Uma Nova Violência acompanha um grupo de jovens revolucionários na criação e desenvolvimento da sua comuna no Alentejo, para os lados de Odemira, refugiando-se da metrópole que decai e que já não serve como modelo de vida. Essencialmente, um livro político que talvez incite à ação. Através dos chamados (convencionalmente) extremos ideológicos, explora novas formas de vida no deserto alentejano, ou numa nova América, onde a vida comunitária ganha um novo sentido longe da azáfama da cidade e fora do controlo do Estado, o que permite novas formas de liberdade.
Por um lado, talvez possamos fazer uma leitura a favor da social-democracia para os mais conservadores, e para os alienados, pode servir como uma espécie de fantasia de vingança. Essa nova violência parece uma violência à Inglorious Basterds: o produto do ressentimento dos que foram esmagados por um certo opressor. Neste caso, os tubarões do capitalismo e da aristocracia, tal como os que dela vieram e a rejeitaram. Uma redenção dos despojados. E esta violência à Tarantino encontra-se especialmente no final do livro, em que há partes que fazem lembrar o Kill Bill em autênticas orgias de violência e destruição renovadora, e também, a meu ver, muito humor no meio disto tudo, com situações caricatas em que o perigo extremo encontra a irresponsabilidade extrema, especialmente devido ao uso de drogas em festas, mas o que seria uma América espiritual sem uma boa coboiada?
Há um embate ideológico entre a esquerda e a direita radical que demonstra as diferenças na forma de ver o mundo e as semelhanças do que ambos buscam. Tiago parece uma das personagens mais interessantes e misteriosas, mas infelizmente não dá grande luta, e o seu apelo, tal como Suge, está exatamente na figura das sombras, desumanizada e sem passado, ao contrário dos bons da fita, e o seu final não parece muito verosímil. Duarte, um fotógrafo enfezado que é espancado por um gym-bro (Francisco), torna-se num homem de ação ao ponto de, sem dificuldade alguma, eliminar um dos membros mais fortes do grupo de extrema direita habituado à violência e com mais capacidades intuitivas e físicas de leitura de agressão. Parece um desperdício de uma personagem que, ao apresentar-se como irmão/inimigo oposto ideologicamente, se torna apenas um nazi para dar um soco simbólico. Há também outras ideias de personagens desenvolvidas ao início que acabam por ficar pelo caminho, mas podiam ter como objetivo delinear as qualidades físicas e intelectuais do grupo que compõe a comuna, ou pelo menos dos líderes.
Quase todos foram meninos bem comportados que querem mostrar o que valem e esmagar o seu passado pacífico e correto, e por isso não parece haver razões para torcer por eles porque quem os magoou é “a sociedade”. O clima, o capitalismo, as elites, são imagens abstratas que os guiam, mas derrotar estas forças invisíveis é um processo nebuloso até se materializar no grupo de extrema direita, que também são outros perdidos da vida em busca do mesmo, apenas com preconceitos diferentes. Conclui-se que há tantos leviatãs a abater que a forma mais eficiente é destruir tudo para começar de novo, e o grupo de extrema direita redireciona esta violência para um objeto concreto. Contudo, antes disso já eram intelectuais que decidiram brincar aos hippies e criar uma revolução, e por mais que esta fantasia da nova violência tenha sido despoletada pela falta de dinheiro, que os faz roubar o líder de culto, parece que tudo isto é um acidente que lhes dá coragem para prosseguir a purga e chegar aos que estão mais acima, estando em sintonia com as ondas de violência por todo o país.
Pessoalmente este leitor não ficou convencido que o nível de podridão da metrópole descrita sirva de motivação suficiente para atear fogo a tudo. A podridão e a corrupção da cidade existem, de facto, e penso que quem lê este tipo de livros está solidário com a ideia, mas os protagonistas parecem demasiado virtuosos para o cidadão comum e começam trabalhos comunitários quase por um sentido de dever e culpa de classe, em vez de algo que os danificou intimamente. Parecem mais estar em competição direta com as forças dominantes do sistema, por eles próprios estarem tão acima na hierarquia, do que alguém realmente oprimido e que passa dificuldades reais. Basta vermos a origem de muitos dos protagonistas, que foram educados como membros das elites. Por outro lado, se pegarmos em Francisco, por exemplo, que foi usado de forma manipulativa, uma excelente personagem pelo que representa e que foi bem utilizada para proporcionar aquele terreno que só um ricaço poderia ter, este desgraçado passou de um trapo nas mãos da sociedade, sem qualquer agência interior, vítima do círculo social e da sua carteira, para alguém que renasce e cria uma revolução para escapar à sua fraqueza pessoal e falta de auto controlo.
