perturbar pelo aranzel de anglicismos que mapeavam a crescente possibilidade de situações desagradáveis, e muito disseminadas, do ghosting ao zombieing, passando por todas as formas de breadcrumbing, benching, orbiting, stashing, a agressiva ambiguidade do love bombing aos ardis criminalizáveis do catfishing.
Não me acontece muito, mas hoje sinto alívio por não ter 22 anos.
Em 1944, Agustina Bessa-Luís colocou um anúncio no jornal procurando uma pessoa culta com quem se corresponder. Foi assim que conheceu o seu marido, com quem esteve casada 72 anos. Um gesto arrojado e irreverente que não era comum numa jovem daquela época.
Oitenta anos depois, este método parece ultrapassado e obsoleto. Os jornais ainda publicam anúncios privados deste tipo? Quantas relações se desenvolvem por carta? Estamos na época das apps de encontros, dos relacionamentos que se iniciam com um match entre perfis, com troca imediata de mensagens, por email ou num chat, online ou em diferido. Tudo é instantâneo e a espera é um conceito, neste contexto, mal aceite.
Joana Bértholo, de forma original e inspirada, coloca duas jovens deste tempo a replicar o que Agustina fez. Uma pequena novela que, além de prestar homenagem a uma grande escritora portuguesa, abre reflexões sobre vários assuntos, como as dificuldades de comunicação, a complexidade das relações amorosas e até os desafios que se colocam aos jovens na passagem para a idade adulta.
Uma coisa eu acho que é certa, a busca pelo amor, nas suas diversas formas, é intemporal.
— Sabes que mais? Devíamos fazer como a Agustina! — exclamou.
E foi aí que tudo começou. Foi nesta frase que tudo teve início, quando Raquel desafiou Augusta a seguirem o exemplo de Agustina. Os olhos de Augusta abriram-se como se ouvisse este nome pela primeira vez. A sua atenção cativa: o que fez Agustina?, foi a questão nunca formulada mas de imediato respondida. Raquel detalhou então a ousadia de um gesto que celebrava naquele ano — 2024 — oitenta anos. Tudo naquela história soava obsoleto: o veículo, os modos e o contexto. Mas talvez não o impulso, sentiram elas; talvez não o anseio, talvez não a carência, a volúpia ou a intensidade. Porventura nada do que realmente importa teria mudado.
Uma novela na belíssima escrita de Joana Bértholo sobre jovens, com uma protagonista como Augusta, em que recorda Agustina, e os diferentes modos de vida neste interregno de tempo de oitenta anos. Um anúncio para conhecer alguém e quiçá encontrar um companheiro é o mote. “Jovem instruída deseja corresponder-se com pessoa inteligente e culta.”
As redes sociais e os livros para mediar o mundo. Uma excelente reflexão.
Um pequeno livro de contrastes… uma belíssima obra! As vidas das personagens, intercaladas, com a vida de Agustina Bessa-(ainda antes de ser Luís 😉😃); as vidas, os amores, os humores, o mundo das dating apps, das relações, actuais e passadas, bem como de outras redes sociais, tudo servido, embrulhado na mais bela roupagem literária… muitíssimo bem escrito, em todas as suas nuances, mas também uma história muito bem imaginada e construída!!
“um dia, muito depois daquele dia, feitas muitas outras leituras, chegaria a explicar a Raquel que descobrira que não se nasce leitor de um certo autor, ou de uma certa autora. que, em tantos casos, temos de fazer por isso.”
Esta novela - resposta da Joana Bértholo a um desafio colocado a uma mão cheia de escritores por ocasião do Correntes d'Escritas, de viver a Póvoa de Agustina - é uma delicinha literária para uma admiradora da Agustina Bessa-Luís como eu. A escrita da Joana é, como já tinha verificado em A História de Roma, rica em vocabulário e tem um exímio uso da linguagem, e o exercício de contrastes entre as jovens instruídas do tempo de hoje e as de há 80 anos está muito bem enredado. Salpicado por citações e referências à vida e obra Agustinianas, lê-se de uma assentada e ficará comigo para relembrar e revisitar com certeza muitas vezes.
