Revisitando a história do Brasil, do período colonial até a recente polarização dos embates políticos, o livro de estreia de Odorico Leal tateia com humor temas sensíveis, em diálogo com a sátira e o farsesco. Enquanto certa nostalgia celebra nossa memória artística, vemos despontar um futuro imaginado e disruptivo que promete um acerto de contas com o passado. Estas novelas e contos dão a ver a habilidade narrativa de Leal, que experimenta os terrenos entre o realismo e o fantástico com gestos originais, atento aos usos e metamorfoses do idioma. Nostalgias canibais é um livro fértil, vertiginoso, que revela um novo talento da literatura brasileira.
O bom padre repetia tudo: a carne estraçalhada, a coroa de espinhos, as chagas abertas. A carniçaria era sempre maior, pois me queria temeroso e impressionado, mas eu só lambia os beiços e media sua cintura.
Que livro delicioso! É difícil encontrar um livro de contos que consegue equilibrar os diferentes elementos de cada um de modo a alcançar um resultado que deixa o leitor querendo mais, que foi o meu caso. Mesmo que não sejam coesos em tema, são em desenvolvimento histórico, desde o primeiro conto/novela com um tupinambá declaradamente canibal que atravesa os séculos ao último conto, sobre um criador musical às voltas com o movimento dos getulinhos, veneradores de Antônio Conselheiro, em confronto com policiais na Avenida Brasil; passando pelo conto "Os gatos", onde Álvaro de Campos e Alberto Caeiro estão preocupados com o eminente despejo de sua tutora, Andressa, e o provável retorno à vida de rua. Ainda há outros.
Odorico Leal entrega um livro inteligente, que sabe bem dosar o riso, o drama, a ironia, a sátira etc. É de lamber os beiços e pedir mais, como com certeza diria o anti-herói macunaimico e grande canibal do conto/novela inicial.
Eu vinha namorando esse livro há um tempo, depois de tantos prêmios e condecorações. Passei a seguir o autor no instagram, o que me motivou ainda mais: as legendas dos posts são sempre espirituosas. Mesmo assim fiquei surpreso com o quanto gostei desse livro. Paraíso Canibal é genial e delicioso de ler. História da feiura é hilário. Em geral, o Odorico tem de sobra uma das coisas que eu mais valorizo num texto: wit. É esperto, sagaz, engraçado. Me conquistou logo no primeiro parágrafo com “Sempre que dizia sangue de cristo me botava água na boca”. Bom demais
O piauiense Odorico Leal, nascido em 1983, é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), tradutor e escritor. “Nostalgias canibais” é seu livro de estreia que foi muito bem acolhido pela crítica tendo inclusive sido considerado como o melhor livro de 2024 na categoria ficção pela revista 451. A despeito de toda polêmica que escolhas de “maiores e melhores” podem provocar “Nostalgias canibais”, que trafega em suas páginas, com desenvoltura, entre a sátira e a farsa com pitadas de “realismo fantástico”, críticas sociais e considerações filosóficas, merece realmente uma leitura atenta. Este ótimo livro de Odorico leal traz quatro contos e uma novela. A novela intitulada “Paraíso canibal” é, sem dúvida, um dos pontos fortes do livro. A insólita trajetória de um “canibal convicto” dotado de imortalidade é repleta de considerações eivadas de galhofa acerca da história do Brasil da colônia até os dias atuais. Convicto de suas preferências culinárias e até orgulhoso delas o nosso anti-herói antropófago em certo momento afirma com pompa e circunstância:
“Daí a pouco eu andava com Padre Mundim, oriundo do Arcebispado de Évora, que me falava dos meus pecados. Sempre que dizia sangue de Cristo me botava água na boca. Cedo tomei gosto pelo seu idioma, e nele eu solicitava que me descrevesse de novo, com riqueza de detalhes, a Paixão. O bom padre repetia tudo: a carne estraçalhada, a coroa de espinhos, as chagas abertas. A carniçaria era sempre maior, pois me queria temeroso e impressionado, mas eu só lambia os beiços e media sua cintura”.