Depois de toda a luta e do triunfo sobre os maus, numa luta de extremos ideológicos que parecia uma thread de twitter em forma animada, as personagens principais são puxadas para o lado do bem pelo facto de serem os protagonistas do livro, o que coloca a nu as tendências do autor. É dito no final do livro que eles são os maus, por isso talvez haja a hipótese de que observámos um bando de vilões desde o início e que este pode ser um livro anti-revolucionário. Ou talvez o livro queira dizer que estes betolas que se acham do bem são tão maus como os outros mas ainda não se tinham descoberto. Ou talvez, quem sabe, encorajar os enfezados intelectuais a tornarem-se nos maus para chegar à utopia através da destruição, ou possivelmente até que a substituição de Suge, o mau da fita, é um erro Beckettiano em que os novos profetas serão melhores, mas ainda maus, ou que toda a resolução desta narrativa tenha sido confusa e precisasse de uma conclusão para terminar o livro, ou que o poder sempre corrompe e que a revolução permanente é por isso necessária. Gostava de ter entendido o que me parece paradoxal aqui nesta mensagem, daí achar que merece uma releitura.
Por mais que se diga no fim do livro que os maus são os protagonistas da comuna de esquerda, parece também esta uma frase narcísica que visa mais consumar o triunfo sobre um inimigo do que uma verdadeira admissão de maldade. Eles são os novos maus sem culpa porque agora foram capazes de dominar alguém e sentem orgulho pela conquista de um tipo de poder que, oxalá, se alastre pelo fogo da revolução. Todavia, o fio narrativo está desde o início, tendenciosamente, a torcer pela comunas de esquerda e a justificar as suas ações, e não será por Duarte, a personagem principal, dizer que são maus que isso mudará a percepção do leitor. Pode haver a possibilidade de o lado panfletário querer incentivar a coragem de renovar o mundo, dando um impulso intelectual aos que estão na cerca.
A verdade é que neste tipo de livros o que menos interessa são as personagens e histórias, mas sim as ideias. Estas parecem ter sido bem exploradas pelo excelente terreno das bases narrativas que expõe a dicotomia criada entre a esquerda e a direita num mundo sem participação do Estado. As criticas à social democracia têm de ser feitas de fora, nestes ângulos mais radicais e exteriores. A social democracia, o neo liberalismo, ou seja qual for a mentalidade política vigente, só podem ser vistas ao longe, a viver já outra vida depois de sair da metrópole, e por isso é importante que haja grupos destinados ao seu antagonismo. Estes livros são os que nos dão uma visão exterior a este sistema que tudo permeia para revisitar e repensar novas formas de vida. Aqui, parece-me o ponto forte do livro. Ainda que a revolução não seja feita na realidade, talvez possa haver aspetos recuperáveis e ajustes que podem ser feitos, mas infelizmente, estes chamados radicais precisam de realmente o ser para que a social democracia se ponha na linha, de maneira a que a violência constante faça as suas exigências e não deixe que os donos disto tudo fiquem demasiado sossegados. Talvez uma opinião absolutamente contrária ao nicho que este livro aponta pela sua total descrença na social democracia, mas tal como diz o outro, gostaria de ver o V for Vendetta Parte 2.
Deixo apenas uma última crítica ao retrato do chamado “Alentejo”, que é um lugar que não existe propriamente. O Alentejo é uma região pouco ocupada e vasta, mas foi retratada com a condescendência da grande cidade, e no fundo este Alentejo não passa da Costa Vicentina, que não representa a totalidade da região nem a sua identidade, e basta ir a Évora ou a outro lugar alentejano para identificar estas diferenças. Este Alentejo faz parte do imaginário dos betos de Lisboa que não conseguem ver esta terra como um lugar com a sua história e as suas pessoas, mas sim uma província de férias feita só para eles, ou uma amalgama de gente que não interessa. Uma terra de ninguém pela simples razão de que onde quer que eles estejam no país, a terra é deles. Talvez o meu bias pessoal esteja afetado visto que a destruição gratuita (e imaginária) do meu território foi feita às mãos destes “entitled brats” que não fazem ideia das condições de vida da Costa Vicentina antes da revolução industrial recente que deu origem ao complexo industrial, em que os habitantes antigos dariam tudo para ter um décimo dos betolas que querem fazer arder o seu ganha pão, longe da capital, porque não aguentam a obesidade mórbida e o excesso dos lugares onde vivem.