“— Elyse — disse Tom. A rapariga teve um pequeno sobressalto. Depois, os seus olhos ficaram muito frios. — Então era você. Ele esperou. — Tinha a impressão de vê-lo de vez em quando, à saída da loja. Ou à saída do cinema. Tom sorriu. — A primeira vez foi à saída do teatro. — Qual era a peça? — Mary Rose. — Mas isso foi há umas três semanas. Quer dizer… — Há três semanas que a sigo. Ela bebeu um pouco da bebida esverdeada. — E não se aproximou… Tom encolheu os ombros. Não lhe podia dizer que estava à espera de que o cabelo dela crescesse. — Tinha muito tempo. — Porquê eu? — Porque me lembra alguém. — Já ouvi isso antes. — Desta vez é verdade. Você parece-se com a minha mulher. — Ela morreu? — perguntou a rapariga friamente. — Não. Mas não vivemos juntos. — Também já ouvi isso antes.”
ANA TERESA PEREIRA nasceu a 30 de Maio de 1958 no Funchal, onde vive. Frequentou um curso de guia intérprete, actividade que abandonou aos vinte e cinco anos para estudar Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Contudo, no final do segundo ano, abandonará também a Filosofia e regressará ao Funchal, onde se dedicará exclusivamente à prática da escrita tendo uma já longa e variada carreira literária. Desde o seu primeiro livro tem vindo a publicar regularmente. A singularidade da sua temática e a concisão da sua escrita dão a Ana Teresa Pereira um lugar próprio na literatura portuguesa actual. Tem colaboração nos jornais Público e Diário de Notícias (Funchal) e nas revistas Islenha e Margem 2. Ao longo da sua carreira recebeu os seguintes prémios: Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB (2011), o Prémio Literário Edmundo Bettencourt (2006; 2010), o Prémio Máxima de Literatura (2007), o Prémio PEN Clube Português de Narrativa (2005); o Prémio Caminho de Literatura Policial (1989); o Prémio Revelação de Ficção APE/DGLB (1989) e o Prémio Oceanos de Literatura Portuguesa (2017).
A mais recente obra de Ana Teresa Pereira volta a ser um mostruário da arte de bem escrever, ao mesmo tempo que é um repositório de literatura, teatro, cinema, flores e ourivesaria… 😃 Como numa história de William Irish (nome tirado de um dos pseudónimos do escritor Cornell Woolrich), roda em torno do clássico cinematográfico Vertigo, de Hitchcock. E dizer isto já poderia ser dizer muito, mas não o é de todo, pois, Vertigo é apenas e só uma das várias camadas que se interligam e sobrepõem ao longo de toda a obra. De Carson McCullers a Woolrich, visitando J.M. Barrie, passando pelo teatro com L’ora Della Fantasia de Anna Bonacci, e a vários momentos, referências e figuras do cinema no século XX, este texto é de uma riqueza cultural enorme. As 3 estrelas não refletem a ausência de qualidade da obra, apenas a (por vezes), falta de conhecimento do leitor 😉