Esse “redescobrimento” de Nebulosas de Narcisa Amália é o clássico exemplo de quando o resgate e reconhecimento histórico é inegavelmente merecido, mas nem por isso torna a experiência do leitor moderno melhor ou mais agradável. A questão é que Nebulosas já em sua época era uma obra nichada, destinada a um tipo muito particular de leitor.
Nebulosas para ser devidamente apreciado precisa de um leitor afeito ao gênero lírico e de preferência que entenda como um poema é escrito, que saiba reconhecer os diversos tipos de versos e estrutura. Somente um leitor com essas características vai conseguir apreciar e reconhecer devidamente os versos dessa jovem poetisa que mesmo tão nova causou espécie em gente como Machado de Assis.
Para nós, “pobres mortais”, “ateus” em poesia, Nebulosas se lido de forma corrida pode ser uma tortura. Nem mesmo a edição cuidadosa, cheia de comentários e glossários da Ed. 34 vai ajudar a ter uma boa experiência de leitura.
Para início de conversa temos a barreira linguística, os textos são escritos num nível de erudição invulgar, uma das críticas de alguns inclusive à obra é por conta do texto rebuscado. Por mais difícil que seja a leitura, seria uma afronta ao cuidado de Amália ao compor esses versos pretender “corrigi-los” para a linguagem de hoje. Por mais ignorante que seja o leitor em poesia, o apuro e cuidado na escrita são perceptíveis.
Não o fiz, mas talvez a leitura em voz alta ou entoando mentalmente ajude a tornar a leitura menos árida e sofrida. Como os comentários dão conta de esclarecer existe um cuidado meticuloso no domínio do ritmo em cada poema, que uma leitura silenciosa e “chapada” pode impedir o leitor de perceber.
Feitas essas ressalvas, mesmo o leitor menos afeito ao gênero perceberá a inteligência e a ousadia dessa “mocinha” de vinte anos que se atreveu por meio de versos criticar a escravatura, a condição da mulher e o regime político. Como bem apontam os textos de apoio Amália não era uma moça comum de seu tempo e seus versos apesar de nossa dificuldade em apreciá-los dão conta disso.
Um diferencial importante dessa edição da Ed. 34 são os textos de apoio que ajudam a contextualizar quem foi Narcisa Amália e o quão influente e a frente do seu tempo ela foi. Em alguma medida inclusive a vida da autora é para nós bem mais interessante e prazerosa de se conhecer do que a leitura de seus versos por mais que se compreenda a importância deles .
Nebulosas de Narcisa Amália, portanto, é uma obra de valor literário e artístico inegável, porém a menos que o leitor seja afeito ao gênero lírico ou esteja obrigado por motivos acadêmicos não é exatamente uma leitura que eu recomendaria.