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Este Livro que Vos Deixo - Livro I
António Aleixo compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes cantando numa feira ou festa de aldeia, outras, a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionando por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente.
Passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria - sua mais habitual ocupação, por isso também chamado «poeta cauteleiro» - ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta, e lá vem a quadra ou a sextilha a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, normalmente, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.
O que caracteriza a poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens.
Passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria - sua mais habitual ocupação, por isso também chamado «poeta cauteleiro» - ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta, e lá vem a quadra ou a sextilha a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, normalmente, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.
O que caracteriza a poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens.
- GenresPoetry
212 pages, Paperback
First published January 1, 2002
About the author
António Aleixo
8 books15 followersConsiderado um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos, António Aleixo também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.
No emaranhado de uma vida cheia de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante foi exercido em França.
De regresso ao seu país natal, estabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro".
Faleceu por conta de uma tuberculose, a 16 de novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.
No emaranhado de uma vida cheia de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante foi exercido em França.
De regresso ao seu país natal, estabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro".
Faleceu por conta de uma tuberculose, a 16 de novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.
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Community Reviews
Displaying 1 - 11 of 11 reviews
July 6, 2014
Irresistível...
Este livro que vos deixo
E que a minha alma ditou
Vos dirá como o Aleixo
Viveu,sentiu e pensou
(António Aleixo)
Este livro que vos deixo
E que a minha alma ditou
Vos dirá como o Aleixo
Viveu,sentiu e pensou
(António Aleixo)
Read
October 2, 2014Fez-me lembrar a minha avó paterna, que de vez em quando tinha umas saídas em verso mesmo certeiras e nem sequer sabia ler. O Aleixo acerta sempre, com uma ironia ácida, por vezes amargurada, outras bem humorada. Não sabia que tinha escrito autos, adorei o do Ti Jaquim! E tudo o que li é incrivelmente atual. Pena a quantidade de gralhas que encontrei ao longo do texto, creio que merecia uma melhor revisão. Gostei bastante de ver algumas das suas quadras escritas em bancos de jardim da sua terra natal. A reabilitação urbana desenvolvida no centro de Vila Real de Santo António valoriza bastante a cultura e o património da região.
August 9, 2026
Que melhor forma de redescobrir Aleixo do que junto ao mar, abrindo o livro ao acaso e lendo meia dúzia de quadras de cada vez...A obra não impressiona pela erudição mas sim pela lucidez.
O poeta consegue transformar observações do dia a dia em reflexões filosóficas sobre a pobreza, a desigualdade, a condição humana...
O contraste entre a simplicidade da forma (geralmente quadras) e a profundidade do pensamento impressiona.
Com uma forte componente de crítica social, o poeta raramente se alonga. Expõe uma situação e deixa que o leitor tire a conclusão.
A hipocrisia parece ser o grande alvo e recorre inúmeras vezes ao sarcasmo e ao humor para desmascarar a inveja, o oportunismo, a vaidade e a injustiça.
Não deixa de ser curioso que um poeta praticamente analfabeto tenha conseguido escrever com tanta simplicidade sobre temas tão complexos e profundos.
O poeta consegue transformar observações do dia a dia em reflexões filosóficas sobre a pobreza, a desigualdade, a condição humana...
O contraste entre a simplicidade da forma (geralmente quadras) e a profundidade do pensamento impressiona.
Com uma forte componente de crítica social, o poeta raramente se alonga. Expõe uma situação e deixa que o leitor tire a conclusão.
A hipocrisia parece ser o grande alvo e recorre inúmeras vezes ao sarcasmo e ao humor para desmascarar a inveja, o oportunismo, a vaidade e a injustiça.
Não deixa de ser curioso que um poeta praticamente analfabeto tenha conseguido escrever com tanta simplicidade sobre temas tão complexos e profundos.
June 7, 2022
Para alguém quase analfabeto, como é descrito, escreveu quadras simples mas que em nada pecam na mensagem que pretendem passar. Tantos anos depois da sua escrita, continuam a ser uma crítica atual e relevante.
Tenho pena que a segunda peça de teatro tenha ficado incompleta, pois eram das páginas que mais estava a gostar de ler.
Aconselho a todos, mesmo àqueles que normalmente não leem poesia.
Tenho pena que a segunda peça de teatro tenha ficado incompleta, pois eram das páginas que mais estava a gostar de ler.
Aconselho a todos, mesmo àqueles que normalmente não leem poesia.
December 9, 2023
Sou algarvia e descobri António Aleixo através deste livro, que me foi oferecido pela minha avó. Estou fascinada; o senhor era verdadeiramente um génio literário. Grande parte dos autores nacionais conhecidos tendem a ser lisboetas, ou a ter-se fixado em Lisboa, e dá-me um aconchego no peito descobrir um poeta tão sublime com raízes muito próximas das minhas.
