Retorno de Natalia Borges Polesso aos contos, gênero que a consagrou no meio literário com Amora, Condições ideais de navegação para iniciantes investiga, com destreza e sensibilidade, indivíduos que buscam viver para além das próprias particularidades.
As narrativas curtas de Condições ideais de navegação para iniciantes exploram personagens que estão descobrindo como existir em um mundo intrigante, mas muitas vezes hostil. Tratando das experiências formadoras de um indivíduo na infância, o cotidiano de pessoas neurodivergentes ou das vivências LGBTQIAPN+ no Brasil contemporâneo, Natalia Borges Polesso tensiona os limites da linguagem para construir tramas que ressoam aos leitores mais fiéis de sua obra, ao mesmo tempo que se arrisca por novos territórios. No conto "Uma boa pessoa", por exemplo, diante dos vários lapsos da namorada, a personagem Marcela enfrenta a própria imagem de "pessoa boa demais", definida a ponto de fazê-la ser vista como alguém que não precisa ter seus desejos e limites respeitados. Para isso, ela encara a necessidade de aprender a dizer não e de se impor, mesmo que isso signifique afastar pessoas que sempre estiveram presentes em sua vida. Jáao longo de "Eu não sei o que é o this do que os sweet dreams são feitos", a autora usa a linguagem neutra para compor uma personagem não-binária em uma delicada investigação sobre sonhos e desejos. Em "A Velha Asna e as lésnicas de motocicleta", Polesso desconstrói clichês ao explorar a relação entre um grupo de mulheres motociclistas, que demarcaram seu domínio em sua cidade e se aceitam na forma que escolheram viver. O elemento unificador dos textos é a fugidia água — seja em uma geleira, no mar, na tempestade ou até mesmo no chuveiro, criando pequenos universos que envolvem o leitor na prosa única de umas das vozes mais surpreendentes da sua geração.
"A força desbravadora das histórias — e da linguagem — de Natalia Borges Polesso nos desloca para um encontro com a turbidez e a revolução, a vastidão e o átomo das intimidades e relações, das perguntas despropositadamente essenciais, da felicidade e perigos de sentir." — Stênio Gardel, autor de A palavra que resta
Natalia Borges Polesso nasceu em Bento Gonçalves, em 1981. É pesquisadora, escritora e tradutora. Publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013), Coração à corda (2015), Amora (2015), vencedor do Prêmio Jabuti, Pé atrás (2018) e Controle (2019). Em 2017, a autora foi selecionada para a lista Bogotá39. Atualmente, é pesquisadora do Programa Nacional Pós-Doutorado, na Universidade de Caxias do Sul. Natalia tem seu trabalho traduzido para diversos países.
ok é claro que esses contos lindões com um leve sotaque gaúcho e histórias de mudança tristeza e ironias no mundinho lgbtqiapn+ usando a água e o mar como fios condutores pra mergulhar nas personagens percebendo a surpresa da inaptidão ao lado da alegria de tentar uma nova braçada iam me pegar muito e pegaram mesmo
sempre quis ler algo da natalia borges polesso e sinto que comecei com o pé direito. o que mais me impressionou—e me fez devorar essa coletânea como nenhuma outra—foi a variedade de formas narrativas e temas que a autora trouxe. além do mais, cada história apresenta um protagonista lgbtqiap+, o que também contribuiu para que eu continuasse empolgado em descobrir o que mais viria pela frente. a cada conto, uma nova surpresa. senti como se estivesse num buffet literário.
para mim, a melhor parte da experiência foi ir sem saber muito sobre o que se tratava cada conto. e, apesar de ter gostado muito da coletânea como um todo, posso compartilhar meu top 5!
meus contos favoritos (ordem em que aparecem no livro): ‘a descoberta dos metais’, ‘tatuilha’, ‘condições ideias de navegação para iniciantes’, ‘temporal’ e ‘a velha asna e as lésnicas de motocicleta’.
Natália Borges Polesso vem sendo apontada, desde seu ótimo e muito premiado livro de contos Amora (2015), como uma das grandes vozes da literatura a tratar de amor LGBT-reticências-etc no Brasil contemporâneo, e esse aspecto de sua obra está, sim, presente, não é uma leitura equivocada. Talvez seja apenas fácil e redutiva. A mim soa mais interessante pensar a literatura de Natália pelo ponto de vista de uma obra intensamente questionadora da depressão paralisante e da possibilidade de desistência. Pressões familiares também poderiam entrar na receita, mas esse é o tipo de elemento inescapável em narrativas sobre personagens LGBT, então não creio que aponta-lo seria tão específico ou diferente da leitura mais comum que mencionei antes.
