O facto da nossa história ser um percurso de idas e vindas no qual a memória costuma ficar para trás gera nos ativismo uma certa sensação de "estar continuamente a colocar a primeira pedra" das nossas armações coletivas. No entanto, as olhadas para o passado mostram-nos todos os dias que muitas das questões que nos espreitam já estiveram presentes em debates antigos. Não se trata apenas de (re)conhecer o que nos precedeu, mas de (re)utilizar aquelas ferramentas teóricas num tempo em que se tornaram assaz úteis. Nesse caminho, o trabalho de Ira é fundamental, pois regata referentes, propostas teóricas e ferramentas analíticas para as pôr a dialogar no enquadramento do marxismo queer. Primeiro, apresenta uma genealogia transfeminista que tem as suas raízes no movimento abolicionista negro; depois, retrata o género como uma forma de (não) trabalho e, por fim, apela à abolição do género tal como o entendemos para o expandir.