Hacking College, de Ned S. Laff e Scott Carlson é um livro de muitos méritos mas também com alguns defeitos. Seu maior mérito, e isso não é pouco, é mostrar que todos os cursos de graduação em todas as instituições de ensino superior podem conduzir o aluno para um futuro de sucesso no
mercado de trabalho. Infelizmente diversos cursos sofrem com o estigma de formarem profissionais em áreas onde "não tem emprego". Pais, professores de ensino médio, consultores, diversas são as pessoas que buscam orientar os jovens para não fazerem esses cursos, mesmo
que isso signifique abrir mão de um sonho. E infelizmente existe aqui uma profecia auto-realizável: cursos ganham essa estigma, alunos acreditam nela e passam a crer que não é viável viver daquela
profissão. Recentemente uma reportagem na televisão mostrava um pequeno grupo de teatro de rua. O diretor e ator explicou para a repórter que tinha outra profissão, para pagar as contas, mas o teatro era para a alma. Obviamente que viver do teatro não é fácil, e não por culpa daqueles que trabalham no ramo, mas talvez Hacking College possa mostrar que existem caminhos que devem ser tentados. Que unir o sonho e o mercado de trabalho pode ser viável - embora não seja fácil.
Outro mérito do livro de Laff e Carlson é mostrar que os alunos precisam (devem) entender como os sistemas burocráticos de suas instituições de ensino superior operam. Saber as regras, as exceções, os caminhos burocráticos corretos, o modo de agir. Instituições de ensino são máquinas complexas, com estruturas estabelecidas e muitas vezes pouco abertas para mudanças ou flexibilizações. Conhecer os caminhos ajuda muito, como fica claro ao longo das 200 páginas deste livro.
Entendido os méritos, vamos para os problemas. Primeiro, o título. Uma rápida busca no dicionário Oxford Languages para o significado da palavra "hacking" retorna: "the gaining of unauthorized access to data in a system or computer". Mesmo aceitando que não se trata apenas
dados ou computadores, o fato é que "hacking" acaba muito associado a algo não autorizado, algo burlando o sistema. E não, não é essa a ideia do livro. Em momento algum o livro busca burlar regras, achar caminhos não autorizados. O livro defende, isso sim, que os alunos conheçam as regras e saibam atuar conforme elas. Isso, para mim, não é "hacking".
Outro ponto problemático dessa obra é que ela tenta se colocar como ampla e geral, mas esquece (voluntariamente ou não) de comentar sobre alunos que sonham com cursos tradicionalmente associados como de sucesso no mercado de trabalho. Por que não falar sobre aluno que sempre sonharam fazer engenharia, passaram para esse curso e depois seguem uma carreira brilhante neste
campo? Em alguns momentos os autores parecem induzir que só existe felicidade e real vocação nos cursos não associados ao mercado de trabalho. Seria possível alguém sonhar e ser feliz em um curso de economia? De engenharia? Sim, seria! Mas infelizmente os autores parecem não perceber isso.
Finalmente, ao longo do livro também fica claro que os autores apresentam somente casos onde sua metodologia teve sucesso. E fazem questão de mostrar um caso onde a visão defendida em outro livro deu, segundo Ned e Scott, errado! Quando estamos falando de academia devemos lembrar que teorias existem para serem testadas e questionadas. Apresentar apenas casos de sucesso não mostra como a teoria é boa, apenas cria a sensação de que os autores preferem não contar os problemas
e os defeitos. Confiaria mais se sucessos e fracassos estivessem presentes, como é a vida normal no meio universitário. É apenas na parte final do livro que os autores aceitam que não estão apresentando uma solução fechada e milagrosa, mas aí, para mim, já era tarde.