Ler Bambino a Roma é como acompanhar alguém que se lança na aventura de visitar a própria memória e descobre que ela não é uma narrativa linear, mas um terreno esburacado, cheio de fragmentos, lapsos e imagens que emergem com mais força do que qualquer enredo organizado. Chico Buarque escolhe encenar o menino que foi. O resultado é uma colagem de lembranças que não obedecem à lógica da progressão, mas sim à espontaneidade do que se lembra e do que se esquece. Há uma cadência quase de improviso, como se o autor fosse anotando as memórias no mesmo ritmo em que surgem, sem se preocupar em amarrá-las num todo acabado.
Esse jogo entre o menino e o homem, entre a pequenez de quem chega a Roma cheio de espantos e a grandiosidade da cidade milenar que o envolve, cria uma tensão que percorre o livro. O narrador parece sempre menor que a cidade, que o tempo, que a própria literatura. Roma se impõe como cenário grandioso demais para um estudante estrangeiro; suas ruínas, igrejas e ruas carregadas de história esmagam a figura do “bambino” que tenta encontrar um lugar entre elas. Ao mesmo tempo, essa grandiosidade serve de contraste para a pequenez íntima de suas descobertas pessoais: os amigos, os encontros amorosos, os tropeços linguísticos, a vida de um brasileiro num espaço tão distante.
Ainda assim, Bambino a Roma não oferece personagens memoráveis além do próprio narrador. Todos os que passam pelo livro são sombras, lembranças tênues, mais nomes ou situações do que presenças vivas. Não há espaço para que se construam trajetórias paralelas ou se estabeleça uma densidade dramática fora da consciência do protagonista. Essa escolha estilística reforça a impressão de que se trata de um memorial íntimo, uma escrita voltada para dentro, que não se preocupa em dar carne a quem cruza seu caminho. O efeito pode ser fascinante para quem busca mergulhar na intimidade fragmentada de uma memória, mas também pode soar restrito, quase claustrofóbico, para quem espera encontrar personagens vivos e conflitos narrativos mais amplos.
O livro acaba funcionando como um retrato caótico de juventude privilegiada. Chico não esconde que foi um menino branco, vindo de uma família de classe alta, vivendo em Roma nos anos 1950, e isso, por si só, marca a narrativa. Suas agruras não são as da sobrevivência, mas as do pertencimento, da insegurança íntima, da tentativa de encontrar uma voz própria em meio a um cenário maior do que ele. Há, portanto, uma ambivalência: ao mesmo tempo em que revela fragilidades universais, o texto também está atravessado por um ponto de vista socialmente muito localizado.
Se a leitura não se sustenta para todos, talvez seja porque Bambino a Roma não pretende contar uma história no sentido clássico. Ele se parece mais com um caderno de memórias, uma tentativa de organizar lembranças quebradas como elas são, sem ordem, sem amarrações. O caos é o próprio estilo. A sensação é de acompanhar uma mente que vagueia, e que, ao vagar, tanto ilumina quanto frustra, pois nunca se entrega por inteiro.
Pessoalmente, ao fechar o livro, fiquei dividida entre dois sentimentos: de um lado, a admiração por ver como Chico Buarque expõe a fragilidade da memória e se coloca nesse lugar de “menino perdido em Roma”; de outro, a distância que se cria porque essa fragilidade é narrada a partir de um lugar seguro, protegido. Eu, leitora, não encontrei um ponto de afeto profundo com o narrador, faltou o choque, o risco, aquilo que me fizesse atravessar o texto junto com ele. Ainda assim, penso que esse é o valor do livro: ele não se oferece como grande romance, mas como espelho rachado de uma memória pessoal, e cabe a cada leitor decidir se esse reflexo toca ou não sua própria experiência.
Bambino a Roma de Chico Buarque. São Paulo: Companhia das Letras, 2024. 156p. Leitura de Setembro 2025.