Toda vez que me proponho a ler um livro bem conhecido, um verdadeiro clássico, tento, com algum esforço e êxito, separar no meu espírito aquilo que sobre a obra chegou a mim ao longo da minha vida, seja por iniciativa de terceiros, seja por pesquisa minha, daquele conjunto de impressões que decorrem da própria leitura.
Com “O Decamerão” não poderia ser diferente. Na verdade, chamá-lo de clássico é até um under statement, já que clássicos são, hoje, por exemplo, Machado de Assis, Eça de Queirós, Walter Scott e – para citar um conterrâneo de Boccaccio – Tomasi di Lampedusa. “O Decamerão”, com efeito, já está naquele lugar mítico de obras que influenciaram a humanidade, geraram debates, se incorporaram na cultura como paradigmas de narrativa, e cuja leitura atenta e absorção fazem parte dos famosos “deveres de cultura” de qualquer cidadão bem educado.
Essa, aliás, é a primeira impressão pré-leitura que distingo: o lugar especial de “O Decamerão” na história da literatura e cultura do Ocidente. E, como corolário desta distinção, está a posição de Boccaccio como um dos três grandes florentinos da Baixa Idade Média, ao lado de Dante Alighieri e Petrarca.
Nessa cultíssima trindade, a comparação com os outros dois vértices do triângulo é igualmente um desses lugares-comuns de que o aspirante a leitor de Boccacio, querendo ou não, se apossa quando pensa no autor: Dante é o grande autor da “Divina Comédia”, o poema narrativo que, transcendendo seu tempo, nos deixou para sempre uma visão tripartite do cosmos cristão, o Céu, o Inferno e o Purgatório. Já Petrarca é o inventor do soneto moderno, cantor de amores com forte influência platônica, expoente do dolce stil nuovo. Já ao bom Giovanni cabe, nessa distribuição de epítetos didáticos, o papel do prosador e, mais ainda, do realista, aquele que não cuidou de céu e inferno, e que não glorificou o amor ideal, mas se ocupou deste baixo mundo como se nos apresenta todos os dias. Descobri, ainda, durante a leitura, mais algumas notas até surpreendentes sobre Boccaccio, às quais retornarei oportunamente.
“O Decamerão” conta a história de um grupo de 7 moças e 3 rapazes florentinos que se encontram casualmente na igreja Santa Maria Novela, durante um intervalo entre ofícios religiosos. Acossados pela peste negra, que grassava naquelas terras, ali estavam para rezar por Florença, pelos mortos e pelos moribundos; porém, decidem eles, seguindo ideia de Pampineia – um dos nomes inventados por Boccaccio para proteger a verdadeira identidade dos 10 jovens nobres –, sair da cidade para se isolarem no campo, longe de toda aquela pestilência, tristeza e morte. Afinal, eram novos, sadios e cheio de vitalidade, não havia por que estarem ali enfurnados naquela decadência.
Dirigem-se então, sigilosamente, para um palácio no meio de uma colina, onde tudo é limpo, luminoso, arejado e farto, um lugar paradisíaco, completo com servos bem educados e discretos que se dedicam a atender as necessidades daquela jeunesse dorée, enquanto o povo florentino morre de peste.
Falando em peste, é preciso aqui aludir à introdução do livro, na qual Boccaccio faz um registro valioso para historiografia do que foi a peste em Florença: um desagregador social, desgastando os laços jurídicos, religiosos, sociais e até naturais entre os cidadãos. A cidade, por sua vez, é um verdadeiro purgatório ou quiçá inferno mesmo, onde a bondade humana é cada vez mais rara e heroica, e o caos completo se instalou. Esse aspecto é reiterado por Dioneio na Despedida da Sexta Jornada:
“Além disso, será que ignoram vocês que, por causa das péssimas condições desta quadra do ano, os juízes abandonaram os tribunais? Que estão suspensas as leis, tanto as divinas como as humanas?”