Cheguei a esse entendimento ao finalizar a leitura de Condições ideais de navegação para iniciantes, seu livro de contos mais recente, e encontrar ali não apenas a recorrência do tema do amor não normativo, mas ecos de outras coisas que já se manifestavam tanto nos próprios contos de Amora quanto nas narrativas longas Controle (2019) e A extinção das abelhas (2021) – vou concentrar a comparação nestas últimas, por serem tramas mais longas e abrangentes.
Controle narra como a vida da jovem Maria Fernanda se interrompe por 20 anos após um acidente grave de bicicleta sofrido aos 14 anos. O acidente leva a um diagnóstico de epilepsia, e a descoberta da doença deixa a vida de Nanda, como é mais comumente chamada, em suspenso. Ela anula qualquer vida social e se mantém reclusa na casa dos pais, na mesma cidade do interior onde nasceu, com medo das crises constantes. O drama da personagem, conduzido com uma prosa que constrói o drama todo na rica subjetividade da personagem, aborda as angústias e os ressentimentos dessa estagnação por medo da falta de “controle” que a acomete, enquanto amigos e colegas vão se afastando para seguir a vida como planejado. Só depois de anos ela decide tomar uma atitude para romper a bolha segura e opressiva em que vive.
A extinção das abelhas é uma narrativa distópica de estrutura tripartite. E a primeira parte dessa história enfoca basicamente os dilemas da vida de Regina, mulher de 40 vivendo em um Brasil no futuro próximo em que o presidente é o Luciano Huck e o colapso ambiental se tornou incontrolável a ponto de o Brasil decidir simplesmente desistir de manter em seu território a região Sul, paraíso dos agrotóxicos, tornada desértica pelos abusos impostos à terra. Regina é uma mulher melancólica, solitária e marcada por um abandono na infância: sua mãe, Guadalupe, desistiu da vida previsível de mãe classe média e pôs o pé na estrada com um grupo de artistas de circo – deixando a filha para trás. A narrativa também acompanha as aventuras de Guadalupe e seus impulsos cheios de vida – entre outras coisas, ela veste uma fantasia de macaco e se torna Monga, a mulher gorila em um número apresentado pela trupe. A história de Guadalupe é o oposto da situação da filha, outra mulher paralisada na própria vida, com trabalhos instáveis, mal pagos, sem nunca ter saído do Brasil e com um curso de pós-graduação interrompido pelo relacionamento traumático que Regina engatou com sua orientadora, uma mulher mais velha com ares manipuladores.
Em comum nesses dois livros estão as angústias desesperadas de suas protagonistas, presas em uma armadilha de imobilidade sem forças para romper com o que não pode ser nem chamado de ciclo, mas de simples estagnação. E a apatia e a desistência com que encaram os desafios da própria vida – por períodos longos, mesmo que às vezes temporários. Essa sensação retorna em alguns dos melhores contos de Condições ideais… O primeiro, por exemplo, A descoberta dos metais, uma aula de condução narrativa, enfoca uma adolescente deixada pelos pais aos cuidados dos avós idosos em uma comunidade eminentemente rural do interior. A explosão de dúvidas típicas da idade e a sensação de haver sido abandonada é processada pela garota por meio da curiosidade por superstições locais e por uma violência fora do comum, a ponto de ela haver ganhado no colégio o apelido de “onça”, pela ferocidade com que entra em brigas mesmo com os guris que se metem a bulidores de colégio. Uma encruzilhada na narrativa provocada pelo comportamento agressivo da menina só vai oferecer alguma saída por meio do amor, o que falando assim parece brega, mas não é como a narrativa é conduzida.
A vida é uma equação diferencial ordinária, outro conto do livro, também é narrado pelo ponto de vista de uma jovem no limite do que se poderia chamar de burnout. Cansada do trabalho, intimidada pelas exigências do curso de graduação em Física, com problemas de relacionamento com os colegas de apartamento, culpada pela pouca atenção dedicada à família. Quando a morte da avó a leva a voltar para a casa da mãe para ajudar com as questões práticas, a personagem parece usar o episódio como pretexto para deixar os problemas se acumularem até o ponto de não retorno, até não haver outra saída senão deixar pra lá.
