Tenho andado para aqui a pensar no quanto gostei deste Caro Idiota (connard é uma palavra tão melhor para este contexto*). Gostei muito ou pouco?
Se o medir contra Teoria King Kong direi que gostei menos deste do que daquele. Mas, se esquecer que já antes li Despentes, a maravilha é grande.
A realidade é que o motivo da dependência me deixa um tanto quanto indiferente. Como tema é, de facto, uma aposta ousada, mas para esta leitora não há muito espaço de manobra no que diz respeito a empatia. Por essa razão, deixei que se arrastasse um pouco a leitura. Afinal, Caro Idiota assenta numa longa corrente epistolar (à la século XXI) entre dois toxicodependentes - ele, Oscar, o dito connard, acusado de assediar uma jovem assessora de imprensa, Zoé (que a dada altura reclamará o seu espaço nesta corrente); ela, Rebecca, uma atriz de meia idade preterida por alguma carinha laroca alimentada a botox e dietas da moda.
Ora, isto, por si só, jamais me levaria a pegar neste livro. Mas, sendo Despentes, tinha de haver mais. E há.
Ao passo que o idiota lhe serve de pretexto para toda uma denúncia do macho prepotente...
Eu nunca teria feito uma coisa daquelas. Pelo menos, não me lembrava de o ter feito. O problema é que toda essa história me vinha à memória com tanta vergonha que muitas das coisas não me assomavam à consciência. Não tenho vergonha por ter desejado forçá-la ao que quer que fosse. Tenho vergonha porque lhe disse que era doido por ela e ela não me quis ouvir.[...]
Estava farto de ouvir aquela estúpida. Essa cena do MeToo era a vingança das putéfias.
...Rebecca servirá para uma denúncia aprofundada do showbiz patriarcal e, consequentemente, da sociedade consumidora de bens culturais manipulados em prol do dominador:
Não são só os homens que me dizem que me cale. As mulheres também. Explicam-me que o que vivi existe desde sempre e que elas se desenrascaram bem. Séculos e séculos de mulheres, antes de nós, conseguiram gerir as coisas com dignidade. E eu digo que elas consumiram a vergonha que tinham e puseram um sorriso para as insónias. Afirmo que de cada vez que um homem impõe o seu prazer a uma mulher instintivamente submete-se à lei do patriarcado e a primeira regra dessa lei consiste em assegurar que somos excluídas do dominio do prazer. E reprimir-nos desde a nossa mais tema idade faz parte dessa construção. Contrariar-nos é a tarefa dos soldados do patriarcado. Deixando nos desfrutar tranquilamente, temem pela ordem do mundo tal como a construíam.
[...]
É uma história de educação. Repetiram-me muitas vezes, quando era pequena, que não havia nada mais bonito do que morrer por amor! Não havia destino mais trágico para uma mulher. Tirando ser uma mãe que sofre imenso. Na maternidade, é sempre a infelicidade que veneramos. Nunca o florescimento. E a morte trágica, no caso dos amantes. Se gostas de fazer sexo com um homem, tens de estar pronta para morrer.
Suportamos perfeitamente a ideia de que as mulheres sejam mortas pelos homens, com a simples justificação de que são mulheres. Exceto se são raparigas ou velhotas. O que significa que suportamos perfeitamente a ideia de que uma mulher seja vítima de um homem enquanto estiver na idade de ter uma sexualidade ativa. Mesmo se for casada, mesmo se for mãe, mesmo se for freira a partir do momento em que é púbere e até aos seus setenta e cinco anos, é uma vitima aceitável. E acho que isso acontece por ela ser eventualmente sexual.
Mas Despentes não se fica por aí. Para ela, isto ainda é pouco. Estamos nos primeiros minutos da partida.
Lembram-se da assessora de imprensa? Ela, mais que qualquer outra personagem, servirá um propósito fixando a bitola geracional, marcando a cadência entre gerações. Representante de um feminismo de século XXI, Zoé é a denunciante assumida. A mulher que não esconde o crime porque lhe imputam a vergonha. Ela é aquela que, com coragem ou imprudência, expõe a sua história nas redes sociais...
Eu tomo a palavra, digo fui trabalhar todos os dias com um nó no estômago. A sentir-me repugnante por estar tão repugnante e de mesmo assim ir. Envergonhada com a minha raiva e por não saber articulá-la. Nem todos os rapazes eram uns canalhas naquele trabalho. Mas todos eram cúmplices, visto que era uma lei não escrita - o espaço público é um lugar de caça. Nem todos caçavam. Mas todos abriam alas ao caçador. E eu estava intimamente convencida de que era uma palerma.
...e se expõe às hostes machistas...
