A primeira vez que comprei Pelas Entranhas foi por indicação da minha musa, Natalia Grecco. Havia também um interesse prévio: eu já admirava a Triz desde a época de Ordem, tanto pelas maquiagens quanto pelo estilo autêntico e excêntrico. Além disso, eu estava, naquele período, bastante inclinada a leituras de terror. O cenário parecia perfeito. Na prática, não foi bem assim.
Meu primeiro contato com o livro terminou em abandono. Li o primeiro conto até o fim, mas não consegui me engajar. Quando iniciei o segundo, percebi que mal lembrava do anterior e acabei largando de vez. Só meses depois resolvi dar uma segunda chance e, curiosamente, foi nessa releitura que fiz mais anotações do que em qualquer outro livro que já li.
No primeiro conto, a impressão dominante foi a de uma crítica social excessivamente explícita. Não se tratava de subtexto, mas de exposição direta, quase como um relatório. Essa abordagem acabou tornando a leitura cansativa e, pior, prejudicou o ritmo da narrativa. A crítica, por não estar organicamente integrada à história, distanciava o leitor dos personagens em vez de aproximá-lo.
Esse distanciamento, aliás, não se limita ao primeiro conto. Ao longo do livro, senti repetidas vezes que estava lendo a Triz escrevendo, e não personagens falando. As vozes narrativas do primeiro conto, mesmo que poucas, são muito semelhantes entre si. Falta individualidade na linguagem, falta personalidade no discurso. Todos parecem compartilhar o mesmo tom, o mesmo vocabulário, o que reforça a sensação de que a autora não conseguiu se afastar completamente da própria voz para habitar seus personagens.
Ainda assim, o primeiro conto não é ruim. O final não chega a ser um grande plot twist, mas funciona. O problema é a familiaridade excessiva. A história soa parecida com outras já vistas, o que diminui seu impacto. Em compensação, a escrita é fluida, acessível e, em alguns momentos, até bem-humorada, o que torna a leitura menos árdua do que poderia ser.
O segundo conto, por outro lado, foi um dos pontos altos do livro. O desenvolvimento dos personagens é visivelmente mais cuidadoso, a história parece mais original e a crítica social, quando aparece, é muito mais implícita e, por isso mesmo, mais eficaz. Aqui, a narrativa flui sem ser interrompida por discursos evidentes, o que torna a leitura mais satisfatória.
No entanto, esse conto sofre de um problema sério no desfecho. O final parece apressado. Muitas informações e aprofundamentos que pareciam caminhar para algo relevante acabam não tendo impacto algum. Considerando o encerramento, boa parte desses trechos poderia ter sido melhor aproveitada ou simplesmente removida, sem prejuízo à narrativa. A ausência da reação dos outros personagens é especialmente sentida e enfraquece muito a conclusão. O final é aberto, mas não no sentido provocador; ele soa incompleto, como se algo essencial tivesse ficado pelo caminho.
O último conto é o mais curto e, curiosamente, levou cerca de cinquenta minutos para ser lido. A escrita é satisfatória e, na minha percepção, é também a história mais pesada do livro. A autora descreve os acontecimentos de forma direta e realista, tornando-os plausíveis dentro da nossa realidade, o que intensifica o desconforto. Ainda assim, o desfecho é previsível. Desde o início, já era possível imaginar o que aconteceria, o que diminui o impacto final.
No conjunto, Pelas Entranhas me decepcionou um pouco, sobretudo porque eu esperava mais. Isso não significa que seja um livro ruim. Longe disso. As histórias funcionam, a escrita é competente e há méritos claros, principalmente considerando que se trata de um primeiro lançamento. A autora demonstra potencial e, em vários momentos, surpreende positivamente. O que falta, no entanto, é maior maturidade narrativa, sobretudo na construção de personagens e na resolução das histórias.
É um bom livro. Só não é o livro que eu esperava encontrar. Li em três dias.