O leitor atento e sensível irá, naturalmente, se espantar com a discrepância entre esse quadro pungente e a situação dos dez jovens nobres, que não só é paradisíaca, como progressivamente paradisíaca: entre a segunda e a terceira jornadas, eles se decidem a partir para um palácio ainda mais belo e distante, com maiores delícias do que as encontradas no primeiro. Ajunte-se a isso um jardim metamorfoseante, no qual em uma jornada aparecem pássaros, na outra pequenos animais, na outra animais maiores, e as flores e frutos mudam de forma literalmente de um dia para o outro, além do “Vale das Mulheres”, nas proximidades do palácio, cuja descrição é de fazer qualquer um vender seus bens para viajar no dia seguinte com destino à Toscana.
Parece então que, de certo modo, nosso amigo Boccaccio também introduziu em sua obra a tripla distinção de Dante: um inferno e um purgatório, ambos na Florença devastada pela peste, e um paraíso, para onde os jovens se dirigem e onde são contadas as novelas. Não é de se estranhar esse paralelismo, já que foi Boccaccio o primeiro grande estudioso, entusiasta e divulgador da “Comédia” de Dante, à qual juntou, de uma vez para sempre, o merecido adjetivo “Divina”.
O que é, pelo menos um pouco, de se estranhar, é que esses lugares dantescos estejam todos tão, tão incrivelmente presos à terra nessa obra. Como perspicasmente notado pelo meu amigo Leonardo Batista, não há, praticamente, transcendência no Decamerão. Certo, são referidas igrejas, padres, almas, Cristo, as missas, os deveres de religião, a nobreza e a baixeza das almas, mas em nenhuma novela, ou nos interlúdios, nota-se a presença ou alusão aos anjos e demônios que pululam em outras obras da época.
Talvez aí esteja a famigerada “realidade” da qual Boccaccio seria o portador pioneiro na literatura. Mas, para um cristão, em especial para um cristão medieval, a realidade realior é aquela de Dante, na qual a terra é um ponto infinitesimal onde ocorre a guerra dos anjos e demônios pelas almas humanas e destas mesmas pela sua salvação, com a graça de Deus. O que se chama de realismo, em Boccaccio, é na verdade prosaismo, imanentismo e esteticismo.
Não se quer aqui, diga-se logo, acusá-lo de ser uma alma prosaica. Se precisássemos de alguma prova em contrário, bastaria não se diga lembrar do restante de sua produção literária, bastante poética e espiritualizante, mas apenas aludir à sua apreciação, tanto mais meritória quanto pioneira, da Divina Comédia de Dante.
A escolha do elemento prosaico, então, deve ter sido proposital, efeito de uma consciência artística que, aliás, seria um desrespeito negar ao literato florentino. Ademais, só um coração de pedra passaria insensível ao apuro estético de Boccaccio em suas descrições, nunca excessivas, sempre precisas, que “fazem ver”, para aludir à locução de Aristóteles, em sua Retórica. Se falta ao mundo de “O Decamerão” uma dimensão espiritual mais profunda, abunda aqui a beleza, ainda que um tanto dissociada do bem.
“Cada um pode alegrar-se conforme o que mais prazer lhe causa ao espírito”: essa ordem da Rainha Pampinéia, na primeira jornada, repetida de mil formas distintas por outros Reis e Rainhas nas demais jornadas, parece ser a tônica do próprio Boccaccio, que compôs essa obra porque lhe causava prazer ao espírito e para causar prazer aos espíritos das leitoras a quem amiúde se dirige.
Essas são as notas gerais sobre a obra. Mas quanto mais avançava em sua leitura, tanto mais esse mandamento epicurista de Pampinéia se me afigurava difícil, porque o seu sentido final me escapava. Mais ainda, sentia uma crescente falta de compreender primeiro a estrutura total da obra, na busca desse sentido, para somente depois me deter nos detalhes das novelas, que é o que me parecia estar fazendo toda a gente que lê “O Decamerão”, e que senti como procedimento sumamente insuficiente.
