«Não presto.» «Sou um inútil.» «Não sei fazer nada.» «Não sou capaz.» «Sou horrível.» «Sou burro.»
Quantos de nós ouvem repetidamente frases deste género dentro das suas cabeças? E que dizer da sensação constante de que, por mais que façamos, nunca é o suficiente, que somos uns impostores e que, mais cedo ou mais tarde, seremos desmascarados e todos verão que afinal não valemos nada? E o pior é que, na maioria das vezes, esta autocrítica exagerada nem sequer tem qualquer fundamento e apenas nos leva a estados de ansiedade, depressão e a outros problemas de saúde mental.
Neste novo livro, a psicóloga Sophie Seromenho, autora do êxito Não É Loucura, É Ansiedade, não mostra como calar esse nosso crítico interno que destrói a nossa autoestima, mas sim como mudar o seu discurso e, sobretudo, como conviver com ele.
Recorrendo a técnicas e exercícios assentes numa sólida base científica, a autora mostra-nos como podemos cultivar a autocompaixão como antídoto para a autocrítica e para promover uma melhor relação com nós próprios.
Um guia interessante sobre o papel da autocompaixão como forma de atenuar a autocrítica – por outras palavras, para nos julgarmos menos sem nos desresponsabilizarmos das nossas ações.
Gostei particularmente da primeira metade do livro, mais técnica, que falava um pouco na evolução do ser humano e no surgimento da autocrítica como forma de preservar o grupo e evitar o conflito, aumentando as nossas probabilidades de sobrevivência. Também gostei de aprender sobre as diferentes fases da evolução humana - reptiliana, límbica (dos mamíferos), etc. - e sobre o facto de o cérebro humano e os instintos que nos compõem serem uma espécie de manta de retalhos – muitas vezes, cheia de contradições – tecida ao longo de milhares e milhões de anos de evolução. Explica muita coisa sobre a humanidade!
A segunda metade do livro não me chamou tanto, confesso que me pareceu um pouco um texto de autoajuda genérico e um tanto vago e superficial. Inclui também muitos exercícios e, mesmo alguns sendo interessantes, isso quebrou-me um pouco o ritmo de leitura. Ainda assim, a segunda parte também tem algumas lições valiosas, como a ideia de acolhermos mais gratidão e autoapreciação no nosso dia a dia para combater a "negative bias" do nosso cérebro e, dessa forma, melhorar a nossa qualidade de vida.
No geral, é um livro super interessante e ambicioso no contexto português. A autocompaixão e a autocrítica são temas que me tocam e me fascinam bastante; fiquei contente de ver uma autora portuguesa a falar sobre eles.