Na história da humanidade, a paz é uma anomalia.
Não foi sem razão que se passaram já vários dias desde que acabei esta leitura e as palavras teimavam em faltar. Claro que já esperava ficar chocada e revoltada - e estou a fazer um esforço para me manter longe de palavras como repugnada ou nauseada, embora sejam perfeitamente adequadas -, e A guerra de Putin contra as mulheres provocou exatamente essas reações: de violência psicológica e física, a algo que transcende tudo isso (falo em práticas comuns nesta guerra, como a castração, ou a violação em grupo, para mencionar duas das mais aviltantes e gráficas), há nestes relatos material suficiente para considerarmos os atos que acompanham a invasão da Ucrânia como crimes de guerra ao nível daqueles perpetrados na Segunda Guerra Mundial. Mas há, subjacente a tudo isto, uma questão maior que me estava a roubar da vontade de sequer rever esta leitura, uma questão que eu não reconhecia, subjacente à realidade que aqui se descreve: uma lacuna no meu próprio conhecimento do que pode levar a crimes de guerra e ao genocídio, na Europa, em pleno século XXI.
A Rússia surpreendeu o Ocidente porque a experiência histórica da Europa de Leste não era considerada suficientemente importante no Ocidente. Não era vista como parte da história global da Europa.
Com este curtíssimo parágrafo, e em meia dúzia de palavras, Oksanen desarmou-me por completo. Apontando o dedo à minha ignorância cúmplice, mostrou-me como é fácil, perante o discurso instituído (falamos de política, mas também de história e de cultura, seja a de museus, da TV, da escola etc) deixarmo-nos alimentar por falácias, incongruências, e, o que é pior, pelo desconhecimento.
Assim se explica que também a mim, como a muitos de nós, a Ucrânia tenha parecido incauta em contestar o domínio russo, louca em se lhe opor, e miraculosa em lhe resistir até agora.
Quando vista através dos olhos do colonizador, a identidade de um povo e a sua luta pela independência tornam-se invisíveis. O racismo russo em relação aos ucranianos e o tratamento inferiorizante de que são alvo reforçaram a imagem que Moscovo tinha dos ucranianos como seres submissos e incapazes de resistir. No imaginário russo, a Ucrânia, mas também a Polónia e os outros países bálticos, são considerados invenções de povos pequenos, emotivos e histéricos. Daí a surpresa perante a resistência ucraniana, também sentida no Ocidente.
E o que é mais, a Ucrânia nunca constou dos países que imaginasse ter como prioridades a igualdade de género (sobretudo em tempos de guerra). No entanto, ela aí está a assinar vários acordos internacionais e a adotar tratados sobre direitos humanos e empoderamento feminino, contra a descriminação. E, ao passo em que o faz, o regime de Putin já está noutro patamar e não debate ninharias destas. Aquele que foi o primeiro Estado europeu (ainda Império Russo] a criminalizar a violência doméstica e o terceiro estado do mundo [já URSS] a conceder o direito de voto às mulheres, entre muitas outras prerrogativas então vanguardistas, como o direito ao aborto, está agora em inversão de marcha. E para combater a alteralidade que as mulheres (e as minorias) representam, o exército russo recorre à sua repressão física através do trauma e do medo - não necessariamente apenas em território ocupado:
A Rússia usa a mesma arma geração após geração, e pelas mesmas razões: desonrar a vítima, esmagar a resistência e afirmar a sua posição dominante, sendo cada caso de violência sexual um aviso dissuasor para as nações ocupadas.
E fá-lo sobretudo porque, e isto não deve espantar ninguém, é um método barato e eficaz (sempre o foi) de manter um regime de opressão patriarcal, colonialista e bélico:
As primeiras manchetes sobre os crimes de guerra na primavera de 2022 chocaram o mundo. Na altura, perguntámo-nos: quem são realmente estes russos? Uma pessoa que me segue no Twitter escreveu: «Não consigo perceber porque é que a Rússia está a bombardear maternidades e a violar civis na Ucrânia. Porque é que estão a fazer isto? Alguém compreende?» Uma resposta simples é que o exército russo tem uma capacidade de combate limitada. É mais fácil atacar alvos imóveis, e a violação não requer competência de combate ou equipamento militar sofisticado. A violência sexual é cometida nas casas das vítimas, em locais públicos e em caves, em centros de detenção ilegais ou em campos de filtragem.(...)A violência sexual é uma das armas mais antigas do mundo. Eficaz, suprageracional no impacto que provoca, não requer gestão logística, manutenção técnica ou modernização.
