Geralmente fazemos uma distinção entre os acontecimentos anónimos e ocasionais do mundo natural e os aparentemente familiares e previsíveis acontecimentos da vida humana. Nestas descrições, que oscilam entre pinturas realistas e naturalistas das paisagens da costa portuguesa, ambos os mundos se fundem. De tal modo que a tal previsibilidade humana se esvanece, dissolve-se nas tais névoas matinais que pairam sobre o mar, nas luzes sobre os charcos de água salgada que restaram das tempestades e até nos próprios esforços para empurrar o barco para o mar. Se a entrega e o comprometimento com a vida tem sempre um preço a pagar, então para estes homens e mulheres esse preço é alto – estão absolutamente expostos e sujeitos aos temperamentos dos mares e dos céus. É por isso que as emoções dos pescadores portugueses e das suas famílias são tão inconstantes quanto o estado do mar (na verdade as emoções humanas afiguram-se mesmo como estados do mundo natural), que conhece tão bem os momentos de tranquilidade como os de tempestade e caos.
E no entanto, todas estas impressões das paisagens não deixam de ser mais uma série de expressões particulares que montam um ponto de vista Humano sobre a costa portuguesa e os elementos que a compõem. O autor que contempla estes cenários, que se num primeiro momento é o próprio escritor, num segundo torna-se o próprio leitor (aquele que contempla), projeta sobre eles uma certa dose de tragédia e melancolia que não pode vir de uma mera observação das tempestades e dos acontecimentos naturais. Isto é, no fundo esta acaba por não ser apenas uma perspetiva (científica?) ou completamente naturalista/realista pois a melancolia e a tragédia não brotam apenas nos momentos em que as paisagens e os acontecimentos transmitem tais emoções. Tanto a melancolia como a tragédia impregnam o texto, independentemente do estado do mundo natural, e isso deve se ao facto de que estamos perante o imperfeito e distante olho humano a contemplar estas paisagens. Ou seja, a tragédia não está na rudeza e no horror do mar e dos estados do mundo natural em si, mas na consciência que o autor tem (e que é projetada no ato de contemplação) da desgraça e da angústia daqueles cuja própria existência depende da total entrega e submissão às vontades ininteligíveis e incontroláveis da natureza. O que no fim acaba por ser uma espécie de lamento por aqueles que se entregam à vida da sobrevivência (neste caso no mar), à vida em geral. Um lamento que acaba por tingir todo o olhar sobre a costa portuguesa.
E no fundo, estas pessoas trágicas que habitam ou habitaram as praias portuguesas, são tão indispensáveis para as paisagens como a luz e os azuis - sem eles não se arrancava a textura e a cor, a beleza destas paisagens e da vida junto do mar. É como se os pescadores fizessem parte do mundo natural, apenas servindo a natureza, a vida biológica. E a própria natureza manifesta se pujantemente através das vidas dos pescadores, tal e qual como se manifesta no mar, no vento, no azul... é isso que é este livro - uma composição do tecido e da substância da Costa portuguesa. Será que há uma perspetiva em que a diferença entre a manifestação dessa substância, por um lado através das paisagens naturais e por outro como manifestações “humanas” é quase nula? Qual é a diferença entre um choro da mãe que perdeu o filho no mar e o choro do vento a soprar no mar escuro e agreste? Essa diferença, se é que existe, é anulada.
E até a própria cultura, os costumes e os maneirismos de um povo, o que são senão uma vontade materializada, que tal como a da natureza, também é ininteligível e totalmente anónima?
Os nomes de família que vão passando de geração em geração, os modos de vender o peixe, as canções, as técnicas de pesca, as cores das casas.... tudo isto não deixa de ser um resultado também ocasional e imprevisível de uma vontade que, apesar de se manifestar em seres humanos, não deixa de ser uma vontade abstrata e natural. Toda a cultura das praias e do mar português também resulta da tal submissão e entrega total à vida no mar. Tudo o que compõe a Costa portuguesa, desde os homens às paisagens, parece ser conduzido por esta vontade abstrata natural de sobreviver no mar, que é poeticamente representada neste livro.