No mercado digital da nova direita brasileira, um dos infoprodutos de maior rotatividade é a vida intelectual. Talvez jamais se tenha visto tanta gente desprovida de realizações intelectuais ensinar como se alcança alguma realização intelectual. Na verdade, “realização intelectual” — isto é, obra, isto é: ensaio, poema, pintura, composição musical, filme — passa ao largo da discussão. Isso é lá coisa de “escritor”, de “artista”, de cabeludo que fala de Godard. Aqui estamos discutindo Sto. Tomás e o que os grandes livros podem ensinar! Incensar a vida de estudos, na mesma medida em que se é incapaz de fazer sequer uma observação original, oportuna, sobre um poema ou filme, mostra bem a natureza de fetiche que a vida intelectual assumiu nesse meio. O que deveria ser o exercício acidentado e divertido de uma vocação se tornou matéria de receituário, de lista tacanha de leituras, de clube do livro do Bem, de aquisição de trejeitos que identifiquem essa espécie de novo rico da cultura. Na tentativa de descrever o fenômeno, cerquei-o por uns tantos lados, como quem à cata de uma galinha ora aparteia sua fuga por este flanco, ora por aquele, não saindo da refrega no galinheiro sem uns tantos arranhões e umas réstias de cocô nas mãos. Para isso fui cunhando termos, uns mais previsíveis (“vida intelectual como fetiche”), outros um pouco menos (“teologia da prosperidade intelectual”, “neopentecostalismo intelectual”, “didatismo kitsch”), à maneira de saltos desajeitados sobre a arredia ave, que permaneceu brava, mas se deixou tocar pelo menos por algumas de suas penas.
Eis aqui um livro "ácido". E justamente por isso: necessário. Classifico-o com 5 estrelas porque Ronald Robson trata de um tema que praticamente ninguém fala, e de modo certeiro. E quando outras pessoas falam, é só como "técnica de copywriting", para "vender mais curso". O tema é justamente a lastimável situação a qual chegou o que é chamada de "vida intelectual" no Brasil: apenas "fetiche". Nos termos cunhados pelo próprio autor: "neopentecostalismo intelectual", "teologia da prosporidade intelectual".
O livro é um conjunto de ensaios: tratam-se de reflexões pessoais, não de "artigos acadêmicos". Os ensaios iniciais têm um teor mais combativo contra a falsa intelectualidade que se utiliza da tal "vida intelectual" apenas para vender cursos online. Ronald critica severamente o mercado "de formações online da direita, que não formam ninguém" e que muitas vezes deformam as pessoas. E analisa que muitos produtos ruins que são vendidos por figuras como Ítalo Marsili, Melk, Ícaro de Carvalho, Guilherme Freire - e tantos outros do mesmo tipo - pegaram termos e ensinamentos do prof. Olavo de Carvalho e os aplicaram de maneira indevida, perdendo a real noção do que verdadeiramente significa a "formação do imaginário" e qual a real finalidade da cultura e da filosofia.
Por outro lado, o autor elogia e recomenda as plataformas de formação online de Olavo de Carvalho (Seminário de Filosofia), do Poeta João Filho, do Rafael Falcón; bem como recomenda os professores Newton da Costa e Julio Cabrera, quando se trata de aprender a filosofar - cujo primeiro passo é observar atentamente verdadeiros filósofos em seu ofício.
Repito: classifico-o com 5 estrelas porque Ronald Robson aborda um tema espinhoso de forma magistral e necessária. Entreanto, captei uma certa contradição entre o capítulo "Abaixo o neopentencotalismo intelectual" e "O visto e o tocado"; já que no primeiro há um certo "desdém" da obra Como Ler Livros, de Alder... diz o autor: "Devolvi o título de Adler à prateleira da livraria e esqueci que existia. Até que vieram desgraçadamente me lembrar de sua existência. [...] o problema da pessoa que quer aprender a 'iniciar a vida intelectual' é que ela jamais lerá 'O adolescente', de Dostoiévski, antes de ter se 'preparado' para tal, pois acredita que antes de ler é preciso ter lido 'Como ler livros'."
Bom, eu compreendo o motivo pelo qual Ronald diz isso. Afinal, 'deixar de ler porque ainda não leu o Como ler livros' nunca é a melhor opção. Mas também partir para o outro extremo e ler sem fazer sequer questão de ler o Como Ler Livros... aí é um outro problema, porque Adler não apresenta técnicas taxativas, mas sim exemplificativas: Adler fornece um "arsenal" de técnicas, e cada leitor se servirá das que mais se adaptarem a cada um, não é necessário seguir Adler à risca em absolutamente todos os tópicos (nem sei se isso é plenamente possível). [e não apenas isso, como também cada leitor, ao dispor de tal arsenal, poderá criar as suas próprias técnicas personalizadas]
Pois bem: a contradição existente entre o capítulo "Abaixo o neopentencotalismo intelectual" e o "O visto e o tocado" é que neste, quando Ronald descreve o método pedagógico do Mestre Pedro Augusto, em sua sistematização do método da arte marcial Zen Chuan Dô, o autor afirma: "Mestre Pedro inisistia na necessidade de estabelecimento de formas fixas em artes marciais para que, quando mais adiantado em seu aprendizado, o aluno pudesse se livrar delas, na medida em que as dominasse. [...] o objetivo da fixação das formas não é prender-se a elas, é livrar-se delas; aquele que domina uma grande variedade de formas e de situações paradigmáticas de combate está preparado para transitar, com menor perigo, por outras formas e situações análogas". Bom, acredito que esse mesmíssimo trecho se aplica também às regras de leitura, dadas as devidas proporções e observando-se as diferenças metodológicas de cada área, evidentemente.
No mais, o livro é essencial. Uma sequência de "tapas na cara" a cada capítulo, a cada página. Leia-o. E deixe de "estudar" com figuras caricatas que fazem da "vida intelectual" um fetiche. Vá estudar com o prof. Olavo de Carvalho, no Curso Online de Filosofia, com Rafael Falcón, com o Poeta João Filho, com Newton da Costa, com Mortimer Adler, com Sertillanges, com Julio Cabrera e, é claro, com o próprio Ronald Robson.