'Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa' é um título roubado clandestinamente a um texto do livro "Novas Cartas Portuguesas", que dá o mote a uma criação de Sara Barros Leitão estreada em 2021. Partindo da criação, em 1974, do primeiro Sindicato do Serviço Doméstico em Portugal, aqui se conta a história, ainda pouco reconhecida, pouco valorizada, do trabalho das mulheres, do seu poder de organização, reivindicação e mudança. Esta é a história das mulheres que limpam o mundo., das mulheres que cuidam do mundo, das mulheres que produzem, educam, e preparam a força de trabalho - a história do trabalho invisível que põe o mundo a mexer.
Lê-se em menos de duas horas. É uma peça de teatro, mas também é um livro de História. Dá voz a um grupo muito particular de mulheres trabalhadoras: as que cuidam de nós e são “como se fossem da família”. Devia integrar o Plano Nacional de Leitura. É a prova de que não precisávamos de quão genial a Sara Barros Leitão é. E de como tão bem se dedica às lutas mais esquecidas.
«O dia da liberdade chegou, e ela nem viu a banda passar. O 25 de Abril foi a uma quinta-feira, e as folgas das empregadas internas são ao domingo, de quinze em quinze dias, quatro horas. (…) Quando se conta a história do 25 de Abril, conta-se o dia em que as pessoas saíram à rua, conta-se o dia do início da libertação, a solidariedade entre trabalhadores. Agora, chegou o tempo de contar a narrativa alternativa de quem não saiu, e a quem fizeram acreditar que ainda não era a sua vez. O trabalho doméstico tem de ser feito. O trabalho doméstico é a base do bem-estar, do cuidado, das necessidades básicas e saúde pessoal. Pagando alguém para o fazer, ou fazendo-o nós de forma gratuita quando chegamos a casa depois de uma jornada de trabalho remunerado, é trabalho. Na agenda da libertação dos trabalhadores, já não havia espaço para a libertação das tarefas mais essenciais, feitas sobretudo por mulheres. Afinal, até para a ocupação de uma fábrica é preciso quem nos leve a marmita, até para cumprir as oito horas de trabalho é preciso roupa lavada, até para o melhor rendimento das crianças na escola, que estão a aprender a ser a nova força de trabalho, é preciso quem garanta que vai a mochila, o casaco, o iogurte e os deveres feitos. O problema do 25 de Abril foi que não chegou para todos. Muito menos para todas.»
"Solidão? Toda. Nem notei quando me mudou a voz, tal era muda a minha vida. Solidão? Completa. Falar, só falo com Deus. Não é que me oiça, mas para me escutar".
"Não te deixes enganar, se nunca viste a tua história escrita, não significa que ela nunca aconteceu. Às vezes só é preciso procurar melhor".
O quanto se aprende com esta leitura. Sobre história, sobre invisibilidade, sobre exploração, sobre trabalho e sobre direitos (ou luta por direitos, porque ainda falta dar passos importantes aqui).
Há muito tempo que não lia um texto dramatúrgico e adorei ler este, espero conseguir ainda um dia assistir à peça. Sara Barros Leitão conseguiu transformar a sua pesquisa e investigação sobre a vida das empregadas domésticas e seu sindicalismo numa obra tão incrível quanto esta. Se não ouvem as mulheres, vão ter de as ver.
Tive conhecimento desta obra através do podcast do Fumaça, ouvido há ja dois anos, “Quase da família”. Não sei como nem porquê, comprei a versão física há poucas semanas, e fiquei surpreendido pela dimensão real da peça. Li-a em pouco mais de uma hora. Uma viagem de metro foi suficiente.
Já conhecendo o seu conteúdo, a leitura serviu-me mais para me lembrar de tudo o que tinha sido abordado no podcast, além de conhecer na íntegra o texto. Considero de extrema importância o reviver destes factos, que estão dados como mortos sem nunca terem nascido. Há aqui a exploração de um tema com que todos já nos cruzamos, em algum momento das nossas vidas, mas que, talvez por distância, poucas vezes nos questionamos acerca dos direitos laborais de quem faz o cuidado doméstico.
Pessoalmente, esta história interessou-me por ser bisneto e trineto de criadas de servir, em que, tal mãe e tal filha, engravidaram dos filhos dos patrões. Apenas a minha bisavó Marcionília (que por isso era filha de pai incógnito) teve a sorte de ver a relação oficializada, casando com o homem que foi o meu bisavô. A sua mãe (Maria) viu-se posta na rua, não depois do filho do patrão ser mandado para o Brasil, e da carta de chamada que foi prometida nunca lhe ter chegado as mãos. Isto tudo para agradecer à autora, por se ter debruçado sobre este tema.
"A que não pode ir a reuniões, o marido não deixa e não tem onde deixar os filhos. o trabalho na casa dos outros acaba tarde, e depois ainda tem o da sua casa. Não nos chegam as 24h de um dia para ser a mulher que esperam que sejamos."
"Não podia usar os mesmos talheres que eles, pois tinham nojo. Mas afinal eles é que eram os mais porcos, não só nisto mas em tudo o que Uma mulher há-de ser asseada."
Uma breve peça que nos instrui sobre a vida e a luta da empregada doméstica portuguesa ao longo do século XX até à atualidade: “esta não é uma história de vilões – embora haja maldade (...)” p.11