Joana Bértholo traz-nos uma história onde duas jovens millenials, cansadas das danças de engate das apps de encontros, embarcam na aventura de conhecer pessoas por meios mais... analógicos, digamos assim. É muito difícil falar desta história sem dar spoilers, mas fala-nos sobre encontrar o nosso lugar no mundo quando não sabemos quem somos ou o que queremos ser ou fazer, sobre a amizade e sobre amor, principalmente aquele que nem sempre vemos mas que vive debaixo do nosso nariz. Este livrinho foi mesmo a leitura leve e aconchegante que precisava, assente na prosa bela e característica de uma autora que nunca desilude.
bendito festival correntes d’escritas de 2023, porque sem ele não teríamos esta belíssima e encantadora novela de Joana Bértholo.
de facto, devíamos (todos) fazer como agustina. 80 anos separam agustina de augusta b. e de raquel, mas elas «deixaram-se ficar ali, levadas uma à outra, serenamente envolvidas naquilo que de intemporal as unia a todas as jovens e os jovens ao longo do tempo. o amor. o amor, que será sempre mais intenso quando despercebido ou inconfessado.»
mãe, desde que sou uma leitora ávida que dizes que tenho de ler agustina. acho que a joana bértholo finalmente me convenceu a explorar a obra literária da tua conterrânea.
Na Póvoa, três meninas unem-se com 80 anos de distância. Raquel e Augusta estão unidas pelos fios invisíveis do tempo a Agustina quando ainda não era Bessa-Luís, pois procurava parceiro.
Este é um exercício invejável de como um sítio pode ser o catalisador de uma história, já que Joana Bértholo escreve esta novela na Póvoa de Varzim, a propósito do festival literário que aí tem lugar.
No enredo, seguimos as duas amigas na busca por amor. Quando têm aplicações de encontros a mão, optam por procurar namorico pelo jornal.
Trata-se de uma bela história de amor que entretém qualquer um por duas horas de leitura.
Uma jovem desalentada com o amor. Uma jovem, 80 anos antes, em busca de algo irreverente. Um diálogo intergeracional através de um pedaço de jornal. 📰 Augusta é uma jovem que após ter um desgosto amoroso tenta encontrar um sentido na sua vida e futuro, além dos swipe right e swipe left das aplicações de relacionamentos. Raquel é uma jovem pacata, uma leitora ávida e que cria uma ligação com Augusta, dando-lhe a conhecer Agustina. Agustina tinha feito um arrojado anúncio num jornal, porque não tentar replicar o mesmo feito 80 anos depois? Adorei a forma como a nossa personagem principal se vai descobrindo em diálogo com uma imagem criada da autora Agustina Bessa Luís. O modo como Augusta vai superando os seus medos e desconfortos, seguindo para um futuro seu e não ditado por terceiros. Por vezes temos de demonstrar a nós próprios que conseguimos fazer algo até ao fim. Gostei muito desta obra, o que me aguçou a curiosidade para ler mais da autora Joana Bértholo.
"Sempre há um texto destinado a cada leitor. Até para os mais esquivos, até para os mais reticentes. Ainda havia esperança para a leitora Augusta".
Que premissa tão boa e que execução perfeita dessa mesma premissa! Joana Bértholo nunca falha, sem dúvida uma das minhas autoras preferidas da atualidade.
Lido numa tarde de verão doente e de cama, sinto que este livro foi uma ótima companhia e uma forma de sentir e rir. Ir buscar uma história real de um anúncio de jornal da Agustina Bessa-Luís e trazê-la aos dias de hoje - com muitas comparações às dating apps, foi uma experiência muito divertida. Adorei as "perguntas" que a Augusta fez à sua Agustina interior ao longo da novela.
Neste livro conhecemos um pouco sobre a ousadia da Agustina Bessa (ainda não Luís) em publicar um anúncio num jornal. E daqui chegamos a 80 anos depois duas jovens possivelmente na mesma situação da Agustina. Gostei muito! Lê-se bem e reflete-se sobre como vivemos no século XXI. Assim como, há sempre um livro há espera de cada um.
um dia, muito depois daquele dia, feitas muitas outras leituras, chegaria a explicar a raquel que descobrira que não se nasce leitor de um certo autor, ou de uma certa autora. que, em tantos casos, temos de fazer por isso.