Os outros destaques de “Nostalgias canibais” são os ótimos contos “Os gatos” e “História da feiura”. No primeiro dois felinos trocam considerações nada lisonjeiras acerca de sua tutora cuja inconstância ameaçava tirar-lhes o conforto e o abrigo. O final, surpreendente, poderia ter saído da cabeça de um Stephen King. No segundo um determinado rapaz, convicto de sua incontornável feiura tece considerações filosóficas, comportamentais e sociais acerca de sua condição de feio ao mesmo tempo em que se prepara para um concurso público que pode definir a sua vida. De quebra ele administra seu precário relacionamento com a mãe de saúde frágil, elucubra sobre memórias nada agradáveis sobre o seu pai que lidava mal com a sua feiura e tenta entender os fatores que levaram a garota mais bonita de sua turma de preparação para o tal concurso a se aproximar dele. Os outros dois contos “A febre dioneia” e “O jardineiro” são interessantes mas não tem o mesmo apelo das três primeiras histórias contadas no livro. Nara Vidal, escritora mineira, autora do ótimo “Puro” (2023) em resenha sobre “Nostalgias canibais” publicada na revista 451 (Dez/2024) disse o seguinte:
“Nostalgias canibais é um feito. Uma coletânea composta de cinco grandes contos e que tem a generosidade de contar ótimas histórias e só. Um livro onde as personagens não morrem, de maneira sempre evidente, mas todas, sem exceção, devoram e são devoradas, numa ilustração das mais ricas e intrincadas do povo brasileiro. Nessa espécie de livre narração literária da pátria louca, é menos sobre despir o eu e mergulhar nas próprias entranhas, e mais sobre despir o outro e se refestelar nos seus bofes”.
Bela análise de um belo livro e de uma ótima estreia do escritor Odorico Leal.
Li Nostalgias Canibais por recomendação de um amigo muito querido que me disse que eu ia pirar. É uma felicidade enorme quando alguém indica um livro e a profecia se cumpre. Me senti abraçada pelo amigo e completamente desorganizada pelo livro. O primeiro conto/novela me fez rir de nervoso e alegria do início ao fim. A construção dos tempos históricos ao longo do conto é muito bem feita, a gente vai deslizando por vários Brasis abraçados ao narrador. Quando você se dá conta, tá torcendo pelo canibal, pelos gatos famintos, pela traidora, pelo escritor frustrado, pela entrevistadora mentirosa. Odorico Leal constrói atmosferas e personagens complexos que arrebatam a gente sem que a gente note. Uma alegria encontrar um contemporâneo preocupado com a estrutura das coisas, com o andamento da história, com tempos verbais e adjetivos bem usados. Uma alegria ter lido Nostalgias Canibais.
"Nostalgias canibais" reúne cinco contos atravessados pela ironia. Dois deles, em especial, ficaram comigo: "Paraíso canibal" e "História da feiura". Talvez por serem os que mais conseguem tensionar imagens já gastas do Brasil e devolver essas figuras de forma incômoda, quase áspera. Os dois últimos contos também têm o seu valor. Conversam diretamente entre si e criam uma ótima continuidade temática, reforçando a ideia de projeto, não de textos jogados lado a lado. "Os gatos", por sua vez, funciona como um respiro: é engraçadinho, leve, simpático, ainda que menos marcante do que os momentos mais afiados do livro. No geral, Odorico Leal se mostra um prosador em potencial, com uma consciência de escrita bastante madura. Percebe-se cuidado com a linguagem, controle do tom e clareza do que quer provocar no leitor. Para um livro de estreia, isso não é pouco.
Agora que a atenção diminuiu e os romances encurtaram, o conto parece ser um gênero meio desprezado pelos leitores de maneira geral, o que é muito estranho. Isso acarreta também a escassez de projetos interessados e interessantes na mídia. Achava que o formato estava meio morto até dar de cara com estas cinco histórias de Odorico Leal, autor piauiense estreante em livro mas de vigor acrobático com as palavras de alguém cheio de experiência. O primeiro conto, que informa o título do volume, sobre um indígena imortal e canibal é divertido, inusitado e elegante em medidas parecidas, ousado e desafiador também, mas que boa literatura não é? Boa leitura também pros impacientes, tão bom que passa rápido.
Escrita impecável. Tal como o nome trás uma vibe nostálgica. Difícil descreve-lo mas os contos estão bem amarrados, e interessante como o autor cria essa interação entre textos tão diferentes. Particularmente amei Paraíso Canibal e Os gatos. O primeiro me lembrou Orlando, não sei porque, talvez seja esse personagem que atravessa o tempo e vive outras vidas. Depois vi que fazia alusão a Macunaíma. Todos os textos trazem memórias, penso que vem daí a nostalgia. Tem uma crítica politica que permeia os textos mas é sútil e sagaz.
Você sempre quis ler um conto cujo protagonista é uma mistura de Lestat com Macunaíma? Nem eu. Só depois de ler eu vi como precisava disso. Estamos muito bem de literatura. Livraço!
O primeiro e o terceiro contos valem o livro, que como quase todo livro de contos é irregular. Mas esses dois são excelentes em alto nível. Dei muita risada durante a leitura, e se divertir é muito importante.