Até mesmo porque, de regra, os julgamentos que me chegaram da obra não são estéticos ou poéticos, e sim moralizantes, dirigidos às novelas mais apimentadas, tais como a “do diabo no inferno” e a do “rouxinol na mão”. Isso é uma besteira por diversas razões, que vão desde o aborrecido intrínseco do julgamento moralizante, como se os críticos literários fossem guardiães da moral pública, até ao fato de que boa parte, talvez a maior parte, do Decamerão, seja composta de novelas edificantes ou simplesmente – vejam só – moralizantes.
O próprio Boccaccio apresenta uma defesa bastante eloquente de sua obra ao final do livro, à qual voltarei mais tarde. Por ora, no entanto, cumpre retomar o raciocínio que eu vinha desenvolvendo, isto é, saber se a estrutura da obra me dá alguma pista acerca de seu sentido final.
Como todo mundo sabe, o Decamerão, estruturalmente, se compõe de dez jornadas, dez dias, presididos cada um por um rei ou rainha, dentre as sete mulheres e três homens já aludidos. Os dias de novelas não correm seguidamente: há um total de duas pausas para sextas e sábados, observados devotamente pelos jovens novelistas, que além disso não perdem uma missa dominical. Seja como for, em cada dia cada um dos jovens narra uma novela, cujo tema é dado pelo Rei ou Rainha do dia, de modo que são dez novelas por jornada e dez jornadas do início ao fim do livro, totalizando cem novelas. Além das novelas, que obviamente são o centro de cada jornada, outros padrões se repetem: há uma breve narrativa do que os jovens fazem do despertar até o momento em que se reunem para contar as novelas, depois a coroação do próximo Rei ou Rainha “na hora de Vênus”, isto é, no momento mais propício aos divertimentos e à apreciação da beleza mundana, e sempre uma canção entoada por um dos jovens e uma pessoa que preside às danças, terminando com a Despedida. Rapidamente, uma nova repetição se integra à estrutura de “O Decamerão”: a rainha ou rei do dia é sempre a penúltima pessoa a narrar sua novela, ficando o último lugar a Dionéio, aquele a quem cabe, sempre, contar uma novela cômica e fazer paródia do tema da jornada quando ele se afigura sério.
Após pesquisar e muito meditar, lamento dizer que não encontrei um sentido anagógico, ou mesmo meramente simbólico, para essa estruturação da obra. O simbolismo do número dez ou mesmo do número cem é por demais profundo para permitir qualquer analogia com o prosaísmo decamerônico. Dez é um número de perfeição, e isso pode significar que Boccaccio queria sua obra redonda e perfeita, mas a isso se pode fazer duas objeções: primeiro, a de Sócrates, a Protágoras e Hípias, de que não adianta tentar imaginar o que um autor pretendeu significar com o que compôs, porque afinal ele morreu e nada mais lhe foi perguntado; segundo, porque é de se imaginar que, se não a totalidade dos poetas e romancistas, pelo menos a esmagadora maioria pretende que sua obra seja perfeita, valendo-se ou não do simbolismo numérico para tal.
Na mesma sinuca de bico eu me meti ao tentar comparar as sete mulheres aos sete planetas da astrologia tradicional, vigente à época de Boccaccio e com cujo simbolismo ele, homem de cultura, devia estar habituado. Os traços das personagens são insuficientemente marcantes para permitir uma caracterização segura, base e premissa necessária de qualquer analogia com qualquer planeta. Há, claro, diferenças marcadas em alguns dos jovens novelistas; por exemplo, Fiammeta é mais recatada, Dionéio é um pândego, Filóstrato é melancólico, e por aí vai, mas nada, repito, que permita com segurança um salto analógico dessa envergadura. Para não dizer que eu ainda ficaria com o problema de encaixar na analogia os três homens (Dionéio, Filóstrato e Pânfilo), que só me sugeriram, e bem de longe, uma alusão à própria trindade florentina de Dante, Petrarca e Boccaccio, por uma certa afinidade de temperamentos entre os três jovens e os três literatos, cabendo a Boccaccio, obviamente, o papel de Dionéio.