Não sei o que é que estava à espera quando comecei a ler isto, mas não estava à espera que um anúncio de 3 linhas no jornal do Correio da Manhã no meio de anúncios pornográficos custasse 53€. É com este roubo que eles conseguem pagar aos jornalistas deles para estarem em todo o lado?
《Deixaram-se ficar ali, pegadas uma à outra, serenamente envolvidas naquilo que de intemporal as unia a todas as jovens e os jovens ao longo do tempo. O amor. O amor, que será sempre mais intenso quando despercebido ou inconfessado.》
Fevereiro de 1944. Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, jovem de 22 anos a caminho de se tornar Agustina Bessa-Luís e de assinar algumas das obras mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea, colocou um anúncio na secção “Diversos”, d’ O Primeiro de Janeiro. Nele podia ler-se: “JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/ pessoa intelig. e culta. Resp. admin. N.º 61”. O que buscava Maria Agustina? O objectivo de um acto considerado “ousado e irreverente” – como o classifica Isabel Rio Novo, na extraordinária biografia de Agustina intitulada “O Poço e a Estrada” (Ed. Contraponto, Fevereiro de 2019) –, teria a ver apenas com aquilo que a própria escritora designou como “um desejo literário”? Quem respondeu ao anúncio, foi isso que entendeu. “O anúncio foi lido por um rapaz em Coimbra. Parece que ele enviou um desenho. Ela respondeu. Trocaram correspondência. Casaram e ficaram juntos o resto da vida. Setenta e dois anos e uma filha.”
Convidada a explorar a Póvoa de Agustina, no âmbito da iniciativa “Residência de um Dia” promovida pelo Festival Correntes d’Escritas 2023, Joana Bértholo parte deste “evento quase anedótico” da biografia da escritora para se interrogar sobre as relações interpessoais nos dias de hoje. Em forma de novela, “Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 anos depois” conta-nos a história de Augusta, poveira, hoje com 22 anos – os mesmos que Agustina tinha quando colocou o referido anúncio –, para quem likes, mensagens abreviadas e emojis são linguagem corrente e se sente segura “de dominar o meio, as dinâmicas, as armadilhas e os pontos-cegos” do mundo virtual. Só que não, e o relacionamento de quatro anos com Tó resultou em desgosto amoroso que a envergonhou e revoltou. É Raquel, uma amiga, que lhe fala de Agustina e lhe dá conta do anúncio. Decide, então, passar do “online” ao “offline” e fazer como Agustina. Os problemas, porém, surgem logo no texto do anúncio, com a palavra “instruída”.
Ao longo de uma centena de páginas, o leitor é convidado a acompanhar as dúvidas que assaltam Augusta e as dificuldades em levar por diante o seu projecto. O interesse pelos códigos de comunicação de outros tempos cresce, como cresce a percepção do quão difícil pode ser, nos dias de hoje, a publicação de um anúncio daquele género num jornal. Entre o fascínio e o dilema, Augusta dá-se conta “que uma jovem rapariga solteira, há oitenta anos, se sentiria porventura mais vulnerável ao colocar um anúncio deste tipo num jornal do que ela hoje a publicar uma selfie insinuante e cheia de filtros junto a centenas de outras raparigas similarmente retocadas.” Num todo engenhoso, Joana Bértholo leva-nos a viver uma quase “experiência científica”, cujo resultado, tocado pela imprevisibilidade, é revelador de estigmas que persistem, de manipulação e falsidade, de jogos viciados à partida. As imagens de duas páginas com o mesmo anúncio, separadas oitenta anos entre si, não poderiam ser mais eloquentes.
Livro que surge de um desafio das Correntes d'Escritas, e que tem como inspiração o anúncio publicado por Agustina Bessa Luís que a levou a conhecer o seu marido. 80 anos depois duas jovens recriam a situação e, ao longo do percurso, vão-se aproximando. Como se chegava ao amor há 80 anos? Como se chega ao amor atualmente?
𝑨𝒖𝒈𝒖𝒔𝒕𝒂 𝑩. 𝑶𝒖 𝑨𝒔 𝑱𝒐𝒗𝒆𝒏𝒔 𝑰𝒏𝒔𝒕𝒓𝒖í𝒅𝒂𝒔 80 𝑨𝒏𝒐𝒔 𝑫𝒆𝒑𝒐𝒊𝒔, desvenda as peripécias de duas jovens de 22 anos que tentam publicar um anúncio igual ao de Agustina Bessa-Luís (ABL).