Mesmo personagens cuja autonomia é comprovada na narrativa, como a personagem-título de A velha Asna e as lésbicas de motocicleta, parecem por vezes perseguidas pela impressão de haver contraído uma mácula. Asna começa a vida trabalhando como cobradora para um contador corrupto, e a revelação sobre suas atividades escusas leva ao rompimento com o único amor de sua vida, Jasona. Ela passará anos depois disso tentando “limpar seu carma” das atividades a que havia se dedicado.
Muitas vezes essa sensação persistente de derrota e cansaço é expressa como parte de uma hiperestrutura problemática. Em Daphne, ou o primeiro não, uma mãe é acossada pelo medo do que o mundo reserva a sua filha, Daphne, a quem a mãe batizou com a inspiração da personagem grega que, perseguida por um Deus lascivo por recusar seus avanços, foi salva por seu pai não com a punição do agressor, mas com uma transmutação em árvore. A árvore do louro, o prêmio olímpico por excelência. Há ainda uma referência anterior que a mãe mantém em segredo: uma amiga do passado. “Naquele momento, nenhuma delas seria salva por um pai ou um deus”.
No conjunto, 11 histórias com uma prosa segura – mais longas do que os contos de Amora, o que às vezes acrescenta solidez, noutras parece provocar dispersão. Confesso que meu senso de ordem meio maniático também ficou intrigado com o número de narrativas reunidas no volume. Exatamente 11. Por que não 10? Por que não 12? Não sei. Talvez a desestabilização do número ímpar fosse também parte do que a autora queria apresentar no livro. Talvez não.
A coisa mais profundamente contemporânea que você lerá. Maior virtude desse livro foi ter me proporcionado uma vontade absurda de escrever e escrever e escrever
navegando nas águas do sentimento humano somos levados para todos os cantos, mergulhamos nos mais profundos e botamos tranquilamente no que também é raso. é no teimar em navegar mundos que a gente percebe que a melhor condição de navegação é justamente a que nem percebemos escolher, porque é natural.
Ótima leitura, como tudo da autora! Há contos lindíssimos e emocionantes, como "Tatuilha" e "Condições ideais de navegação para iniciantes" (que foram meus favoritos), e contos mais prosaicos e divertidos. Bonito como a imagem do mar aparece em todos os contos, dando uma unidade ao livro, mas em cada um tem uma presença singular.
Natalia Borges Polesso é minha escritora preferida atualmente. Isso que li pouco dela, o que é bom, pois tenho muito para ler ainda. Li dois contos seus, o que fez parte da coletânea "O dia escuro", achei o melhor do livro, e um que escutei em um podcast que, acho, era de "Amora", virei fã. "Condições ideais de navegação para iniciantes" foi o primeiro livro dela que li inteiro e me confirmou que, atualmente, ela é minha escritora preferida.
Não achei nenhum conto ruim. Teve aqueles com uma linguagem mais sofisticada, uma forma mais ousada, que não entendi muito bem, sou um leitor um tanto simplório, mas são leituras agradáveis. Imagino que possam arrebatar outros leitores, mas não me marcaram. Vou falar dos que mais gostei.
"A descoberta dos metais" tem um momento no conto que um escritor comum, como eu mesmo por exemplo, encerraria o conto para terminar com um clímax impactante. Mas a Natalia continua a história, descarta o impacto do momento e constrói algo muito mais literariamente rico. Acho que aprendi muito sobre literatura nesse conto.
"A vida é uma equação diferencial ordinária" é uma linda experiência de acompanhar a conversa de pessoas que te deixa com vontade de conhecê-las melhor. Entender melhor pelo que estão passando e como veem a vida. E tem a proeza de me fazer gostar de uma personagem adolescente, geralmente crianças e adolescentes na literatura não me interessam (incluso a do conto que citei acima). Mas Sofia é ótima.
"Uma boa pessoa" é o conto que mais gostei do livro acho. Marcela é a personagem que mais gostei do livro com certeza. Acho que esse conto demonstra bem algo que gostaria de ver mais no mundo, não só na literatura, que é mostrar e encarar as dificuldades na vida e os defeitos nas pessoas sem cinismo, sem sarcasmo, sem superioridade, com compaixão, com atenção, com generosidade.