Leio-os. Diz-se-lhes tem de se bater, e eles batem. Confiam no número. Analisadas uma a uma, as mensagens sio ofegantes, débeis, repetitivas. Ponho-me a ler atentamente. Leio cem vezes, falando do gajo que contactou a mãe «o gajo que fez isso é um génio e outras cem vezes «elas precisam de ser admoestadas e outras cem vezes «eu nem sequer te violava de tão feia que és sua cabra feminista». E tenho pena deles. A miséria. Eles são a miséria. A pobreza. A mediocridade. E reivindicam-na. Têm os imaginários inertes. É uma simulação grotesca da alegria e da amizade, da solidariedade, mas é antes de mais a expressão da miséria mais sordida. Ela precisa é de um corretivo acham que tudo é permitido espero que a mãe dela a ponha na ordem - essa beta de merda de certeza que a sustentam espero que lhe cortem a mesada para que se torne numa puta és um génio meu és um génio. Uma merda. Os milicianos da masculinidade minúscula. Os minusculistas.
...mas também às múltiplas correntes feministas, apostadas na razão e divididas no objetivo, aos adeptos do politicamente correto e da "ordem natural das coisas"...
Há que pôr sexo no corpo das mulheres assegurando-se de que isso não é a cena delas. Que elas não lhe escapem, mas que não seja feito para elas. «Elas», nesta narrativa, continuam a ser barradas à entrada da humanidade, à porta, repelidas pelos seguranças. Nem sequer são objetos. Porque aos objetos não se censura o uso que deles se faz.
É uma festa que tem por base os nossos corpos, mas na qual nunca devemos participar de pleno direito. Dançam em cima de nós. Não connosco. Nunca somos pares. Somos sem-pre presas ou vítimas.
Num sistema de dominação pela violência, não há prazer onde não houver quem chore. Todo o desejo deve ser associado à destruição, condição sem a qual não é masculino.
...e aos palermas mais variados a quem opõe a bravata e o orgulho dos injustamente ofendidos:
A emancipação masculina não aconteceu. As vossas imaginações estão subjugadas.[...]
Aquilo que nos dizem, compreendemo-lo bem: não se libertem das vossas correntes por nada deste mundo, ou arriscar-se-iam a partir as nossas nesse movimento.
Cada tiro, cada melro.
Mas o melhor de tudo isto é quando Despentes sai das suas personagens (e aqui ela fá-lo inúmeras vezes) e grita a plenos pulmões aquilo em que acredita, com uma força que atrapalha mesmo o leitor mais preparado:
Ouço as feministas que se questionam como é que o patriarcado pôde durar tanto tempo. Dizem que é pelo medo da violência, é uma teoria dos anos 80, hoje muito controversa[...]. Outras evocam o medo da separação, da rutura[...]. Procuram explicações complexas. Não percebo porque é que fingem que as guerras são algo de tão natural que nem vale a pena levá-las a sério. Por um lado, explicam-te que se te apalparam quando tinhas treze anos a tua vida ficará para sempre marcada pela humilhação. Mas, por outro lado, encadeamos guerras atrás de guerras e não querem ver que relação isso poderá ter com o patriarcado no que este contém de patológico[...].
Quero acusar os homens - dizer que é a única forma que arranjaram para engendrar no meio do sangue. Não custa nada construir teorias, posso dar-te uma - estão tão frustrados por não parirem que foram buscar uma cena onde jorra merda e sangue como num parto. Para darem à luz nada.
Afinal, Caro Idiota tem tanto do seu manifesto Teoria King Kong que não tenho como não o adorar. Pouco me interessa que as suas personagens principais não estejam na minha faixa etária, no meu grupo social ou cultural, que sejam uns agarrados com problemas mal resolvidos que lhes assomam e os assombram agora que chegam à meia idade. Despentes mostra-nos que, mesmo num caso tão flagrante de abuso de poder, assédio, consumo de droga, o mundo não é a preto e branco. No final do dia, quer sejamos o abusador, a vítima, a testemunha, o vizinho desapercebido, o utilizador anónimo, o cineasta, o ator principal, o público na plateia, não há heróis.
Não sacralizo a palavra da vítima. Evidentemente, às vezes as mulheres mentem. Seja porque não têm qualquer escrúpulo, seja porque pensam que é legitimo. Mas a percentagem de mentirosas inveteradas continua a ser ínfima entre as vítimas, enquanto a percentagem de violadores entre a população masculina deveria alertar-vos para o declínio das vossas sexualidades. E, apesar de tudo, vejo-vos muito mais escandalizados com a ideia da possibilidade de uma acusação injustificada do que ficam por saber que há violadores entre os vossos amigos. A partir dai, como dizer... Mesmo pondo nisso uma grande dose de mansidão, é difícil termos pena de vocês.
*Quando no Portugal mesquinho de 2020 se publica o título Pra cima de puta, e, dois anos depois, se escolhe traduzir cabrão por idiota, pergunto-me se seguimos todos pela vida ao mesmo ritmo. Porque será que um autodepreciativo puta da parte de uma apresentadora de televisão é mais aceitável do que um ofensivo cabrão dirigido a um homem abusivo "fictício"? Alguma coisa me está a escapar...