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728 pages, Paperback
Published June 1, 2024
Folheei-o no supermercado duma vez que o vi no escaparate. Despertou-me curiosidade e não no achei mau de lêr; a A. argumenta bem apesar do gómito da ortografia brasileira em que o publicou. Pecha sua, do editor?…
Com tempo fui-o lendo no supermercado. Quando o deixei de vêr por lá requisitei-o à biblioteca municipal, no que tive de esperar seis mêses até mo emprestarem. Um livro que despertou o interêsse, sempre reservado pelos leitores da biblioteca. Li-o finalmente com prazer. Devolvo-o hoje.
Camões dispersou-se na vida vastamente pelo mundo português de seu tempo, da baixa estúrdia das arruaças e freqüência das ninfas de água doce de Lisboa, à guerra além-mar em África, na conquista, navegação e comércio da Arábia, Pérsia e Índia, até às partes da China. Só não esteve na quarta parte nova, o Brasil.
Como a vida, a sua biografia tem andado desgarrada por numerosos autores desde que por obras valerosas da lei da morte se libertou. Esta biografia agora faz a compilação do que se sabe, do que julga saber-se, o que se pensa e se pode conjecturar da vida e voltas de Camões. Voltas a mote alheio com argumentos verosímeis, quando não, convincentemente plausíveis. Quem no queira conhecer tem aqui um tômo de pêso, com vasta bibliografia estudada e um aparato de notas notável para mergulhar ainda mais no que se escreveu e publicou sôbre Camões.
Pecha maior à partida, como disse, o vómito ortográfico. Uma desgraça que me impede de alguma vez dar dinheiro para adquirir êste livro.
Pechas de pormenor, que não diminuem o mérito geral a esta biografia, mas que deslustram na justa medida em que denunciam umas certas falhas de base, como o não saber a A. e romancista que os apelidos de família em português têm plural: os Noronhas, os Silvas, os Portugais, o Vimiosos, os Macedos de Santarém aparecem sempre ao leitor no singular; ou confrontar o rei de Portugal e o de França dizendo-os «homónimos» e não «homólogos» não parece que seja de falta de revisão, como as gralhas de D. Teotónio II por D. Teodósio II, duque de Bragança (p. 508), ou «cópia» por «copla» na anedota da meia galinha ao senhor de Cascais (pp. 528-259).
Outras pechas de pormenor, mas muito eloqüentes sôbre a mentalidade da A. são a cedência a eufemismos que rezam enervantemente o pai-nosso e a avé-maria dêstes nossos tempos, como dizer «pessoas escravizadas» por «escravos», p. ex. (p. 402). Pior nos juízos de valor quando por fim a A. caracteriza Camões, naturalmente, como homem do seu tempo, e lhe aponta não se lhe achar nenhum desabafo contra a Inquisição, nenhum protesto contra a escravatura (p. 585). O quadro mental em que a biógrafa vive imersa entranha-o ela assim no biografado e passa-o ao leitor que também já voga nêste ar do tempo. Passaria despercebido, não fôra o caso de a A. a par disto aparecer a grafar Deus duas vezes seguidas com minúscula (p. 585). Não pode ser por acaso. Será êle impiedade ou fé doutra espécie…?
(Imagem de A. n/ id., in D.N.)
Isabel Rio Novo, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte; Biografia de Luís Vaz de Camões, 1.ª ed., Lisboa, Contraponto, 2024.