A novela de cerca de 100 páginas transporta-nos para dois universos bem distintos ou talvez não: o universo das aplicações de encontros, das redes sociais e o universo dos anúncios de jornais. Joana Bértholo de forma inteligente e criativa explora o famoso anúncio publicado no primeiro de Janeiro, há 80 anos, por Agustina Bessa-Luís, uma jovem instruída, à procura de correspondência “inteligente e culta”.
Tendo, assim, Agustina e o anúncio como fio condutor, a autora cria uma novela que estabelece a ponte com a actualidade ao envolver as duas amigas, Raquel e Augusta, paralelamente, em encontros por via das aplicações e na replicação do famoso anúncio no jornal O Público. Todo o enredo gira à volta das tramas amorosas, das reflexões e interpelações das duas jovens e da narrativa sobre as dificuldades que enfrentam em publicar o anúncio “dado que o conteúdo não se enquadra com a linha editorial do jornal.”
O anúncio acabou por ser publicado, no entanto, não vou revelar de que forma para que não anule o prazer da descoberta. Posso afirmar que o paralelismo estabelecido entre o antes (1944) e o presente está muito bem conseguido. O que hoje é banal, era inconcebível há 80 anos, sobretudo por uma mulher. Neste simples gesto, fica claro como Agustina era uma mulher ousada, muito à frente do seu tempo.
Outro aspecto que me agradou imenso nesta novela é a intertextualidade com a obra de Agustina. A jovem Raquel, leitora ávida, vai despertando na sua amiga Augusta, mais vocacionada para as aplicações digitais na procura incessante da relação certa, um interesse cada vez maior ao ponto de se “estabelecer um diálogo interno” entre ela e Agustina. “A Agustina-interior primava pela clarividência e segurança; sabia o que queria e não duvidava do seu valor nem enquanto escritora, nem enquanto mulher. Tudo aquilo que Augusta sentia que lhe faltava. Completavam-se.” (p. 77)
Recomendo muito este pequeno livro. Joana Bértholo tem a capacidade de nos agarrar às suas histórias. Esta é bem cativante e tem, para mim como professora bibliotecária, não um, mas dois finais felizes.
Há 80 anos Agustina Bessa-Luís colocou um anúncio num jornal e foi assim que conheceu o seu marido. O episódio é famoso e revelador de alguns dos traços mais característicos da escritora: a imprevisibilidade e a sua capacidade para ser desconcertante.
Este é o ponto de partida para "Augusta B ou As Jovens Instruídas 80 Anos Depois", mas os caminhos que são criados a partir dele são tão ricos, profundos e interessantes, que mesmo já sabendo do primor com que a Joana escreve todos os seus livros, não posso deixar de me surpreender.
Genial a relação entre o ato desafiante de Agustina e a experiência em apps de relacionamento de Augusta. Absolutamente inspirada a ideia de colocar duas jovens atuais a repetir o ato de Agustina e a perceberem que nem tudo se tornou mais fácil. E essenciais as muitas reflexões a que somos levados por uma história tão breve, questionando a eficácia da comunicação e as complexidades das relações amorosas em diferentes tempos, sempre em diálogo com a sabedoria agustiniana.
Um texto que nos faz pensar, que é inteligente sem ser complicado, que nos faz rir mesmo falando de coisas muito sérias, que torna o banal em excecional. E que nos emociona ao confrontar-nos com um grande paradoxo: às vezes, falamos para muitos e ninguém nos ouve; e outras vezes não precisamos sequer de falar para que nos entendam.
Este é o primeiro livro que leio de Joana Bértholo. Já tenho lido bastantes críticas positivas sobre a mesma, mas ainda não tinha chegado a sua vez.
Assim que me deram a conhecer este livro, fiquei logo interessada pela temática, ou seja, pegar numa experiência verídica de Agustina Bessa Luís e fazer da mesma, inspiração para esta novela.
Tudo começa com um anúncio que Agustina Bessa Luís decide publicar há 80 anos, à procura de se corresponder com uma pessoa inteligente e culta. Daí resultou um casamento de 70 anos.
