Bom livro, mas queria mais (3)
A ideia e o desenvolvimento do livro é muito bom, o plot da história é bem interessante, mas a autora acho que perdeu a oportunidade em trazer de forma mais efetiva a discussão do assunto sobre a coisa da fome de amor que a personagem (e tanta gente na sociedade atual) sente.
A autora é uma escritora contemporânea, millennial, de uma cidade do interior do Ceará (que deve ter sido inspiração para criar a 'Miradouro' do livro), que depois se mudou para Fortaleza e mora na europa desde 2015 - esse é o segundo livro dela, dessa vez editado pela todavia (o anterior eu ainda não li, mas quero ler).
O livro é narrado em primeira pessoa, por uma menina ali nos 90/2000, em uma cidade fictícia (Miradouro) , no interior do Ceará (com algumas eventuais viagens a Fortaleza, ou seja, não tão distante), que cresce sentindo um vazio porque sua mãe saiu de casa e ela convive apenas com o pai que tem dificuldade de relação (ou ao menos ela tem dificuldade de se conectar diante do vazio). Aborda a relação com as amigas da cidade, que tem alguma diferença de idade, mas que convivem na cidadezinha.
A mãe de Dora sai de casa, deixando-a bebê, e ela cresce sem nenhum contato ou lembrança da mãe, querendo descobrir coisas, mas não consegue nenhuma referência por mais que tente obter algo do pai, da vizinha ou das pessoas que conviveram com a mãe. É um mistério e um tormento a falta de conexão e referência que a menina vive enquanto cresce e se vê sozinha, com ausência da mãe e com a falta de afeto do pai.
Dora, no seu vazio, se conecta de forma pungente (e com fome de amor) à sua amiga de infância para praticamente se fundirem, sem que em nenhum momento haja qualquer rusga. Isso se prolonga pela adolescência, inclusive quando Esmê, mais velha, começa a namorar Jaime...
E ao longo do tempo eles se envolvem conjuntamente, com descobertas de sentimentos e de sexo compartilhado.
Após a morte do pai, depois de doença que se prolonga e que aumenta o machucado de Dora na não-relação (e de uma unica conversa em que o pai conta o nivel de odio e desprezo que nutre pela mae, especialmente após ela deixá-lo), ela se muda para a casa com Esmê e Jaime e passam a viver de forma idílica e explorar de forma menos inocente a relação e intimidade.
Assim, ela passa a ser cuidada pelos 2, em uma mistura de figuras de amantes e de papel de pai e mãe, uma escala acima do que as brincadeiras infantis em que Esmê fazia o papel de mãe.
Ela engravida e combinam um arranjo de cuidado a três, em que ambas seriam mães e viveriam em harmonia, mas nesse processo ela se vê não mais como cuidada, mudando o papel de receptora de amor, que passa para Bento, o filho.
Ela sai de casa e vai para a antiga casa do pai, onde o bebê desaparece - e a relação dá a entender que a própria Dora entregou o filho para outras pessoas, e que no final ele vai aparecer crescendo em uma cidade no Paraguai, ficando subentendido (pela revelação de Joana) que a própria Dora é que despachou a criança, e que depois do luto ela voltou a buscar a relação idílica com Esmê e Jaime para voltar a ser cuidada e ter sua fome de amor alimentada...
O plot do livro e a condução me parecem muito boas, por vezes um tanto enfeitadas demais (com uma tentativa de narração mais poética, que é bastante valorizada nesses dias, mas também acabam gerando uma por vezes más leituras das mesmas pessoas que valorizam, especialmente quando não entendem muito bem o caminho tomado pela narrativa).
Algumas coisas são um tanto inverossímeis, como a relação entre as meninas como grandes confidentes com diferença razoavelmente grande de idade: 4 anos não são nada depois da juventude, mas para uma crianças entre 8 e 12 anos é uma enormidade, 50% da vida, difícil ocorrer a conexão de forma natural como é desenhada no livro.
A Joana (que nasceu João) também parece que ficou muito perdida no desenvolvimento da história - provavelmente havia algum propósito para essa personagem em versões anteriores, que acaba se perdendo na estrutura final do livro.
