Francisco Ramalheira apresenta-nos com Mãe uma obra bastante necessária porque é uma obra que nos faz pensar. Uma história tem o "dever" de entreter (e isso não falta em Mãe) mas ganha uma nova dimensão quando consegue fazer-nos refletir. E, quando vivemos numa altura tão conturbada, é importante termos obras como estas.
Como o autor diz, no espaço dedicado à sua nota, seria muito bom que esta obra se mantivesse ao longo do tempo como algo fantasioso e não como algo que previu, de certa forma, o futuro que parece, cada vez mais, ser o que nos espera se nada for feito em relação às alterações climáticas e ao nosso modo de viver e olhar as nossas responsabilidades como Humanidade.
Mas vamos mergulhar na obra em si. A forma de escrever do Francisco foi algo que demorei a habituar-me, confesso. Tem um léxico bastante rico o que é ótimo para um autor e mostrou não ter medo de o utilizar. Mas tenho que confessar que senti que a leitura saiu mais fluída quando o autor permitiu que a escrita também assim o fosse, se me estou a fazer entender. Em que, talvez, deixasse de sentir o peso da escrita em si. E nessas partes o livro mostrou estar muito acima da média.
A personagem principal, a Margarida, mostrou ser complexa e bem construída, com bastante perspicácia para aquilo que lhe estava a acontecer e com um amor sem fim para as crianças a seu cargo que fazia com o que leitor não deixasse o seu lado. Por vezes senti que ela não era tão ativa como gostaria, mas isso é só um pequeno reparo. Parecia que as coisas lhe aconteciam, em vez de ser ela o motor da história. Mas isso não roubou muito da qualidade do livro, na minha opinião. As personagens que circundavam a Margarida estavam bem construídas, cada com a sua voz que teve a oportunidade de ser ouvida ao longo das páginas do livro, o que só ajuda para o leitor ter mais um pedaço de si, nem que seja na sua parte emocional, a estar investida na história, pois quer saber o que vai acontecer, como certos acontecimentos se vão desenrolar e como certos plot twists vão afetar a trama em geral. Na minha opinião, são sempre as personagens que "carregam" a história para a frente e achei um método muito bom do Francisco explorar várias das personagens que tinha espalhadas pelo mundo para termos uma visão mais completa do que estava a acontecer. Por vezes, até gostava que se tivesse alongado mais nessas partes pois gostei bastante.
Acho, também, que o autor não complicou na parte da ficção científica. Não leio o suficiente neste género para saber como costuma ser feito, mas o autor apresentou as suas tecnologias, apresentou os factos curta e rapidamente os colocou em prática, regra geral, o que facilitou à sua imaginação e ajudou sempre a impulsionar a história para a frente.
Para concluir, Mãe é uma obra interessante quer do ponto temático quer do ponto da escrita. Fez-me certamente refletir sobre o meu papel nas alterações climáticas e até na maneira como vemos o outro, pois um outra tema abordado aqui é a divisão social e a ganância das elites. E isto além de conseguir uma boa dose de entretenimento. Fico a aguardar futuras obras do Francisco e a acompanhar a sua contínua evolução como autor