Hoje, Augusta e Raquel, duas amigas de 20 anos, decidem seguir o mesmo exemplo. Precisamente quando as aplicações de encontros fazem parte dos dias atuais e é através das mesmas que as pessoas comunicam, se é que se pode chamar de comunicação o que por lá se faz.
É Raquel, uma apaixonada pelos livros, que dá a conhecer a Augusta a escritora Agustina. Augusta até esse momento nunca se interessou por livros e acha todos os escritores desinteressantes. Contudo é uma verdadeira conhecedora de redes sociais e aplicações de encontros.
É então na junção destes dois mundos, sempre com a presença de Agustina, que se desenrola esta novela. E que interessante foi ver a escolha da autora em unir passado e presente. E chegar à conclusão que “porventura nada do que realmente importa teria mudado.”
Na minha perspetiva a Joana conseguiu revisitar tanto a obra de Augustina com pequenos trechos que junta à sua narrativa, como trazer a sua Póvoa (acho que até senti o vento 😅).
Gostei muito da forma criativa como, partindo do anúncio que há oitenta anos, a Augustina colocou no jornal e a partir do qual encontrou o seu marido, a Joana descreve a jornada de descoberta da Augusta B. Esta jovem encontra em Augustina e no seu anúncio ousado e nada habitual para a época, uma forma de se guiar, ganhar coragem, perceber-se a si mesma.
Achei ainda mais original a autora ter replicado o anúncio de há 80 anos, num jornal nos dias de hoje, e nos ter trazido toda a rebuscada luta, para o conseguir publicar! 🫣
Em poucas páginas e poucas palavras, somos envolvidos numa história sobre amizade e um amor inconfessado, numa descrição do poder das redes sociais e das aplicações de encontros na vida de muitos jovens, sendo estes encontros que advém do digital, comparados com o tal anúncio da Augustina, e ainda numa crítica ao papel da mulher no antigamente e nos dias de hoje.
E se Augusta andasse para trás no tempo, um passo a seguir ao outro, 80 anos, 80 vidas, o que fosse, para encontrar Agustina e, quem sabe, finalmente reencontrar-se?
E se o que foi - simples, bonito, sem artefactos ou floreados - pudesse, efectivamente, voltar a ser?
E se ser jovem instruída empreendendo procuras de amores-perfeitos fosse, ainda hoje, ousadia?
No meio da mesmice que povoa os dias, numa Póvoa dançante ao sabor do Vento Norte, Augusta pega na mão de Agustina, enlaça o seu caminho no dela fazendo das palavras de outrora missão de um agora que se quer diferente.
É sobre voltar às raízes esta pequena maravilha escrita por Joana Bértholo. É sobre aquilo que nos falta e nem sabemos. Sobre as palavras que perduram além-tempo, preservando sentidos e sentires. Sobre o poder redentor dos livros, cura de ausências, dores várias e almas aflitas.
Num tempo em que eu própria desbravo a vida e obra de Agustina, minha conterrânea, ler esta novela foi tão bom como sentir a brisa do (meu) Norte de cada vez que regresso a casa.
Augusta B. ou As Jovens Instruídas 80 Anos Depois desconstrói, por um lado, a imagem de que todas as histórias de amor têm de começar de uma forma profundamente poética e, por outro, mostra-nos que, por mais que as ferramentas que utilizemos se venham a relevar efémeras, a procura pelo amor é transversal a qualquer geração: seja qual for o plano de ação, seja qual for a natureza desse amor. E que nunca nos falte o impulso de mergulhar neste sentimento: se calhar, só precisamos de uma trivial folha de jornal.
A Joana é uma escritora de mão cheia! Gostei tanto desta novela ♥️
“No fundo, não concebia um tempo em que, com a sua idade, a prioridade de uma rapariga era casar, casar bem, agradando à família e à sociedade e não só a si mesma; responder a rituais e trejeitos castradores e fazê-lo com abnegação e elegância. O problema é que as ramificações desses tempos, os ecos obsoletos desses rituais, operavam ainda em si, nas suas fantasias e expectativas do outro - mesma na sua ignorância ou, sobretudo, graças a ela.”