Quando anunciou à mãe que estava grávida de uma menina, Karine, 35 anos, nascida numa família disfuncional do Belenzinho, ouviu esta frase: «Você nunca mais vai ficar sozinha.» Se isto lhe soa a promessa de felicidade eterna ou a prisão perpétua, varia consoante o dia e o exame marcado na longa rotina pré‑natal. Num romance com altas doses de humor, neurose, cinismo e humanidade, Karine vai conversando com a enfermeira sobre traumas de infância, o medo do fim – da juventude, da liberdade, da individualidade –, a solidão, o peso do corpo e das expectativas, a intensa relação com a mãe e o complexo, assustador e comovente caminho para a maternidade.
«Não sou daquelas grávidas saltitantes, não me tornei um unicórnio alado da alegria suprema. Amo esse filho, amarei esse filho. Falo pras pessoas que com tanto mal‑estar e cansaço e prisão de ventre nem uma dessas mocinhas bem bobas e leves e ‘apaixonadas pela vida’ permaneceria solar. Mas é mais do que isso.»
Tati Bernardi é uma publicitária, roteirista e escritora brasileira. Paulistana e de família italiana, formou-se em propaganda e publicidade pela Universidade Mackenzie.
Fui a criança mais assistida, mais amparada, mais pelo-amor-de-Deus-coma-alguma-coisa, mais sopinha-na-boca, mais frutinha-cortada, mais bota-ela-na-balança-para-ver-se-engordou, mais magrinha-assim-é-perigoso-pegar-virose. Contudo, sofri de obesidade mórbida de pensamentos, em silêncio.
“Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha” é o primeiro romance de Tati Bernardi e, estando escrito em breves capítulos em que a protagonista se dirige sobretudo à enfermeira que a acompanha na enxurrada de exames e análises que caracterizam o martírio da grávida, é o formato perfeito para esta autora que se celebrizou como colunista e contista. É difícil ser-se mãe e futura mãe, mas também não é fácil ser-se filha, e se se pertencer a uma família louca como a de Karine, não é de todo pera doce ser-se sequer neta ou sobrinha.
Minha avó, mãe da minha mãe, era portuguesa e me apelidou de Caganita. Porque eu era medrosa, tinha colite nervosa e sobretudo porque ela não gostava de nenhuma garota que se aproximasse do meu avô. (...) Quando ela ficava muito irritada com as pessoas, falava duas obscenidades absolutamente espetaculares: “Vai para a cona da tua mãe!” e “Caralhos me fodam!”
Mas a mãe de Karine não é menos intensa e irascível, roçando mesmo a neurose e o narcisismo.
Uma vez eu voltei tarde de uma festa e fui direto para a cama. De roupa, sapato e maquiagem. Acho que só colei o chiclete na parede a capotei. Ela me acordou berrando do seu quarto “você dorme muito fácil, filha da puta! Eu não dormi te esperando e agora não vou mais dormir de ódio!”
Karine tem com a mãe uma relação de amor/ódio, oscilando entre a dependência e a rebeldia em relação ao atabafamento materno, mas esta obra não deixa também de ser uma declaração de inabalável amor filial. Tati Bernardi escreve com piada, é inegável, mas ao querer esticar ao máximo cada situação inusitada ou ridícula, perde, por vezes, as rédeas da narrativa. Debate com um enorme à-vontade as relações sociais, familiares e sexuais, mas o estilo coloquial e o tom desempoeirado acabam por ser excessivos, como por exemplo no humor escatológico, que devia ser banido assim que se completa o ensino básico. Básico é a palavra-chave. Não há nada que me interesse menos em literatura do que o que se passa na tripa alheia. Poderiam dizer-me que é inevitável na condição de grávida, mas quando a obsessão por cocó e cu se estende a toda a família, torna-se uma conversa de... disso mesmo. Em relação à gravidez, este livro tem tiradas muito astutas e levanta questões pertinentes com que todas as mães devem ter-se identificado uma vez ou outra, mas a posição “not like other girls” da protagonista perante tudo o que é convenção ou tradição parece-me forçada.
Minha mãe acha que mulher que tem filha mulher nunca mais se sente só. Fiquei aliviada e horrorizada. E depois só horrorizada. Como alguém vai escrever um roteiro premiado de cinema se não ficar sozinha? Como alguém vai deitar no chão do banheiro com as pernas apoiadas na borda da banheira até passar a angústia se não ficar sozinha?
Tati e mais um livro absolutamente incrível. Só tenho pena de o ter lido depois de Homem-Objecto, as inquietações de um são muito semelhantes com as de outro, mas em nada tira o brilho desta bela obra. As personagens icónicas deste livro vão ficar durante muito tempo.
a sinopse deste livro não lhe faz justiça, ele é muito mais lindo do que promete ser à primeira vista. sobre ser mãe, filha, mulher. não sou mãe mas sei que se um dia for vou-me lembrar da Tati.
