Diante da emergência de saúde pública global deflagrada pela Covid19 e o isolamento social prescrito como medida de contenção da pandemia, os analistas orientados pelo seu dever ético sustentaram tratamentos por meio de sessões online. Antonio Quinet, em sua série de lives, lançou-nos um refletir sobre os fundamentos éticos e teóricos da psicanálise para pensar a análise online. Entre os lutos e a angústia crescente frente ao real da pandemia, o desejo do analista mais uma vez foi convocado a estar à altura da subjetividade de sua época e tematizar os problemas cruciais desta modalidade clínica. Neste caminho, Antonio Quinet define o espaço analítico como o espaço psíquico, estabelecido pela transferência e pelo ato analítico, ultrapassando a antinomía entre sessões virtuais e presenciais. É a presença do analista que faz comparecer o Inconsciente linguagem na enunciação verbal, o presente real de lalíngua e sua musicalidade extraída do manhês, o Inconsciente que se dá em espetáculo com o corpo na enunciação corporal e a circulação na cena online dos objetos pulsionais olhar e voz. A série aborda ainda a análise com crianças, com psicóticos, entradas e términos de análise, a relação entre dinheiro e sintoma, a extimidade do analista, a política da psicanálise. Em todos os episódios, uma convocação, uma marca indelével na enunciaçã que despertem os analistas para as urgências da época!
Antonio Quinet é psicanalista. Formado em medicina com especialização em psiquiatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), teve sua formação psicanalítica realizada em Paris, na École de la Cause freudienne. É professor- assistente do Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VII (Vincennes), tendo defendido nessa universidade a sua tese de doutorado. É autor dos livros, publicados no Brasil: Teoria e clínica da psicose (2a ed., Editora Forense Universitária), As 4+1 condições da análise (10a ed.), A descoberta do inconsciente (2a ed.), Um olhar a mais (2a ed.) e A lição de Charcot (Jorge Zahar Editor); e, publicados no exterior: Las condiciones del analisis (Argentina) e Un plus-de-regard (França). É também co-autor e organizador das coletâneas Jacques Lacan: a psicanálise e suas conexões (Editora Imago), Extravios do desejo – depressão e melancolia, Psicanálise e psiquiatria – controvérsias e convergências e Na mira do Outro – a paranóia e seus fenômenos (Editora Marca d’Água), e autor de artigos publicados em revistas e livros na Argentina, Austrália, Brasil, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Inglaterra. Escreve regularmente para jornais sobre psicanálise e arte. Tradutor de Lacan no Brasil, foi responsável pelas versões dos Seminários 2 e 7 e de Televisão. Profere conferências e seminários em diversos países e cidades do Brasil. É professor convidado do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de janeiro, docente de Formações Clínicas do Campo Lacaniano – Rio de janeiro, AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e, mais recentemente, dramaturgo (A lição de Charcot, X, Y e S – abertura do teatro íntimo de Strindberg e Artorquato).
Bom livro. Especialmente no que se refere à afirmação de Quinet que a psicanálise à distância/online sim, funciona. Por isso, ele vale ser lido. Destaco ainda o elemento que o autor chama de encontro tíquico (de Tycké e Automaton), elemento esse Real, que para Quinet se presentifica na análise online através dos objetos da pulsão voz e olhar no "ao vivo" da sessão.
Algo que me incomodou em Quinet foi o destaque para emplacar algumas de suas teorias marginais sobre o inconsciente - que ele chama "teatro do inconsciente", já que escreveu um livro que aproxima o campo teatral/espetaculoso do funcionamento psíquico. Ele também tira uma série de considerações sobre as pulsões invocantes e de olhar que parece também estranhas (segundo o mesmo, elas não teriam representação no inconsciente, diferente das pulsões anais e orais). Destaque para a fala de Laznik sobre intervenções precoces em bebês com risco de autismo. Quinet relaciona então isso do olhar e da fala a uma condição estrutural da linguagem para aludir à eficácia da psicanálise online, que particularmente achei que se extendeu desnecessariamente em outros capítulos.
Em suma, demorei para lê-lo. Acho que pelo formato que se origina das lives durante a pandemia, ele tem uma estrutura meio maçante: o autor sempre começa exortando ao público para que fiquem em suas casas, comprometendo-se ao distanciamento social, o que fica muito repetitivo ao longo do volume e me fez deixar o texto algumas vezes. O livro é, em essência, uma pergunta seguida de resposta se a força de uma psicanálise pode ser conduzida mesmo que a presença seja virtual em contrapartida à presença de carne e osso. A resposta é um retumbante sim.
(A expressão "o analista precisa ter tetas" que Lacan teria enunciado em algum de seus seminários e que Porge em "tele-análise: um acting out?" usa como argumento que a psicanálise online não funciona, retorna e me faz rir.)