Em "A índole dos cactos", o leitor encontrará um conjunto de mais de 60 crônicas que transitam no vasto espaço da memória, com atenção especial à infância, seus assombros e descobertas; ao ofício da escrita e o universo da literatura, ao cotidiano das cidades e dos nossos tempos. Permeia os textos o olhar perspicaz de Tiago Germano, cronista premiado, finalista do Jabuti e do Oceanos, com um estilo marcado pelo lirismo, o humor e a concisão.
Tiago Germano é autor da coletânea de contos "Catálogo de Pequenas Espécies" (Caos e Letras, 2021) e do volume de crônicas "Demônios Domésticos" (Le Chien, 2017), indicado ao Jabuti e vencedor do Prêmio Minuano de Literatura. No romance, publicou "A Mulher Faminta" (Moinhos, 2018) e "O que pesa no Norte" (Moinhos, 20220. É jornalista com mestrado e doutorado em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Em 2020, foi bolsista do Programa de Internacionalização (PRINT) da CAPES na School of Literature, Drama and Creative Writing da University of East Anglia (UEA), em Norwich (Inglaterra), por onde passaram escritores como o Man Booker Prize Ian McEwan e o Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro. Nasceu em Picuí (PB) e mora atualmente em João Pessoa, onde é cofundador da escola de escrita Edícula Literária.
Tiago Germano é outro escritor que não se tornou cronista por circunstância, mas por vocação mesmo. É cultor da crônica e pratica o gênero há coisa de 20 anos, e essa proximidade garante aos seus textos uma consistência e uma versatilidade que nem sempre se encontram nos livros de crônicas. Seu mais recente, “A índole dos cactos” (Caos & Letras, 2024), é representativo da sua habilidade no gênero.
De início, Tiago recorre a um expediente que vem muito a calhar com a crônica, isto é, o de reelaborar memórias infantis. Mais do que contar uma história do passado, o cronista recorre a episódios do seu tempo de criança para compreender melhor alguma coisa que ainda ressoa na sua vida presente. Somos o resultado do que vivemos em nossos anos iniciais, e a crônica pode ajudar a conciliar nossa história.
Nesse seu livro, Tiago resgata episódios da sua época da criação, fala dos afetos de irmãos, tios e notadamente da mãe (é da relação dela com os cactos que sai o título do livro), além de evocar os tipos curiosos que toda cidade tem e que costumam ser ainda mais marcantes quando somos pequenos. Talvez “A bengala colorida”, em sua sensibilidade, seja um dos melhores exemplos dessa parte do livro.
Outra parte é dedicada à escrita e às leituras, quando cronista presta tributo aos escritores de que gosta. Além disso, Tiago se dispõe a comentar produtos culturais como as novelas e os programas de televisão, assim como acompanha o noticiário e o associa a aspectos da literatura. O cronista assim dialoga com o seu tempo, ao menos tempo em que oferece contribuições com base em seu repertório cultural.
Como não poderia deixar de ser, seu livro de crônicas também conta com diversos relatos cotidianos, como um assalto, uma ida ao dentista, um encontro com um panfleteiro ou um suicida. Seu estilo de escrita tem o ritmo veloz característico da crônica, enquanto o conteúdo e a abordagem envolvem naturalmente o leitor. São um destaque também as crônicas sensíveis com fatos de interesse humano.
Se o ritmo é veloz, por vezes ele chega a certo fluxo de consciência. Tiago promove alguns exercícios estéticos e líricos, espécie de prosa poética. Às vezes, chega a resultados existencialistas, como em “A bala de hortelã”. Eventualmente, é capaz de fazer a crônica de um parágrafo só, possível agora que o gênero não depende mais do jornal. E, em tudo, nota-se uma grande liberdade e autonomia estética.
O cronista também sabe rir de si mesmo, habilidade fundamental para o gênero (e provavelmente umas das receitas do seu sucesso, pois o leitor é mais propenso a simpatizar com alguém que não se leva tão a sério). Tiago assume alguns dos seus “defeitos”, como ser onicófago e assimétrico, e com base neles cria “filosofias” do cotidiano, que, por brejeiras que sejam, conseguem a identificação do leitor.
A exemplo de outros cronistas contemporâneos, como Nathallia Protazio, sente-se que Tiago exerce plenamente a sua “cronicidade”, o que garantiu um livro muito bem engendrado que, inexplicavelmente, também foi esquecido pelo Jabuti 2025.