Ri tanto com este livro! A Tati Bernardi é uma grande cronista e isto é um livro de crónicas disfarçado. É impressionante como ela nos consegue fazer rir não só com coisas engraçadas, mas também com a perspectiva dela de momentos muito tristes da sua própria vida. Li em dois dias e diverti-me muito. Já fui comprar os outros :)
“Não serei eu a única que lhe sobrou, com minhas costas sempre cansadas e encurvadas por carregar a sua mochila cheia de cabeças cortadas de homens que não valiam nada, a dividir um sorvete com você sábado à tarde, camuflando com doses altas de açúcar sua desesperança, sua desistência. Vou passar esse sorvete no pau do primeiro desgraçado que entrar agora nessa sorveteria incestuosa, e, mesmo que ele não valha nada, preservarei sua cabeça apenas para que ele possa comandar o fim dessa palhaçada. E manterei o erro apenas porque preciso de um erro para fora de nossa bolha do amor. E confundirei qualquer desgraçado com amor apenas porque será preciso alguém muito forte pra nos romper, mãe.”
"Minha mãe me cobra há 35 anos pelos 9 meses que passei na barriga dela" Essa frase resume bem o livro. Em uma espécie de fluxo, a personagem descreve como pode (ou tenta) se imaginar mãe, revivendo cada um de seus problemas com a própria mãe. Eu achei tão tão real que acho que eu me projetei mais do que o livro se projetou em mim. Cada um tem seus próprios problemas com a mãe ou as figuras de mãe que passaram na vida e cada uma, ao seu modo, se cria como alguém que quer o seu melhor mesmo quando faz da sua vida um inferno. E isso se traduz em cada pedacinho do livro, em cada uma das brigas internas sobre querer voltar pra comer a comida da mãe e fugir de casa, sobre querer um colo mas não querer ser sufocado.
A escrita da Tati é bem característica. Mesmo em uma obra ficcional, conseguimos ver onde a narrativa se cruza com a vida pessoal da autora... Ri, me emocionei e me identifiquei com muita coisa dita pela Karine. Mais um livro sensacional da Tati!
Muito engraçado, foi uma leitura diferente, li durante algumas horas e adorei esta sugestão de leitura feita por uma amiga. Uma escrita muito sincera,linguagem brejeira e divertida ao mesmo tempo.
Karine é uma mulher de 35 anos e está grávida. Esta protagonista e narradora relata-nos a relação nada próxima ou afetuosa com a sua mãe, as experiências amorosas e sexuais de uma vida inteira e a forma como vive a primeira gravidez. Sem fofuras ou laços cor-de-rosa, a narradora encara o medo, as dificuldades e os aspetos mais desagradáveis da condição de gestante com realismo. O seu relato é cru.
Mas nem tudo é tristeza, também há ironia e sentido de humor.
“Se essa doula vier mais uma vez com a bola de pilares e te mandar ter paciência, você enrosca a mangueirinha de oxitocina na garganta dela, combinado? Mais uma cardiotoco ou exame de toque e você quebra o hospital inteiro, formô? Vamos pular logo pra depressão pós-parto, porque o tempo urge.”
Gosto muito de ler a Tati Bernardi. Não foi amor à primeira lida. O jeito sincerão demais de contar problemas de gente bem de vida me davam um pouco de cansaço. Só que com o tempo comecei a admirar a objetividade da escrita e o despudor em abrir medos e bolas fora. Esse livro gira em torno da maternidade. Mais da relação dela com a própria mãe do que com a filha que estava esperando. São 46 capítulos escritos na forma de crônicas rápidas, do tamanho de uma coluna de jornal. Há coerência entre os capítulos e a leitura flui muito bem. Porém, a obsessão pela aprovação da mãe permeia quase a obra toda e começa a cansar lá pro final. É um livro pequeno e fácil de ler. Gostei.
É uma história sobre como filhas se tornam mães e mães se tornam filhas. É uma história sobre mulheres vivendo no gozo do ápice das suas emoções mais dolorosas até aquelas que nem sob tortura confessaria. Homens são meros coadjuvante - como fomos para eles por muito tempo
Gosto de como Tati navega entre a docilidade da relação entre as mulheres vista de um ângulo divino até o sentimento irracional de que você está refém de um relacionamento sujo e doentio.
É a história de uma família que pode ser da Tati, da protagonista ou a minha.
Recebi essa ARC pela editora através do NET GALLEY.
Estava a precisar de uma leitura com mais ritmo e esta chegou no momento certo. Ri-me muito com a protagonista, porque tem uma forma descomplicada de ver o mundo, ainda que também se revista de inseguranças e de medos. E acho que o torna este livro tão especial é mesmo esse equilíbrio entre a tristeza e o cómico; entre a angústia e a tentativa de amenizar os receios. Karine não é pretensiosa e as coisas são como são, por isso, não faz por romancear o que lhe acontece, o que pensa, nem filtra a sua personalidade. Além disso, é um livro sobre relações entre mães e filhas e sobre o quanto nos vamos moldando nestes vínculos. Que surpresa tão boa!
