O livro de Isabela Discacciati propõe uma dupla viagem que se articula no cruzamento da obra de Elena Ferrante, sobretudo sua tetralogia napolitana, inaugurada com A amiga genial, e um vasto repertório italiano presente no itinerário de suas personagens. Para isso, a autora empreende uma jornada em busca dos cenários e pessoas que, espelhados em seus livros, ajudam a compreender melhor as referências literárias de Ferrante, atravessando os universos da mitologia, da religião, da cultura popular e a própria geografia italiana.
Brasileira que emigrou para a Itália, onde estudou e trabalha com turismo, arquitetura e história, Isabela também insere no texto experiências autobiográficas que dialogam com a comovente história da amizade e dos conflitos de Lila e Lenu, que conquistou leitoras e leitores em todo o mundo e fez de Elena Ferrante a autora mais celebrada da literatura italiana contemporânea. A edição conta com imagens históricas de acervos italianos.
Excelente, não tenho outra palavra para definir-lo. O livro faz jus ao seu título pois a autora não se limita e vai muito além do universo de Elena Ferrante. Isabela realizou uma pesquisa magnífica e muito bem documentada. Percorreu várias regiões da Itália descritas nos livros. Mas pra mim, o ponto alto do livro são as situações, estórias e pessoas que ela encontrou durante essa jornada. Acredito que mesmo quem não tenha lido os livros de Elena Ferrante irá gostar do livro. E provavelmente ele também seja um ponto de partida para quem deseja conhecer as obras da misteriosa escritora italiana. Para Além das Margens foi um dos melhores livros que li esse ano.
A forma de escrita que a autora cria para narrar as suas experimentações na Itália de Elena Ferrante já é interessante por si só, mas a junção com as vivências das personagens e a análise de como a obra se relaciona com os lugares e com as referências que Ferrantes quis transmitir ao leitor, tornam esta uma experiência de leitura muito legal; perceber como “a literatura mostra a ciclicidade da história e prova que as tradições populares que hoje sobrevivem têm raízes profundas”. A escrita de Ferrante tem uma relação muito intrínseca com os lugares por onde seus personagens passam, com as cidades e seus ambientes fazendo realmente o papel de um personagem capaz de influenciar todos os núcleos da história e ajudar a definir seus rumos, uma vez que se relaciona assim “a força misteriosa que empurra Elena Greco para fora de seu lugar de origem e, ao mesmo tempo, a arrasta de volta com tanto magnetismo”. Ainda assim, acredito que o livro seja realmente para quem se identificou com a obra de Elena Ferrante, e pessoalmente, a obra transformou o meu perfil de leitora e a forma com que me relaciono com as obras, como Isabela afirma “este também é o efeito que um grande livro exerce sobre nós: uma viagem transformadora, uma revisitação do nosso percurso, que provavelmente não nos trará respostas, mas novos questionamentos”. Recomendo a leitura para quem tem interesse na realidade dessa Itália que inspirou e é tão bem retratada na obra de Elena Ferrante: “Ferrante é artífice de uma história universal, que se desenrola em um lugar que contém em si o mundo, com suas virtudes e misérias. Nápoles, a linha de partida dessa jornada, é o espelho imperfeito que reflete a delicadeza corrompida, uma beleza que se estilhaça. Representa a caverna da qual fugimos e que ousamos revisitar para, não sem dor, reencontrar o útero materno.”
- “Questiono-me por que uma imagem de um momento tão marcante na vida de uma pessoa esteja dentro daquela gaveta, sem herdeiros. Quando é que as pessoas deixam de existir?”.
“A literatura a torna eterna, assim como ela faz com personagens tão fortes quanto Lila e Lenu”.
Uma viagem pela Itália de Lenu e Lila, seguindo os lugares mencionados na tetralogia napolitana. Isabela faz uma pesquisa maravilhosa, relacionando a importância dos lugares para a narrativa da Ferrante com a importância histórica, misturando fatos políticos, artísticos, culturais, lendários. Ela também nos apresenta personagens reais que habitam ou habitaram esses mesmos espaços. Uma leitura fluida, leve e deliciosa para os fãs da tetralogia. Agora a vontade é viajar para a Itália usando esse livro de guia.