O final segue a moda mais moderna de manter finais em abertos à interpretação e reflexão, mas acho que foi pouco trabalhado, deixando jogada a interpretação e perdendo a oportunidade de suscitar uma reflexão maior que permita conectar todos os aspectos. A tentativa de uma narração mais poética (especialmente no terco final do livro), chega a tentar flertar com narrativa algo fantástica, acaba prejudicando a reconexão com a necessidade de validação interna, a fome de amor, que é o centro da obra.
O livro é desenvolvido em 32 capítulos curtos:
1 - A rua: Dora nasce num lar com mãe ausente e pai emocionalmente distante — apresenta desde cedo a fome de afeto que vai guiar tudo.
2 - A dança: A infância é de espera e silêncio: Dora observa a vida alheia e aprende que afeto é algo que não lhe é dado naturalmente.
3 - O benzedeiro: Surge Esmê, prima/amiga — a presença que começa a ocupar o lugar de afeto que faltou.
4 - A festa: Dora e Esmê consolidam cumplicidade: confidências, jogos e uma intimidade que ultrapassa a amizade.
5 - A Joana: Pequenos episódios da vida na cidade mostram como todos sabem da vida dos outros; a solidão de Dora fica mais evidente.
6 - Os móveis: Primeiro indício de desejo/ambiguidade entre as duas — a cumplicidade ganha contornos mais complexos. O pai é uma figura amorfa, como um móvel da casa.
7 - A manga: Jaime entra na história; a dinâmica do trio começa a se formar, alterando o equilíbrio anterior.
8 - O rio: O trisal consolida-se como abrigo: Dora entende nele um modelo de família improvisada.
9 - A rede: Momentos de calma e cuidado no trio; Dora finalmente experimenta “ser cuidada”.
10 - A reza: Pequenos conflitos e ciúmes surgem, mas o arranjo segue funcionando como paliativo emocional.
11 - As histórias: Episódios cotidianos mostram a vida do interior e como o trio convive à margem do que a cidade espera.
12 - A pergunta: Memórias da infância retornam para Dora; ela revisita a falta e compara com o afeto presente.
13 - A resposta: A relação com o pai recebe mais atenção — aparece como presença física que não entende o emocional.
14 - O peito: Um episódio marcante (discussão/afronta) expõe fragilidades do trio; o cuidado nem sempre é estável.
15 - A égua: Dora engravida — a notícia altera a configuração afetiva e aciona antigas inseguranças.
16 - O Jaime: A gravidez aparece como teste: quem cuida? quem é cuidado? as funções mudam.
17 - O quintal: Reação de Dora à gravidez: mistura de esperança e pânico diante da inversão de papéis.
18 - O almoço: O nascimento: chegada do filho provoca alegria e tensão, quebra o equilíbrio do trio.
19 - O trio: A rotina com o bebê revela incompetências afetivas e cansaço; Dora sente-se pressionada.
20 - O banho: O filho passa a ser um lembrete vivo daquilo que Dora nunca aprendeu a fazer — cuidar.
21 - O sorriso: Dora começa a se distanciar; a maternidade a confronta com seu próprio trauma de ausência.
22 - A barriga: Tentativas de “justificar” ou narrar a própria decisão aparecem — a autora cria subterfúgios discursivos.
23 - As mães: O afastamento do filho se consolida: Dora opta por não assumir integralmente o papel de mãe.
24 - O cartão: O trio, depois da ruptura, tenta voltar a um formato anterior; a estrutura afetiva se reorganiza.
25 - O grito: A cidade reage/observa; a vida social de Dora é atravessada por boatos e julgamentos.
26 - O jesusinho: Dora recua para o espaço emocional que conhece — prefere ser objeto de cuidado do que ofertá-lo.
27 - A testemunha: Memórias e fantasias se misturam: Dora inventa narrativas para si a fim de validar suas escolhas.
28 - O inferno: A narrativa explora as consequências íntimas da decisão de afastamento: culpa, alívio, vazio.
29 - A companheira: Pequenos encontros e episódios indicam que a fome de amor não passou; ela apenas mudou de forma.
30 - A cuidadora: O filho some da cena narrativa ou fica em segundo plano; a protagonista retorna ao núcleo afetivo que a sustenta.
31 - Os olhos: O final se abre: Dora não é redimida nem transformada — repete padrões, a fome persiste.
32 - A terra prometida: Fecho ambíguo: a vida continua com a mesma falta; a autora opta por suspensão em vez de solução.