Dito isto, como é que António Aleixo não é mais reconhecido?? A poesia dele diz tanto em tão poucas palavras e a história de vida dele é super interessante. Era um pastor-cauteleiro algarvio semi-analfabeto de uma classe social baixa, mas escrevia versos incrivelmente incisivos e filosóficos. Tinha uma filha com tuberculose, para seu grande desgosto, e sustentava a família através dos seus versos e com a ajuda de amigos. A vida do senhor parece pautada por misérias e humilhações, mas, ainda assim, a escrita dele transmite uma força de caráter fora de série. Desconhecia o "Auto da Vida e da Morte", que em tão poucas páginas revela uma capacidade incrível de transpor conceitos abstratos e complexos de forma simples e criativa. O "Auto do Ti Jaquim" arrepiou-me completamente, num final trágico que parece perturbadoramente semelhante ao final do próprio autor.
A única coisa que estranhei de início foi o tom pesadamente moralista, mas consigo compreender que seja em parte o fruto de uma vida de pobreza e miséria aliado à consciência das grandes desigualdades sociais da época (e infelizmente ainda atuais...). Como o próprio António Aleixo diz, "Não sou esperto nem bruto, / Nem bem nem mal educado: / Sou simplesmente o produto / Do meio em que fui criado".
Outros versos dignos de nota e ainda relevantes:
"Não acho maior tortura,
Nem nada mais deprimente,
Que ter de chamar fartura
À fome que a gente sente..."
"A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
— Ganharmos em relação
Com o que se produzisse."
"Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!
A arte é força imanente
Não se ensina, não se aprende,
Não se compra, não se vende,
Nasce e morre com a gente."
"Não vês? Onde um pardal poisa,
Poisam todos os pardais;
Nós somos a mesma coisa:
Onde um vai, vão os demais."
"A cultura recebida
Por nós, de sábios e lentes,
Não é nada mais que a vida
Vista por prismas diferentes..."
Dito isto, como é que António Aleixo não é mais reconhecido?? A poesia dele diz tanto em tão poucas palavras e a história de vida dele é super interessante. Era um pastor-cauteleiro algarvio semi-analfabeto de uma classe social baixa, mas escrevia versos incrivelmente incisivos e filosóficos. Tinha uma filha com tuberculose, para seu grande desgosto, e sustentava a família através dos seus versos e com a ajuda de amigos. A vida do senhor parece pautada por misérias e humilhações, mas, ainda assim, a escrita dele transmite uma força de caráter fora de série. Desconhecia o "Auto da Vida e da Morte", que em tão poucas páginas revela uma capacidade incrível de transpor conceitos abstratos e complexos de forma simples e criativa. O "Auto do Ti Jaquim" arrepiou-me completamente, num final trágico que parece perturbadoramente semelhante ao final do próprio autor.
A única coisa que estranhei de início foi o tom pesadamente moralista, mas consigo compreender que seja em parte o fruto de uma vida de pobreza e miséria aliado à consciência das grandes desigualdades sociais da época (e infelizmente ainda atuais...). Como o próprio António Aleixo diz, "Não sou esperto nem bruto, / Nem bem nem mal educado: / Sou simplesmente o produto / Do meio em que fui criado".
Outros versos dignos de nota e ainda relevantes:
"Não acho maior tortura,
Nem nada mais deprimente,
Que ter de chamar fartura
À fome que a gente sente..."
"A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
— Ganharmos em relação
Com o que se produzisse."
"Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!
A arte é força imanente
Não se ensina, não se aprende,
Não se compra, não se vende,
Nasce e morre com a gente."
"Não vês? Onde um pardal poisa,
Poisam todos os pardais;
Nós somos a mesma coisa:
Onde um vai, vão os demais."
"A cultura recebida
Por nós, de sábios e lentes,
Não é nada mais que a vida
Vista por prismas diferentes..."
December 14, 2022
O auto da vida e da morte está espetacular.
É um livro que através de rimas simples nos leva a sentir o romance que a vida antigamente seria.
Decerto que irei ler o livro 2, fiquei fã de António Aleixo.
É um livro que através de rimas simples nos leva a sentir o romance que a vida antigamente seria.
Decerto que irei ler o livro 2, fiquei fã de António Aleixo.
April 13, 2018
MONUMENTAL
November 26, 2019
Foi uma surpresa ver que também escreveu alguns autos.
July 17, 2021
A simplicidade das suas quadras em nada tira valor à mensagem que passam e quase que dá para ouvir o autor a declamá-las à nossa frente. Gostei muito dos Autos!
September 4, 2022
“Este Livro Que Vos Deixo...” é uma obra póstuma de poesia popular do algarvio António Aleixo, coligida e publicada originalmente em 1969 com prefácio e organização de Joaquim de Magalhães.
