Um romance gótico português passado numa vilazinha esquecida cheia de segredos em 1800 e tal, com uma protagonista fixe, escrito num estilo poético, filósofico e absolutamente delicioso??? Soube logo que ia adorar este livro!
****O enredo:****
Em 1888, após um desgosto amoroso e ávida por começar a sua carreira enquanto advogada, a jovem Alfreda Lencastre muda-se da capital, onde vivia no conforto, luxo e riqueza da casa dos seus pais, para a casa dos tios, donos de um matadouro, na humilde Vila do Fim da Caixa. A princípio, a vila parece um local pacato, ideal para recomeçar do zero e mudar de ares. Mas depressa Alfreda se apercebe de rumores estranhos e hostilidades crescentes nesta vila onde nada é o que parece, e, juntamente com o seu amigo Gustavo, é arrastada para uma teia de mistérios macabros cada vez mais complexos e sufocantes.
****A minha opinião:****
O cenário e world building de uma vila rural portuguesa oitocentista? Incrível. A revelação gradual do leque de personagens obscuros que habitam a vila? Incrível. A dinâmica entre Alfreda e Gustavo? Incrível. O estilo literário mega poético e filósofico, que brilha não só na narrativa, mas ainda mais até nas cartas misteriosas que servem de interlúdio entre capítulos? Incrível. O suspense com o mistério dos animais desparecidos, com pormenores cada vez mais mórbidos que nos são revelados aos poucos? De fazer virar páginas compulsivamente. O conflito interno de Alfreda em relação ao charmoso Afonso, a ambiguidade de um amor que a faz delirar mas também a mata lentamente por dentro, porque o rapaz ama apenas uma versão polida e filtrada de quem ela é? Demasiado real, miúda, já todos passámos por isso.
Não consigo expressar o quanto adorei "A Lenda das Quimeras", pela sua ambiência, estética e pelo vislumbre das vidas internas e emoções das personagens, sobretudo de Alfreda. Sinto que este livro era o nicho específico de "Mary Shelley meets Jane Austen" que eu nem sabia sequer de que precisava. Os meus parabéns a Patrícia Fernandes por ter escrito exatamente o tipo de livro que muitos nós gostaríamos de ler, ainda para mais numa idade tão jovem.
Para terminar, incluo duas (de muitas) citações que adorei:
"Já imaginaste, Alfreda? Se nos achássemos donos da eternidade, possivelmente não teríamos descoberto o abraço; o segurar o outro com toda a ternura da qual somos dotados. Seríamos supérfluos, criadores de corações retalhados por uma imensidão de amores que viriam e iriam; seríamos alheios à tão bem concebida ideia do amor verdadeiro, eterno e único. Os romances não seriam romances como estamos habituados, seriam mais uma história a somar a tantas outras que viveríamos. O aborrecimento assim o ditaria, assim nos governaria e guiaria a emoções voláteis, passageiras e sem peso.
É tão bendita quanto maldita esta coisa de morrermos e vermos morrer." (p. 168)
"(...) mal podia esperar por meter os pés fora da cama e viver novas histórias que encheriam a minha velhice com memórias de uma vida bem vivida (...)" (p. 169)