Mas o regime supera essa violência já bem conhecida de forma ainda mais chocante, deixando nas mãos de outras mulheres o culto de um modelo de família patriarcal e xenófobo. A desumanização faz-se a um nível endémico. Assim se "explica" que as mães, irmãs ou mulheres dos soldados russos sancionem as violações, os roubos, as torturas, a humilhação de outras mulheres, sendo "outras" a palavra de ordem aqui:
A violência sexual traumatiza, destrói famílias e comunidades inteiras ao longo de gerações, perturba a estrutura demográfica. É por isso que é um instrumento de dominação tão prezado e é por isso que a Rússia faz questão de usar esta arma ancestral. No caso da Ucrânia, pode colocar-se a questão de também ser um instrumento de genocídio.
A desumanização, e desumanização é um dos conceitos mais repetidos por Oksanen neste trabalho, é aquilo que melhor explica a guerra genocida movida pela ambição colonialista. Mulheres, gay, ucranianos, polacos, finlandeses etc etc são epítetos que se resumem, no vocabulário russo, a coisas. E as pistas de um regime desumanizante estão todas lá e há gatilhos inevitáveis: misoginia, cultura familiar, supressão de individualidade, discurso xenófobo e apagamento da memória:
Através das notícias, o mundo inteiro assistiu à ação das tropas russas a arrasarem cidades. As cidades estão cheias de casas, e essas estão naturalmente cheias de memórias e recordações. Nenhuma memória é considerada totalmente insignificante para o ocupante. Uma só fotografia, um só relato, pode preservar a história de toda uma família. É por isso que a Rússia não se limita a pilhar coleções de arte. As fotografias privadas são igualmente perigosas, pois preservam memórias que precisam de ser erradicadas. Preservam a memória dos crimes russos e da Ucrânia como nação independente.
No meio de mais um êxodo, no meio de mais uma guerra, a Ucrânia continua a fazer história. Em mãos com um adversário que não conhece regras, consegue fazer história de resistência, de coragem e de igualdade:
Em março de 2023, mais de 60 500 mulheres prestavam serviço nas forças de defesa ucranianas e o serviço militar feminino transformou radicalmente o exército ucraniano. Graças à participação feminina, o exército do país tem o potencial de se tornar o mais igualitário do mundo, um modelo em grande escala. Este facto é importante para todas as mulheres e raparigas do planeta porque quanto mais mulheres houver nas Forças Armadas, menor será o assédio sexual. Por outro lado, quanto mais mulheres houver entre os soldados, menor será a violência sexual nas zonas de conflito.
Da Ucrânia aos bálticos, e daí à restante Europa há apenas um entrave, o muro alemão (e a palavra é jogada aqui propositadamente) que, como sabemos, força uma divisão simbólica - e física - entre ocidente e leste no que respeita a ideias de Civilização, Instituição, União e Proteção (chavões que vão perdendo sentido à medida que nos isolamos). No momento em que esse muro for ameaçado, já não mais teremos receio de mobilizar vidas, de jogar o jogo do azar, de recorrer a dissuasoēs nucleares. Até lá, se nada mudar, continuaremos a viver com os relatos de crimes de guerra, e com o regredir civilizacional em que esta guerra (e todas as outras) nos mergulham. Uma realidade que, de tão dantesca, nos parece irreal.
Oksanen não poupa os seus leitores a essa realidade, e fá-lo com todo o direito e razão. A nossa tomada de consciência é fundamental, e se tiver de passar por uma admissão de ignorância, que o seja. Se não pelos outros, por nós.
A guerra mata pelas mãos dos indiferentes / E até mesmo pelas do piedoso passivo.
Halyna Kruk, Não à Guerra (2023)