"Quarenta Dias" é um exercício de prosa delicioso, duro e adorável ao mesmo tempo, num registro tão firme e maduro que as fragilidades do livro me espantam e me demovem às vezes. Os quarenta dias em questão, aqueles em que a paraibana Alice se lança a uma busca insana e simbólica até a raíz pelas ruas de Porto Alegre, demoram muito a chegar. O livro, como a personagem, parece titubear demais entre a libertação e a vergonha, e nisso ganhamos uma primeira barriga imensa onde vemos em detalhes maiores que os necessários não só o estado de espírito dessa professora aposentada, retirada de sua João Pessoa natal por uma filha indiferente, como a pragmática dessa mudança naquilo que ela tem de menos atraente (abundam as referências à Alice de Lewis Carroll e o xadrez do começo do livro não é tão difícil assim). É mesmo quando Alice se lança à rua, na quimera de encontrar o filho perdido de uma desconhecida, enquanto a sua própria filha permanece como uma sombra terrível e (no fim) irreconciliável, é que entramos com fôlego na narrativa. Os elementos estéticos que Maria Valéria Rezende emprega são sempre muito profundos, a voz de Alice é radical em sua unicidade, assim como as relações que ela estabelece na rua - onde, eventualmente, passa a morar. Dois recursos chamam atenção: primeiro, com efeitos diversos, as citações de livros que abrem cada capítulo, retirados da ficção, pedaços anotados por Alice na sua perambulação; o mais eficiente deles é a figura da Barbie, a boneca que estampa o caderno onde Alice escreve esse diário, usada como interlocutora pela protagonista, que tem por ela iguais doses de irmandade e desprezo profundo. De todo, a estrutura do livro acaba abreviando episódios incríveis da rua (o encontro com uma benfeitora que tem casa própria; a camaradagem com um argentino fugido da ditadura; até um menino que toma por filho, e que não toma nem mesmo um parágrafo, numa relação que poderia espelhar em muito aquela da filha desnaturada da vida real). Fosse menos diário e mais romance biográfico (porque esta é, enfim, uma professora de literatura), talvez o livro pudesse chegar mais fundo na dor dessa mãe abandonada que decide então abandonar em troca.
Um trecho memorável:
"Caminhei mais um pouco pela calçada, até uma parada de ônibus onde havia três ou quatro pessoas esperando, e perguntei, sem olhar nem me dirigir especialmente a nenhuma delas, se ali passava ônibus pra Vila Maria Degolada. Na Maria Degolada? Vai fazer o que lá, promessa? Vou procurar uma pessoa. Tem que pegar transporte do outro lado da avenida, ouvi, nem agradeci, enfezada, o que eu ia fazer não era da conta dela. Nem encarei a mulher que perguntou e respondeu, pra não saber se também me olhava de modo estranho. Veja como são as coisas, Barbie, agora acho que a estranheza estava era nos meus olhos, em mim, e eu a pespegava na cara dos outros, coitados, que não tinham nada a ver com o meu desmantelo. Segui até a esquina e atravessei na faixa. Outro ponto de ônibus, só uma mulher esperando e, fiquei aliviada, seria brasileirinha?, era negra, não era dali, não ia me olhar de modo estranho. Perguntei e recebi a resposta numa fala que me desmentia. Ela era dali, sim, e disse que o ônibus que já vinha parando no ponto ia pra os lados de lá, Esse dá pra ti, tu desce quando ele entrar na Bento e já vai ficar bem perto. Corre pra tu pegar esse aí que o próximo demora a chegar.
Corri, tropeçando, e me meti pela porta da frente, o carro arrancou com um solavanco, caí sentada no primeiro banco, felizmente vago, pra me dar conta, tarde demais, de que a roleta era atrás, sem ânimo pra me levantar e ir pagar a passagem. Toda a energia que eu tinha exibido atravessando a pé quilômetros daquela cidade pareceu escorrer pro chão pelos meus pés agora doloridos, deixando atrás de si um desânimo enorme. Pela primeira vez, desde que começou essa minha migração forçada, tive vontade de chorar e fiquei um bom tempo com a cara virada pra fora, fungando, querendo esconder as lágrimas, fingindo que olhava pela janela, vendo vagamente passarem avenidas e prédios que não me diziam nada, uns com essa cara de luxo padronizado que se espalha igualmente de Dubai a Xangai passando até pelo "edifício mais alto do Brasil", em João Pessoa, outros em construção ou abandonados, sei lá, com aspecto de ruína, tudo tão misturado que a gente fica sem saber se a cidade está nascendo ou morrendo, fui pensando à toa, até o vento da janela secar minhas lágrimas ou eu me lembrar das lágrimas da mãe de Cícero Araújo."
(Alfaguara/2014, p. 98-99)