Não há nada que supere uma história de amor que não chegou a ser vivida, que não sofreu o desgaste da rotina e das pequenas ninharias do dia-a-dia que inquinam uma relação. Assim é o sentimento que une Ana e Zeno durante 37 anos e que o leitor fica a conhecer através de uma GN contada em sentido inverso ao habitual, desde o presente até ao dia em que se conhecem, pondo na prática a própria tese de doutoramento que o protagonista defende 40 anos depois de a ter iniciado:
Uma vez restabelecida a ordem, o tempo seguiria o seu curso. Mas desta vez ele poderia escolher em que direção seguir… para a frente… ou para trás. Com destino ao início de todas as coisas.
Ana e Zeno, A e Z, são os opostos, aqueles que famosamente se atraem. Ela é a certinha, ele é o aventureiro; ela é a mulher que constituiu família, ele é o marinheiro que tem uma apaixonada em cada porto. Se fosse o único cliché… “Apesar de Tudo” é um desfile de lugares-comuns que fazem bufar quem não tem um pingo de romantismo. A saber. Como Zeno está num barco e quer escrever a Ana sem saber a morada dela, manda-lhe cartas em garrafas que atira ao mar. Quando está a navegar por entre os fiordes, a que é que Zeno assiste? Será a uma aurora boreal? E em Veneza, o que é que Zeno faz? Rema numa gôndola para um velho amigo, Romeu, fazer uma… wait for it…serenata ao seu amor proibidos, a sua… Isso. E Ana, sendo protagonista de uma GN francesa, será que se despe? Fácil. Se as leitoras têm toujours l’amour, os leitores têm de ter o seu amuse-bouche. Repito, não há surpresas aqui. Salva-se a estrutura original e as cores distintas de cada capítulo que criam cenários perfeitos.
Separados pelo infinito. Unidos pelo horizonte. Duas linhas paralelas que, enfim, se encontram. Talvez um dia… Talvez para sempre. Talvez.