#Vive la Reine!
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Antonia Fraser sabe, certamente, contar uma história e a prova disso é a rapidez com que se devoram estas quase 200 páginas dedicadas a Maria Antonieta. E se é verdade que apenas o nome "Maria Antonieta" é chamariz suficiente para cotar muitas das suas biografias com generosidade, também o é que há qualquer coisa de simultaneamente cândido e rigorosamente aprofundado nesta pequenina obra que a faz merecer uma boa avaliação. E talvez isso se deva ao facto de, longe de se manter no plano do luxo e da futilidade do absolutismo herdado por Luís Augusto e Maria Antonieta, Fraser dedicar grande parte desta biografia a desmistificar a figura de uma mulher injustiçada, mais conhecida pela atribuição errónea da expressão "se não têm pão, que comam bolo", felizmente, também aqui, desmentida.
E se a autora decide subtitular este livro de A Viagem, a história não podia mesmo ficar-se pelos anos de luxo e esbanjamento desenfreados a que associamos o reinado de Luís XVI.
Recuando a 1755 (nem Nostradamus poderia prever esta estranha coincidência), Fraser acompanha o leitor à origem, ao reino austríaco onde a imperatriz Maria Teresa se afadigava no valioso negócio da criação de herdeiros:
Assim, as décadas de 1740 e 1750 testemunharam o nascimento de uma pequena multidão de príncipes reais, tanto varões como fêmeas, no seio das famílias reinantes destes países. A Europa estava, positivamente, cheia de pequenos peões reais, prontos, assim parecia, a entrarem no grande jogo das alianças diplomáticas. Madame Antoine [futuramente, Maria Antonieta] tinha o seu valor específico, não como pessoa, mas como peça no tabuleiro de xadrez da sua mãe.
Nascida para ser casada com um estranho e enviada para longe de casa, Maria Antonieta é educada segundo os melhores preceitos - para obedecer e calar:
Para além desta necessidade de representar, a outra ênfase na educação das raparigas era colocada na docilidade e na obediência. O texto mais utilizado, crucial, era Les Aventures de Télémaque, de Fénelon, que sublinhava a importância, para o sexo feminino, do trabalho e da destreza, mas também da modéstia e submissão. Maria Teresa fazia questão de uma obediência total e inequívoca por parte das filhas. «Nasceram para obedecer e devem aprender a fazê-lo o mais cedo possível», declarou ela um ano após o nascimento de Antoine.
Infelizmente para a futura rainha de França, calar era coisa a que apenas a muito custo se conseguia obrigar. Com 15 anos de idade, desterrada para lá das fronteiras austríacas, casada com um rapazinho que lhe dedicava pouquíssima atenção e ainda menos interesse, Maria Antonieta cedo teve de lutar contra as pressões políticas e os estigmas sociais. O que se segue é uma das histórias mais badaladas de sempre: a revolta apaixonada, anos de luxo e luxúria, festas inigualáveis, escândalos, bancarrota e uma revolução que desaba sobre as cabeças reais. Mas o que fica pelo meio?
A narrativa de Fraser é rápida, muito rápida, mas, mesmo assim, há tempo para debater as condicionantes políticas, a corrupção e o favoritismo enraizados na corte de aristocratas que se alimentam da máquina do Estado. Entre as maquinações políticas e o levantamento popular, no entanto, sobressai o retrato dos últimos dias da família real, grande parte do tempo placidamemente alheada da realidade:
A Rainha passou o dia 14 de Julho, tal como o resto da corte, na ignorância do que se estava a passar em Paris. Também parecia que ninguém tinha pressa de informar o Rei. Luís XVI estava na cama quando o Duque de Liancourt, um aristocrata com simpatias liberais, lhe deu a notícia.
- É uma revolta? - perguntou Luís XVI.
- Não, Sire - replicou Liancourt -, é uma revolução!
Estamos em 1789, durante a tomada da Bastilha. Maria Antonieta é, por esta altura, uma matrona com quatro filhos (nem todos vivos, já), dedicada a um marido que conquistou após anos de persistência, extenuada pelas lutas constantes contra os três estados (clero, burguesia e povo), sem voz própria (as consortes francesas estavam um degrau abaixo das amantes reais) e condenada a despertar o rancor dos que a rodeiam. Falhada a reconciliação com as franjas extremistas e após duas tentativas de fuga goradas, chegam as últimas horas de Luís Capeto e da Austríaca:
Em vez da habitual cerimónia, naquela noite o quarto do Rei estava um verdadeiro caos, com pessoas sentadas por todo o lado, no chão, nas cadeiras, em cima das mesas. O próprio Luís XVI, ainda vestido (ou por despir), continuava com a casaca púrpura e a sua formal cabeleira empoada em desalinho.
A Rainha, Madame Elisabeth e as suas damas também não se despiram. Só as crianças se deitaram. À uma hora da manhã, Maria Antonieta e a cunhada estenderam-se num sofá numa das pequenas salas da galeria. Todos os adultos estavam acordados quando se começou a ouvir o toque a rebate, chamando os revolucionários de todos os bairros de Paris para o assalto há tanto esperado.
Cerca das cinco da manhã estimava-se em 10 000 os homens que se empurravam em direcção aos pátios e jardins das Tulherias.
Fraser não entra em grandes detalhes em tão poucas páginas, mas a forma como conta a história dos últimos momentos da monarquia francesa funciona como uma brecha que se abre no tempo e no espaço para levar o leitor ao encontro das figuras dos mártires da Revolução. A sua simpatia, no entanto, não vai para o sistema, mas antes para as engrenagens que o põem em movimento - tantas vezes, inadvertidamente:
«Coragem!», exclamou Maria Antonieta. Não é neste momento em que os meus tormentos vão acabar que a coragem me vai faltar.»
Assim, a cabeça de Antonieta, desejada por Hébert, foi cortada ao meio-dia e quinze minutos do dia 16 de Outubro de 1793, uma quarta-feira, e exibida perante um público jubiloso. Um homem excitado, que se meteu por baixo do cadafalso para tentar ensopar o seu lenço no sangue real, foi rapidamente afastado pelos gendarmes.
A viagem - que começara num palácio imperial, em Viena, e que acabara numa esquálida cela em Paris - estava completa. O corpo de Maria Antonieta com a cabeça cortada foi levado sem qualquer cerimónia para o cemitério da rue d'Anjou, onde Luís XVI tinha sido enterrado nove meses e meio antes. Primeiro, porém, os coveiros almoçaram, deixando o corpo e a cabeça à espera em cima da relva. A futura Madame Tussaud pôde assim modelar em cera a cabeça sem vida da Rainha.