No Noroeste de Minas, nas margens com Bahia e Goiás, mora uma senhora que emana força por todo o cerrado. Sua casa não tem televisão, a sala é cheia de camas e em uma das paredes o olhar do quadro de um boi questiona a humanidade. O número de pessoas que passam por lá em apenas 24 horas é incontável, e, todo ano, no mês de julho, mais de 80 caminhantes pousam uma noite única no quintal dessa senhora, a Vó Geralda, para ouvir as histórias de um recorte de sua vida.
A Fazenda Menino guarda histórias misteriosas: o grandioso projeto de ocupação e desenvolvimento do Vale do Rio Urucuia, a cidade projetada por Niemeyer que não aconteceu, a perseguição a integrantes do Partido Comunista Brasileiro que pernoitavam ali, e a vida de uma professora da escola rural torturada apenas por estar na mesma casa… Em 1968, Geralda de Brito Oliveira chegou num carro de boi para dar aula no ciclo de alfabetização. Pouco depois, passou a administrar a propriedade. Sua narrativa é peça importante da história local. No entremeio do sonho e do despertar, em que chás de galhos de mexerica cuidam da dor, as memórias de Vó Geralda contam que pisar na terra ajuda a lidar com o impossível e que o sertão é definitivo.
Encontrei o livro por acaso, numa livraria, e imediatamente a história chamou minha atenção.
O livro é narrado por Vó Geralda, mulher do sertão, braba, que nos traz as histórias da sua vida que foi pra lá de agitada: ao mesmo tempo que vivendo coisas que toda mulher no sertão vive (o casamento arranjado, a pobreza, etc), também trabalhou por anos em uma fazenda que foi alvo dos militares por suspeita de comunismo, mas isso é só um episódio de tudo que aconteceu na vida dessa mulher. Não quero trazer spoilers aqui, mas recomendo fortemente a leitura! É um retrato do nosso país, do nosso sertão e da força da mulher brasileira.
Mesmo já tendo lido o livro, adoraria passar dias escutando da própria vó Geralda todas as suas histórias.
Quando cheguei à casa de Dona Geralda, foi como entrar na Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Aquela casa grande, que vai se espalhando, que cobre nós todos, as barracas no quintal, as galinhas, as muitas e muitas pessoas que vão e que vem. Depois de subir e subir todo o dia por aquele sertão mineiro, no meio de lugar algum, a gente chega naquela Fazenda Menino, e juro pra vocês que dá de ver a luz da casa emanando pros céus. E quando, por fim, escutei Dona Geralda, só pensei que além de caminhar o Caminho do Sertão, ainda tinha ganhado de ouvir um Riobaldo de carne e unha, mulher sertaneja, ali, diante de mim. Ler suas historias, com sua voz no ouvido, foi um prazer e um abraço, uma volta pra esse lugar que abriu novas portas na minha vida. Tanto Brasil guardado Brasil afora! Que privilégio ter cruzado com esse. <3