Sinopse
O livro reúne grande parte da produção poética, quadras, sextilhas e pequenos esboços teatrais (como o Auto do Ti Jaquim) de António Aleixo (1899–1949), um poeta popular e cauteleiro que vivia no Algarve. A obra compila os versos improvisados nas ruas, feiras, cafés e convívios, refletindo a sabedoria empírica, a ironia fina, as amarguras da pobreza, a crítica aos poderosos e uma profunda reflexão filosófica sobre a condição humana.
Contexto Histórico
• Publicação Póstuma (Final dos Anos 60): O livro foi lançado em 1969, durante o período do regime do Estado Novo (o marcelismo).
• Válvula de Escape Social: As edições esgotaram-se rapidamente porque as quadras de Aleixo exprimiam, de forma simples e lapidar, os anseios de justiça, a contestação velada à opressão e o mal-estar de uma sociedade fortemente policiada.
• A voz do Povo: A obra resgatou a figura do poeta analfabeto (ou semianalfabeto) que transformava a marginalidade e a dureza da vida rural algarvia numa tribuna de verdade universal.
Resenha Crítica
A força de « Este Livro Que Vos Deixo... » reside na aparente simplicidade formal que esconde um pensamento demolidor. António Aleixo não recorria a artifícios cultos; a sua métrica era a redondilha maior, direta e cortante. A crítica da época reconheceu no livro um documento sociológico e estético de primeiríssima grandeza.
O mérito da recolha foi o de fixar no papel a efemeridade do improviso oral. Ler Aleixo é confrontar-se com uma lucidez desarmante sobre a hipocrisia, a vaidade e a desigualdade. A obra ultrapassa o mero pitoresco regional para se fixar no cânone da poesia gnomónica e sentenciosa portuguesa.
Exemplos de Quadras Célebres
• Sobre a maldade humana e a hipocrisia:
«Antigamente os ladrões
Roubavam pedindo a bênção
Hoje roubam com papéis
E com letras de tostão!»
• Sobre a falsidade das aparências:
«A rir ninguém a conhece:
Põe as maçãs salientes,
Fecha os olhos, mostra os dentes,
E o coração esmorece.»
• Sobre a injustiça social:
«Não calques quem vai no chão,
Nem queiras lhe dar o empurrão,
Lê bem esta quadra minha:
Quem te diz que o mal não vinha
Ainda ao teu coração?»
Sinopse
O livro reúne grande parte da produção poética, quadras, sextilhas e pequenos esboços teatrais (como o Auto do Ti Jaquim) de António Aleixo (1899–1949), um poeta popular e cauteleiro que vivia no Algarve. A obra compila os versos improvisados nas ruas, feiras, cafés e convívios, refletindo a sabedoria empírica, a ironia fina, as amarguras da pobreza, a crítica aos poderosos e uma profunda reflexão filosófica sobre a condição humana.
Contexto Histórico
• Publicação Póstuma (Final dos Anos 60): O livro foi lançado em 1969, durante o período do regime do Estado Novo (o marcelismo).
• Válvula de Escape Social: As edições esgotaram-se rapidamente porque as quadras de Aleixo exprimiam, de forma simples e lapidar, os anseios de justiça, a contestação velada à opressão e o mal-estar de uma sociedade fortemente policiada.
• A voz do Povo: A obra resgatou a figura do poeta analfabeto (ou semianalfabeto) que transformava a marginalidade e a dureza da vida rural algarvia numa tribuna de verdade universal.
Resenha Crítica
A força de « Este Livro Que Vos Deixo... » reside na aparente simplicidade formal que esconde um pensamento demolidor. António Aleixo não recorria a artifícios cultos; a sua métrica era a redondilha maior, direta e cortante. A crítica da época reconheceu no livro um documento sociológico e estético de primeiríssima grandeza.
O mérito da recolha foi o de fixar no papel a efemeridade do improviso oral. Ler Aleixo é confrontar-se com uma lucidez desarmante sobre a hipocrisia, a vaidade e a desigualdade. A obra ultrapassa o mero pitoresco regional para se fixar no cânone da poesia gnomónica e sentenciosa portuguesa.
Exemplos de Quadras Célebres
• Sobre a maldade humana e a hipocrisia:
«Antigamente os ladrões
Roubavam pedindo a bênção
Hoje roubam com papéis
E com letras de tostão!»
• Sobre a falsidade das aparências:
«A rir ninguém a conhece:
Põe as maçãs salientes,
Fecha os olhos, mostra os dentes,
E o coração esmorece.»
• Sobre a injustiça social:
«Não calques quem vai no chão,
Nem queiras lhe dar o empurrão,
Lê bem esta quadra minha:
Quem te diz que o mal não vinha
Ainda ao teu coração?»
January 7, 2021
Um livro de poesia simples e excelente. A sua beleza provém da facilidade de uma simples pessoa, pobre, com escasso conhecimento literário, ou seja, à partida, todo um ambiente onde é imprevisível a sua ascensão nesta área, no entanto com uma espontaneidade e facilidade tremenda em expressar tudo o que vê e sente, sempre com um toque especial.
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