"A Velha Asna e as lésnicas de motocicleta" completa o trio de personagens que eu gostaria de roubar para fazer uma fanfic, que talvez faça mesmo. Sofia, Marcela e A Asna juntas para alguma aventura de ficção científica ou fantasia, é o que quero escrever.
"Cratera" é o conto de estrutura menos convencional que mais gostei. Conseguia sentir o que estava acontecendo, mesmo nas partes que não entendia.
"As gêmeas lentas" me surpreendeu pelo companheirismo em um conto que achei que iria mais pelo cômico. É tocante e belo em um tema que se costuma ir pelo impactante e intenso. Outro conto que olha para a compaixão do mundo, afastando a neblina do cinismo que constantemente nos cerca nascida das redes sociais.
Agora vou buscar ler "Amora", o livro mais famoso da Natalia, mas antes devo ainda ler sua narrativas mais longas "Foi um péssimo dia", que já tenho em casa e "A extinção das abelhas". Sei que tenho ótimos momentos de leitura pela frente. 2026 será um ano bom.
O livro tem um ótimo tema. É bonito. Poético. O fato de todas as histórias se enroscarem, de uma maneira ou de outra, no tema "ondas" é bem interessante. Pra mim, o ponto alto foi a sacada das ondas cerebrais no conto sobre sonhos.
Só que o livro também é um pouco maçante. Muitos momentos de divagação infinita que me deram a impressão de estar "conversando" com uma pessoa que só fala de si mesma. Que não te pergunta absolutamente nada e junta uma coisa na outra meio sem pausa pra não dar tempo de você interromper pra dizer que vai ao banheiro e já volta e não voltar nunca mais porque a pessoa é muito chata meu deus do céu.
sou cadelinha demais de Natalia Borges Polesso lembro quando eu ainda tinha 18 aninhos e li Amora e quanto me tocou profundamente hoje, com um olhar talvez mais maduro, lendo histórias LGBTQIA+ com expressões gaúchas presentes e o litoral, a água, o mar como personagens, me apaixonei novamente gostei muito de "Uma boa pessoa", "A Velha Asna e as lésnicas de motocicleta", e "Tatuilha" - eu tinha nojo de tatuíras quando era criança porque faziam cosquinha no meu pé kkkkk as memórias que esse livro despertou também me fizeram ficar mais quentinha <3
Natalia entrega neste livro diversos contos com personagens LGBTQIAPN+ da forma mais sublime e encantadora. Os contos variam de bons, muito bons e maravilhosos. Não havia gostado de seu livro “A extinção das abelhas”, mas, após ler “Condições Ideais de navegação para iniciantes”, fiz as pazes com a escrita e narrativa da autora.
Eu ganhei esse livro de presente e fiquei super animada para ler quando vi a contracapa e os comentários de autores que eu gosto sobre ele, mas confesso que estou com sentimentos confusos em relação à leitura.
Achei alguns contos até legais: Cratera (meu favorito), Uma boa pessoa, Condições ideais de navegação para iniciantes e Daphne e o primeiro não. Só que os outros foram quase intragáveis para mim. Senti um desconforto enorme com algumas escolhas estilísticas, linguísticas e narrativas. E não estou falando sobre pronomes neutros e tal — o problema foi maior para mim.
Acho que não é o tipo de livro que eu leria por livre e espontânea vontade, mas, como foi um presente, quis me dedicar a ele. Óbvio que minha opinião é apenas minha e reflete somente as minhas preferências literárias; de modo algum essa visão pretende diminuir a Natália como escritora ou como voz importante no cenário artístico não heteronormativo.
A questão, para mim, é que a obra é contemporânea demais, e percebi agora o quanto isso me incomoda. Me sentia lendo uma fanfic ou algo assim. Não gosto de ler nomes de aplicativos em livros, não gosto quando tudo é tão cru e literal. Me incomodaram até os nomes de alguns personagens. Também entendo que talvez parte da intenção da Natália nesse livro fosse, de certa forma, pedagógica, sobre a visibilidade da comunidade LGBTQIAPN+. Mas, por vezes, alguns diálogos didáticos demais soavam extremamente artificiais, quase como uma esquete educativa.
Não sei dizer, mas eu esperava mais. Inclusive deve ser por isso que o conto de que mais gostei foi justamente o mais “místico” e menos óbvio de todos.
No fim, foi uma boa pedida para experimentar e sair da zona de conforto, mas não sei se leria outro livro dela novamente.