Senha preferencial número 898. Karine, grávida da sua primeira filha, fala com Beth (monologa com Beth) sobre si, sobre a sua relação com a gravidez, sobre a sua relação com a sua própria mãe, sobre a relação com as outras mulheres da sua vida, como a sua avó ou Tias. Sobre a sua relação com Belenzinho, a sua terra natal. Fala sobre o quanto se quer desprender mas ao mesmo tempo sobre o quanto quer continuar a ficar presa. Ri muito com este livrinho, estou a descobrir que a literatura brasileira feminina contemporânea está cheia de tesouros irónicos e satíricos no meio das linhas...
"Fui a criança mais assistida, mais amparada, mais pelo-amor-de-Deus-coma-alguma-coisa, mais sopinha-na-boca, mais frutinha-cortada, mais bota-ela-na-balança-pra-ver-se-engordou, mais magrinha-assim-é-perigoso-pegar-virose. Contudo, sofri de obesidade mórbida de pensamentos, em silêncio. Minha brincadeira predileta na infância era não estar apavorada."
"Talvez a sensação de liberdade, de poder pensar e ser e dizer o que queria, teria soado a ela, e a todos, como doença. Talvez seu único e último suspiro como mulher desejante tenha sido a insanidade."
Que ótima primeira experiência a ler Tati Bernardi! Com este livro rimos e choramos, o humor sarcástico triste presente ao longo das páginas é incrível e a abordagem da relação mãe/filha está muito bem construída.
Depois de ler o “Depois a Louca sou eu” e ter adorado, este foi o segundo livro da autora que li. Um livro focado na relação mãe-filha e todas as inseguranças, medos e ansiedades que surgem nessa dinâmica. Como é típico da Tati Bernardi, mistura momentos de comédia com uma sensibilidade tocante que torna a leitura leve e envolvente. Apresenta uma visão honesta e muitas vezes hilariante sobre esses laços familiares.
“’É uma menina, mãe.’ E ela respondeu na lata, sem pensar, apenas esta frase: ‘Você nunca mais vai ficar sozinha’.”
“Porque, na verdade, a gente é muita coisa e não dá pra ser todas ao mesmo tempo… mas, com criança pequena, é preciso ser mãe o tempo todo… e eu nunca fui nada ininterruptamente.”
Quando comecei, percebi que ia ser uma jornada de risos, devido ao humor tão parecido ao meu, e de lágrimas entranhadas nas entrelinhas. E assim foi. Se pudesse descrever o que é o meu instinto maternal - ou o que o meu relógio biológico recentemente quer fazer parecer - é este livro. Na mesma frase, no mesmo pensamento, no mesmo som proferido é a coisa mais estranha e negativa de sempre, mas também o sonho tornado realidade.
Naquilo que é um monólogo, Karine é a mulher mais consciente, real, respeitadora e amiga das mulheres. Revi-me muito (e à minha família) na história, tanto pelo bom como pelo mau. Este livrinho vai comigo para a cova.
Desconfio que a Tati Bernardi vive na minha cabeça; “Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha” é o segundo livro que leio da autora — o primeiro foi o “E a Louca Sou Eu” — e que, mais uma vez, me faz dar gargalhadas em público e querer sublinhar tantos excertos dos pensamentos e falas das suas personagens femininas porque me identifico muito com elas.
Acho que vou oferecer um à minha mãe porque gostei muito e acho que ela também pode gostar.
“Eu nunca conquistei de verdade a minha mãe. Ela nunca me achou realmente bonita ou realmente inteligente. Ela só tem muito medo de eu ficar doente e a isso chamamos amor. Eu não sei mais o que eu poderia ser para conquistar a minha mãe. Mas se eu fico doente, ela me ama na hora.”
Adorei a forma crua e divertida como ela aborda os grandes dilemas da maternidade. Aborda de forma direta as questões mentais neste período delicado da vida de uma mulher, o que é interessante. Só dou três estrelas porque é uma leitura muito específica e porque senti sempre ali um travozinho de tristeza. Não é uma leitura fácil.
Sei que é um tema em que a Tati navega em muitas crónicas, mas ver a relação entre mãe e filha explorada aqui de uma forma mais intensa fez-me todo o sentido no universo de temáticas que ela aborda — sem nunca esquecer o sentido de humor e as marcas de linguagem já tão características.
Apesar de ser uma leitura leve e aparentemente simples, os temas desenvolvidos pelas autora são extremamente profundos e sensíveis. Com bastante humor e um toque de ironia, a Tati consegue captar uma dimensão sútil da realidade e das relações. O livro ao mesmo tempo em que nos diverte tbm nos põe diante das crises e sofrimentos da narradora. Vale demais a leitura!
Este livro é um verdadeiro murro no estômago. É um livro tão inquietante quanto maravilhoso. É um livro que traz uma consciência tal, que é assustador a forma como roça a loucura sem se tornar desumano. É maravilhoso ver como o humor é usado de forma a dar a volta a todo a este sofrimento, contudo sem nunca o perder de vista - conseguindo-o com uma linguagem de tal forma crua, que traz mais emoção que qualquer floreado poderia trazer.
Um livro sobre transgeracionalidade. Um livro sobre amor, sobre amor doentio. Um livro sobre maternidade. Um livro sobre famílias. Um livro sobre loucura. Um livro sobre liberdade.