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Didier Eribon é o mentor de Édouard Louis e, juntamente com o seu companheiro, Geoffroy de Legasnerie (de quem já li “Sair da Nossa Impotência Política”), formam os três um novo tipo de família que privilegia os laços de amizade em detrimento dos de sangue. Eribon é um conceituado intelectual conhecido por ter escrito “Regresso a Reims” em 2009, após a morte do seu pai, para reflectir sobre as suas origens num meio proletário de esquerda que, mais recentemente, começara a votar na extrema-direita. Mais de uma década depois, regressou à zona de Reims, mais propriamente a Fismes, onde a mãe de 87 anos foi institucionalizada num lar por motivos de saúde. Para grande consternação de Eribon, em poucos meses, o estado da sua mãe agravou-se e, antes que ele conseguisse voltar a visitá-la, faleceu.
A minha mãe não suportou a vida diminuída que era a sua. De que lhe servia continuar? Manter-se viva? Se era para ser prisioneira num quarto, sozinha, presa à sua cama, sem nunca mais se poder levantar, caminhar, deslocar-se? (…) As poucas forças que lhe restavam abandonaram-na, ou, melhor dizendo, ela abandonou voluntariamente as escassas forças que ainda tinha. Escolheu deixar-se morrer.
“Vida, Velhice e Morte de uma Mulher do Povo” aborda todas as questões morais e práticas de se internar um progenitor num lar, a dificuldade de colocar todos os filhos de acordo, de encontrar um lugar decente consoante as possibilidades monetárias da família, a resistência da idosa perante o isolamento e a perda de autonomia. Já devo ter confessado algures o meu desdém por treinadores de bancada: se não têm pais, se não têm filhos, se não têm companheiros, ou se os têm e acham que convosco vai ser diferente, que são melhores pessoas, óptimo, parabéns a vocês. Mas ouçam mais e julguem menos, talvez aprendam qualquer coisa. Apesar do sentimento de culpa de Eribon, sobretudo por não ter visitado a mãe tantas vezes como acha que devia, tanto em casa como no lar, não me parece que o intuito desta obra seja levar o leitor a condená-lo ou desculpá-lo, mas levá-lo a ponderar sobre a forma como marginalizamos os idosos como um todo e se isso é inevitável ou se a sociedade moderna ainda está a tempo de repensar a situação e não os relegar para o papel de meros figurantes.
Todos os aspectos da sua vida eram escrutinados, vigiados, controlados, tudo era decidido sem que a consultassem. A minha mãe perdera não apenas a sua autonomia, mas também a sua liberdade, e até o seu estatuto de pessoa. É mesmo assim: a despersonalização leva a que uma pessoa idosa deixe de ser uma pessoa.
Além de sociólogo, Didier Eribon é também filósofo e isso é evidente neste livro. Demasiado evidente e fastidioso para mim, que tenho a filosofia como a minha kryptonite desde os tempos do secundário e que tenho pouca paciência para conversas sobre imanecência e transcendência. Sempre que aborda um assunto, como por exemplo, o sotaque regional da mãe, o autor consegue discorrer abundantemente sobre ele, acabando na redundância típica das pessoas com pouco poder de síntese. Há também um certo snobismo no seu discurso e um repisar no movimento de trânsfuga social que nem sempre caiu bem comigo, ainda que compreenda o confronto e o desconforto de ter pais que não vêem o mundo como nós. Relevante é também a constatação de orfandade a que não fiquei imune, lembrando-me o momento em que eu mesma percebi que nunca mais seria chamada de filha.
No fundo, é simples, houve qualquer coisa que mudou na minha vida, na minha identidade, na definição de mim mesmo: eu era um filho e já não sou. Quando ela estava viva, por muitos espaçados e intermitentes que fossem os nossos encontros e, no fundo, por pouco que me tenha esforçado no meu papel de filho ao longo da vida (é preciso dizer: já não queria ser um filho, isso era um peso para mim), nunca deixei de ser um filho.
Tal como Édouard Louis, Eribon deixou o meio da sua infância para trás, afastando-se tanto física como socialmente dele, através da deslocação para Paris e dos estudos e das profissões liberais que exercem, cortando com as origens proletárias que os pais e os irmãos nunca conseguiram abandonar, ainda que a sua abordagem me pareça mais racional e menos visceral do que a do seu protegido.
Tenho a perfeita consciência, hoje, que foi ao mesmo tempo contra ela e graças a ela que me tornei o que sou. E, no meu espírito, o “contra ela” sobrepôs-se durante muito tempo ao “graças a ela”. Envergonho-me evidentemente, e há muito tempo, do meu egoísmo e ingratidão. Lamento a tristeza que esse egoísmo e essa ingratidão lhe provocaram.
“Vida, Velhice e Morte de uma Mulher do Povo” estabelece um diálogo com outras obras sobre mães e vetustez, como por exemplo, “O Livro de Minha Mãe” de Albert Cohen, mas a mais preponderante é aquela que Simone de Beauvoir escreveu em 1970, intitulada “Velhice”, cujas 700 páginas muito me intrigam. Que tanto teria ela para dizer com apenas 62 anos sobre a terceira idade?
Eis a questão política fundamental. Quem fala? Quem pode tomar a palavra? E se este gesto político elementar permanece inacessível a tantas pessoas que estão entre as mais dominadas, as mais destituídas, as mais vulneráveis, não será que cabe aos escritores, aos artistas e aos intelectuais a tarefa de falar deles e por eles, de os tornar visíveis e de “fazer ouvir as suas vozes”, para retomar a expressão de Simone de Beauvoir, ou, quiçá, de lhes “dar uma voz”, essa voz que eles não têm ou que deixaram de ter, ou até, no caso das pessoas idosas dependentes, que já não podem ter?