Incapaz de inferir da estrutura de “O Decamerão” qualquer sentido superior, relego-me, derrotado, ao estrato mais baixo, que é o da própria escolha de uma estrutura bem definida e até certo ponto rígida. E aí me ocorre – e me socorre – a citação de Paul Zumthor, posta como epígrafe do romance “Avalovara”, de Osman Lins: “a coerência [do romance medieval] é assegurada segundo métodos de composição numeral e temática, mais que por necessidade dramática”.
De fato, ao criar essas regras de composição que são a estrutura do Decamerão, Boccaccio dá à prosa a disciplina de que seus pares Petrarca e Dante se serviram no campo da poesia, “assegurando a coerência”, para usar as palavras de Paul Zumthor. Só não há aqui, pelo visto, “o símbolo do ordo cósmico” que E. R. Curtius encontrou na estrutura numérica rígida da Divina Comédia.
Não me resta outra alternativa, portanto, senão concordar com Otto Maria Carpeaux quando dá seu parecer final sobre Boccaccio, na História da Literatura Ocidental:
“A decadência moral do século XIV não produz ateísmo; só inspira indiferença moral e religiosa. Não há Céu por cima do mundo de Boccaccio, e os efeitos do Purgatório são bastante duvidosos. Não há ideais, a não ser o ideal de viver bem; mas isso não significa só boa comida, vinho e mulheres – significa também conversa espirituosa, livros, música, o ambiente culto do prólogo do Decamerone.”
Boccaccio parece se divertir, ao menos um pouco, às custas dos leitores que, seguindo pistas falsas, como eu, buscam símbolos e significados espiritualmente elevados onde eles não existem, tal como o povo devoto busca milagres junto ao finado Senhor Ciappelletto, na novela que abre o Decamerão. O prosador florentino também se apraz em brincar com o caráter imoral de sua obra, nas intervenções que faz aqui e acolá, respondendo muito inteligentemente às críticas moralistas: sua obra só retrata a realidade, por isso as alusões sexuais em alguns momentos; ela igualmente retrata a nobreza de espírito, e disso ninguém fala; o autor até mesmo apôs, antes de cada novela, um resumo para que o leitor ou leitora prudente possa decidir, por si mesmo, se prosseguirá na leitura ou se, defendendo sua alma, a evitará.
Está tudo muito bem nesse epílogo espirituoso, que decerto não foi a primeira nem será a última contestação de escritor posto no banco dos réus por ignorantes incultos. Só o que não vai muito bem, o que é esquisito mesmo, é a confiança que Boccaccio parece depositar na capacidade dos leitores de evitarem o mal, dizendo mesmo que se a leitura de alguma novela mais picante levar o leitor a pecar, é porque ele já seria mesmo uma alma mal formada, e portanto disposta a isso.
Ora, esse ponto de vista está completamente fora da perspectiva católica do pecado original, que Boccaccio certamente conhecia. Há, portanto, algo sim de diabólico em sua concepção autoindulgente da própria obra. É, como destaca Carpeaux, a posição do humanista que se enxerga mais como romano decadente do que como homem medieval e católico. Uma posição pagã mesmo, derivada de um amor excessivo às coisas deste mundo.
Assim, os novelistas do mundo de Boccaccio, espécie de anjos imanentes, dão uma visão dourada de um ideal de cultura e esteticismo que viria a ser retomado muitas vezes depois, de forma cíclica mesmo, por grupos de escritores e diletantes que, abandonando qualquer fé no transcendental, se apegam tanto mais aos produtos da alta cultura, cuja base na religião desprezam, negam e nem querem enxergar. Esta imagem é, além das melhores novelas de “O Decamerão”, o legado do escritor florentino à humanidade.